Imigração do Canadá volta atrás e exige devolução de certificados de cidadania recém-emitidos; entenda
Nova lei gerou corrida por documentos antigos, mas falta de registros oficiais fez governo suspender cidadanias emitidas para investigação.
Adrian Wyld
Uma reviravolta na política de imigração do Canadá está deixando centenas de pessoas em um verdadeiro limbo jurídico. Cidadãos que recém-obtiveram a comprovação de sua cidadania canadense, amparados por uma legislação aprovada no ano passado para os chamados "Canadenses Perdidos" (Lost Canadians), estão recebendo ordens do governo para devolverem seus certificados.
O advogado de imigração Amandeep Hayer revelou que um de seus clientes recebeu uma notificação oficial do Ministério da Imigração, Refugiados e Cidadania do Canadá (IRCC). O documento informa que o certificado deve ser entregue às autoridades devido a uma investigação em andamento. O motivo? O processo de solicitação não apresentou certidões de fontes originais oficiais (como cartórios de registro civil) que comprovassem o parentesco canadense, além de não justificar a ausência de tais documentos nem detalhar os esforços feitos para consegui-los.
"Em geral, o IRCC aceita provas alternativas, mas eles exigem que você tente obter as certidões de nascimento oficiais primeiro", explicou Hayer. Com base em relatos em fóruns como o Reddit, o advogado estima que pelo menos algumas centenas de pessoas já tenham recebido cartas semelhantes.
Entenda o caso e a mudança na lei
A polêmica começou com a aprovação do Projeto de Lei C-3, que estabeleceu novas regras para a cidadania por descendência. A medida foi criada para substituir uma lei da era do ex-primeiro-ministro Stephen Harper, que limitava a transmissão da cidadania apenas à primeira geração nascida fora do Canadá — restrição que foi considerada inconstitucional pela Suprema Corte de Ontário.
A nova legislação determina que qualquer pessoa nascida ou adotada fora do país antes de 15 de dezembro de 2025 é automaticamente canadense, desde que comprove ter pai ou mãe canadense. Como a regra também se aplica a pais que se tornaram cidadãos por causa dessa mesma lei, o direito pode retroceder por várias gerações.
Segundo Hayer, essa mudança fez com que muitas pessoas buscassem profundamente em suas árvores genealógicas por antepassados canadenses. No entanto, achar papéis tão antigos é um desafio, levando os candidatos a recorrerem a dados de censos, registros de batismo e até sites de genealogia como o Ancestry.com.
A regra muda para quem nasceu ou foi adotado no exterior a partir de 15 de dezembro de 2025: nesses casos, a cidadania por descendência só é concedida se o pai ou mãe canadense tiver morado no Canadá por, pelo menos, três anos cumulativos antes do nascimento do filho.
Especialistas criticam a gestão do processo
Procurados pela reportagem, o IRCC e o gabinete da Ministra da Imigração, Lena Diab, ainda não se pronunciaram.
Maureen Silcoff, advogada de imigração com 38 anos de experiência, afirmou que nunca viu uma situação parecida e que a retirada dos certificados levanta sérias dúvidas sobre a gestão do ministério. "A primeira pergunta é: por que o certificado foi emitido se os requisitos não haviam sido cumpridos? A segunda é: será que a justificativa foi enviada pelo candidato, mas acabou passando batida pelo agente?", questionou Silcoff. "De qualquer forma, é um problema sério que deixa as pessoas sem um status legal definido."
A carta enviada pelo governo esclarece que os afetados terão a oportunidade de apresentar novas provas documentais para defender o direito à cidadania. Se os documentos forem aceitos, o certificado será devolvido. Por enquanto, o sistema do governo foi atualizado para mostrar que a cidadania dessas pessoas está "sob revisão".
Para quem recebeu a notificação, a orientação dos especialistas é entrar em contato imediato com o IRCC e, se possível, fazer um pedido formal de Acesso à Informação (Access to Information Act) para verificar o histórico e as notas deixadas pelos agentes de imigração no processo.