Hospitais lotados: Ontário pagará por cuidados intensivos em casa para acelerar altas

Chamado de "High-Intensity Bundled Home Care", o programa foi desenhado para oferecer atendimento de nível hospitalar na própria casa do paciente

Por Austin Andru | LJI Reporter-
6 Min

Foto: Fred Lum/The Globe and Mail

Enfrentando uma crise de superlotação hospitalar, o governo de Ontário está lançando uma nova estratégia para mover pacientes para fora dos hospitais mais rapidamente: um programa de cuidados domiciliares intensivos. A medida visa liberar leitos ocupados por pacientes que poderiam estar em outro lugar.

Chamado de "High-Intensity Bundled Home Care", o programa foi desenhado para oferecer atendimento de nível hospitalar na própria casa do paciente.

O público-alvo principal são aqueles que, embora não necessitem mais de tratamento médico hospitalar agudo, ainda demandam um nível significativo de suporte. Isso inclui, majoritariamente, idosos e pacientes na fila de espera por vagas em lares de longa duração (long-term care), que hoje ocupam leitos hospitalares por falta de opções.

A Ontario Health atHome, agência provincial responsável pela gestão de cuidados comunitários, já iniciou o processo de seleção de empresas para executar o serviço. Documentos internos obtidos pela CTV News mostram que o pedido de propostas foi emitido em 7 de novembro, com um cronograma acelerado que prevê o início do programa já em 8 de dezembro em regiões selecionadas.

 

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Como funcionará o suporte domiciliar

Pelo novo modelo, as agências de home care contratadas receberão uma taxa fixa por paciente. O valor será de $1.500 semanais ($6.000 mensais) para pacientes com necessidades de saúde mental ou dependência química, e sobe para $5.000 semanais ($20.000 mensais) para pacientes com alta demanda de cuidados médicos e pessoais, incluindo aqueles que aguardam vaga em lares de longa duração.

Cada paciente terá seu plano de cuidados gerenciado por um enfermeiro registrado, que liderará uma equipe multidisciplinar com trabalhadores de apoio pessoal (PSWs), fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. O serviço inclui cobertura médica de plantão 24 horas, além de logística para camas hospitalares, entrega de medicação, monitoramento virtual e acesso a programas de alimentação, como o "Meals on Wheels".

Lisa Burden, executiva da Ontario Health atHome, classificou a iniciativa como uma ampliação dos serviços comunitários. Nas próximas semanas, o foco será transferir três grupos prioritários para casa:

  • Idosos "em crise" que esperam por cuidados de longa duração e não têm segurança para viver sozinhos.
  • Pacientes da área de saúde mental ou dependências que aguardam vagas em locais de cuidados alternativos.
  • Pacientes que precisam de reabilitação, mas não encontram leitos disponíveis em clínicas especializadas.

O objetivo final, segundo Burden, é "ajudar pacientes a ficarem seguros em casa, reduzir idas desnecessárias ao pronto-socorro e aliviar a pressão sobre a capacidade hospitalar".

 

Desafios de uma implementação acelerada

O cronograma apertado do "High-Intensity Bundled Home Care" impõe um desafio logístico considerável. Documentos da agência indicam que a primeira fase mira cerca de 570 idosos com necessidades complexas, como demência severa ou problemas graves de mobilidade. A meta é que 100% desse grupo esteja em casa já em dezembro.

"Estamos falando dos pacientes que exigem os cuidados mais complexos", alertou um profissional de saúde que teve acesso à proposta, mas preferiu não se identificar. "São pessoas que precisam de dois cuidadores para mobilização, supervisão constante e suporte 24 horas. É um plano ambicioso, talvez até demais para um lançamento tão rápido."

 

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Profissionais da linha de frente também expressaram preocupação sobre a qualidade do serviço no modelo de "taxa fixa". "Eles pagam um valor único e esperam que o profissional faça quantas visitas forem necessárias", comentou outro trabalhador. "Mas nem toda visita pode ser feita às pressas."

Soma-se a isso a notória escassez de mão de obra no setor, especialmente de trabalhadores de apoio pessoal (PSWs).

"No papel, parece ótimo", avaliou o Dr. Alan Drummond, médico de emergência em Perth, Ontário. "Mas sabendo que a falta de pessoal afeta todo o sistema de saúde, de onde virão esses profissionais qualificados?"

A iniciativa também revela o alto custo que o governo está disposto a arcar para desocupar leitos. Se todos os 570 pacientes prioritários forem transferidos, o custo mensal do programa atingirá $11,4 milhões, sem que os documentos especifiquem uma duração máxima para esse cuidado intensivo.

 

A pressão sobre o sistema hospitalar

Os hospitais de Ontário vivem um momento crítico. Prontos-socorros estão lotados, e pacientes que necessitam de internação frequentemente não encontram leitos. Estudos indicam que de 15% a 20% dos leitos de internação são ocupados por pacientes em "nível alternativo de cuidados" (ALC) — ou seja, pacientes que não precisam mais de cuidados hospitalares agudos, mas não têm para onde ir.

Esses pacientes, por vezes chamados de "bloqueadores de leitos" (bed blockers), acabam ocupando vagas necessárias para novas internações, o que agrava a superlotação nas emergências e aumenta as filas de espera para cirurgias.

Relatórios recentes do governo projetam o pico de ocupação hospitalar para o início de janeiro, com o aumento esperado de casos de gripe, COVID-19 e RSV, afetando principalmente os idosos.

"Qualquer medida que libere leitos é positiva", afirmou Drummond. Ele ressalta que, em seu hospital rural, pacientes aguardando cuidados de longa duração chegam a ocupar 40% dos leitos.

A fase inicial do programa será implementada nas regiões com as maiores taxas de pacientes ALC, como Toronto Central, Mississauga Halton e partes do Leste Central e Norte de Ontário. Outras áreas poderão ser incluídas posteriormente.

Embora Ontário possua cerca de 650 agências de home care credenciadas, poucas (como Bayshore Home Health, Care Partners e Paramed) têm capacidade para operar em escala provincial. As agências interessadas têm até 20 de novembro para submeter suas propostas, e os contratos serão definidos rapidamente, até 27 de novembro.

FONTE: Austin Andru | LJI Reporter - Redação North News