Canadá perde status de 'livre de sarampo'
Especialistas listam falhas sistêmicas: crise na saúde, falta de registro vacinal e desinformação
Foto: Ahmed Zakot/Reuters
Após mais de um ano lutando contra surtos de sarampo, o Canadá perdeu oficialmente seu status de eliminação da doença, um título que detinha desde 1998. A revogação foi anunciada na segunda-feira pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/PAHO) e, segundo especialistas, expõe uma crise multifacetada no sistema de saúde do país.
Especialistas em doenças infecciosas apontam que a situação é resultado de cortes no financiamento da saúde pública, da crescente crise na falta de médicos de família (cuidados primários) e da circulação desenfreada de desinformação sobre vacinas.
Dawn Bowdish, imunologista da McMaster University, afirma que reverter o cenário exigirá um investimento financeiro e político massivo. Ela explica que os profissionais de saúde pública estão sem recursos para intensificar a vigilância, identificar casos rapidamente e realizar campanhas de vacinação eficazes.
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Uma falha central apontada por Bowdish é a ausência de um registro nacional de vacinas. Sem ele, canadenses que se mudam de província ou imigrantes têm dificuldade em comprovar ou verificar se suas vacinas estão em dia.
Matthew Miller, também da McMaster University, descreve um registro nacional como o "Santo Graal", mas sugere que uma solução mais realista seria criar sistemas provinciais eletrônicos capazes de trocar informações. Ele destaca que esses sistemas poderiam enviar lembretes automáticos, ajudando não apenas os hesitantes, mas também "muitas pessoas que perdem vacinas simplesmente porque esquecem".
A Agência de Saúde Pública do Canadá já desenvolve um sistema chamado STARVAX, mas ele cobre apenas uma pequena parte do país (cinco províncias e um território). O Dr. Daniel Salas, da OPAS, enfatiza que um sistema eletrônico nacional é um passo crucial.
A crise de cuidados primários agrava o problema. Bowdish lembra que farmácias não aplicam a vacina MMR (sarampo, caxumba, rubéola) em crianças muito pequenas. Assim, famílias sem um médico de família ou enfermeiro de referência correm sério risco de ficar para trás no calendário vacinal. "Se você não tem um cuidado consistente, essas coisas são deixadas de lado", lamenta.
Para uma doença tão contagiosa quanto o sarampo, a imunidade de rebanho exige 95% de cobertura. Bowdish critica províncias como Alberta e Ontário, epicentros dos surtos, por serem "muito liberais" com as regras de isenção de vacinas nas escolas. Ela defende que apenas isenções por razões médicas comprovadas sejam aceitas.
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"A vacinação é realmente a única saída", afirma Bowdish. Sem regras de isenção mais rígidas e um esforço direcionado em comunidades de baixa cobertura, o desafio de parar o sarampo endêmico será "quase intransponível".
Para reconquistar o status, a OPAS exige que o Canadá não só interrompa a transmissão por 12 meses, mas também prove que fortaleceu sua vigilância para conter futuros surtos.
Para Bowdish, o retorno do sarampo "mostra quantos sistemas terão que ser consertados". Ela elogia os colegas de saúde pública que "têm perdido o sono" trabalhando com recursos limitados. Miller espera que a perda do status sirva como um "chamado à ação" para governos e para o público.
A Dra. Monika Naus, da UBC, acrescenta que é vital investigar a fundo as comunidades com baixa vacinação para entender se o problema é de registro (crianças vacinadas, mas sem comprovante) ou de recusa vacinal. A OPAS também recomendou um plano para entender e quebrar barreiras nessas comunidades, algo que Naus acredita ser eficaz. "É provavelmente falso considerar que pessoas resistentes à vacinação nunca serão vacinadas sob nenhuma circunstância", conclui.