Escândalo na Imigração do Canadá: Relatório vaza fraudes, assédio e até violência de funcionários
Documento do IRCC revela mais de 100 casos de má conduta, incluindo funcionário com dois empregos públicos e espionagem de dados. Veja as punições.
Divulgação
Casos de fraude, assédio sexual, violência, racismo e outras irregularidades envolvendo funcionários do governo canadense vieram à tona em um novo relatório divulgado pelo Immigration, Refugees and Citizenship Canada (IRCC), órgão responsável pela imigração, cidadania e refúgio no país.
De acordo com o documento, foram registrados 105 casos confirmados de má conduta e irregularidades cometidas por funcionários durante o ano fiscal de 2024-2025. As ocorrências resultaram em pelo menos três demissões e 47 suspensões sem remuneração.
Entre os casos mais frequentes estão problemas relacionados à gestão do tempo de trabalho. Ao todo, 47 ocorrências envolveram fraude de horas trabalhadas, atrasos recorrentes, faltas injustificadas ou licenças não autorizadas.
Um dos episódios mais graves envolveu um funcionário do IRCC acusado de ocupar simultaneamente dois cargos federais de tempo integral durante três anos e meio. Segundo a investigação, além de receber pelos dois empregos, o servidor teria apresentado solicitações falsas de horas extras.
Um relatório complementar apontou ainda que o funcionário manipulava relatórios de produtividade e enviava e-mails em horários estratégicos para dar a impressão de que estava trabalhando ativamente, induzindo seus supervisores ao erro. O servidor pediu demissão enquanto a investigação ainda estava em andamento.
Outro caso classificado como de “má gestão grave” envolveu um executivo do IRCC, em Ottawa, acusado de favorecer profissionalmente uma subordinada com quem mantinha um relacionamento amoroso. O mesmo gestor também teria utilizado linguagem considerada altamente desrespeitosa com colegas e integrantes da equipe.
O relatório também menciona um funcionário lotado fora do Canadá que mantinha um blog público no qual comentava aspectos de seu trabalho em uma embaixada. Nas publicações, ele compartilhava detalhes de conversas privadas com colegas e expressava opiniões sobre o governo e a população do país onde atuava, além de posicionamentos políticos que poderiam prejudicar a reputação do departamento.
Uso indevido de computadores e acesso a informações sigilosasAs investigações também identificaram violações relacionadas ao uso de equipamentos e redes governamentais. Entre as acusações estão a instalação de softwares não autorizados para impedir que computadores entrassem em modo de repouso, o acesso a conteúdo explícito em equipamentos de trabalho e até a conexão de dispositivos utilizados para invasão de sistemas em computadores ou redes do governo.
Em outro caso, um funcionário teria utilizado o sistema interno de gerenciamento de processos do departamento para obter informações sobre uma pessoa contra a qual movia uma ação judicial.
O relatório cita ainda episódios envolvendo comentários racistas, contato físico inadequado, assédio sexual, comportamento violento, compras não autorizadas com cartões corporativos e acesso indevido a processos de imigração de familiares, amigos ou dos próprios funcionários.
“Algum nível de irregularidade vai ocorrer”No documento, o vice-ministro da Imigração, Ted Gallivan, reconheceu a importância das decisões tomadas pelo departamento e admitiu que, em uma organização com mais de 10 mil funcionários, casos de má conduta podem ocorrer.
“Em uma organização com mais de 10 mil funcionários, algum nível de irregularidade vai acontecer”, escreveu Gallivan.
Ele destacou, porém, que a denúncia desses casos é fundamental para garantir a integridade da instituição.
“Relatar essas situações é essencial, pois estamos comprometidos em analisar todas as alegações de má conduta por meio de avaliações e investigações detalhadas, além de aplicar medidas administrativas quando necessário”, afirmou.
O relatório, publicado no mês passado, reúne os casos considerados procedentes durante o ano fiscal de 2024-2025, incluindo investigações que tiveram início em anos anteriores.
Mais de 1.600 casos no serviço público federalA divulgação ocorre após o governo federal determinar, em 2024, que departamentos e agências federais passassem a produzir relatórios anuais sobre má conduta de servidores.
Uma investigação recente revelou que mais de 1.600 casos de irregularidades envolvendo funcionários públicos federais foram registrados no último ano. As ocorrências resultaram em pelo menos 145 demissões e 783 suspensões sem remuneração.
Entre os órgãos envolvidos estão a Polícia Montada do Canadá (RCMP), o Serviço Correcional do Canadá e dezenas de outros departamentos, agências e escritórios federais.
Para Franco Terrazzano, diretor da Canadian Taxpayers Federation, a divulgação desses dados é uma questão de transparência com os contribuintes.
“Os contribuintes pagam a conta e merecem essa transparência para saber o que está acontecendo na burocracia que financiam”, afirmou.
Segundo ele, os canadenses têm motivos para demonstrar insatisfação diante das ações de alguns servidores públicos envolvidos nesses casos.