Relatório revela o colapso oculto e mortal das filas de espera na saúde do Canadá
Entenda a falha no sistema de saúde canadense que custou a vida de 23 mil pessoas em um ano
Foto: Graham Hughes/The Canadian Press
Um novo e alarmante relatório lança luz sobre uma crise silenciosa no sistema de saúde do Canadá: dezenas de milhares de pacientes estão perdendo a vida enquanto aguardam por cirurgias ou exames diagnósticos essenciais.
Segundo dados divulgados pelo instituto de políticas públicas SecondStreet.org, pelo menos 23.746 pacientes morreram no Canadá entre abril de 2024 e março de 2025 enquanto estavam em listas de espera médica.
Esse número representa um aumento de 3% em relação ao ano anterior e eleva o total de óbitos registrados nessas circunstâncias desde 2018 para mais de 100.000.
O relatório, baseado em pedidos de acesso à informação enviados a mais de 40 órgãos de saúde provinciais e territoriais, destaca que a maior parte dessas mortes ocorreu entre pacientes que aguardavam procedimentos capazes de melhorar sua qualidade de vida, como cirurgias de quadril, joelho e catarata, ou exames de ressonância magnética.
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No entanto, uma parcela significativa envolvia intervenções potencialmente salvadoras, como cirurgias cardíacas e tratamentos contra o câncer.
Por trás dos números, vidas reais
As estatísticas frias escondem tragédias familiares, como a de Debbie Fewster, uma mãe de três filhos de Manitoba. Em julho de 2024, ela foi informada de que precisava de uma cirurgia cardíaca urgente dentro de três semanas.
Em vez disso, a espera se estendeu por mais de dois meses. Debbie faleceu no Dia de Ação de Graças. Sua história, assim como a de muitos outros, só veio a público porque a família decidiu falar abertamente.
Casos semelhantes ecoam por todo o país: Laura Hillier, de 19 anos, e Finlay van der Werken, de 16, ambos de Ontário, morreram à espera de tratamento. Em Alberta, Jerry Dunham faleceu em 2020 aguardando um marcapasso.
O cenário nas províncias
Os dados revelam disparidades regionais e lacunas preocupantes no rastreamento dessas informações:
- Ontário: Dados da Ontario Health indicam que 355 pacientes morreram enquanto aguardavam cirurgias ou procedimentos cardíacos. Embora muitos casos não tivessem metas de tempo de espera definidas, houve pelo menos 90 situações em que os pacientes faleceram após esperar além do prazo alvo estipulado ou por mais de 90 dias.
- Colúmbia Britânica: Na região de Interior Health, quase 1.600 pacientes morreram na fila de espera em 2024-25, marcando o maior número em seis anos.
- Quebec: Na região da capital, 332 pacientes faleceram nessas circunstâncias.
- Pradarias e Atlântico: O relatório aponta que os números reais são provavelmente muito maiores, já que províncias como Alberta e partes de Manitoba não incluíram todos os dados, e alguns órgãos de saúde contabilizaram apenas cirurgias, deixando de fora as mortes em filas para exames diagnósticos.
"O que é realmente triste é que, por trás de muitas dessas cifras, há histórias de pacientes sofrendo em seus últimos anos — avós lidando com dores crônicas à espera de operações no quadril, pessoas deixando filhos para trás ao morrerem aguardando cirurgias cardíacas; é muito sofrimento", lamentou o presidente da SecondStreet.org.
A organização critica a falta de transparência, apontando a hipocrisia de governos que inspecionam e reportam publicamente falhas menores em restaurantes, mas não divulgam proativamente dados sobre cidadãos morrendo à espera de cuidados básicos de saúde.