Exigências abusivas transformam a entrada nos EUA em um pesadelo burocrático
Tratados como invasores? Nova hostilidade na fronteira dos EUA faz turistas canadenses cancelarem viagens e boicotarem o país
Foto: Justin Tang/AP
Viajantes canadenses estão vivenciando experiências distintas e, muitas vezes, confusas ao cruzar a fronteira para os Estados Unidos, reflexo de novas diretrizes que endurecem o controle de entrada no país vizinho.
Angela e Leigh Faubert, um casal que há anos passa os invernos viajando pelos EUA, deparou-se com um cenário inédito em sua travessia mais recente, em 6 de novembro, entre Aldergrove (Colúmbia Britânica) e o estado de Washington.
“Assim que cruzamos, pediram para eu encostar o carro e entrar em um pequeno prédio”, relatou Leigh. “Tive que tirar minhas impressões digitais, mostrar meu passaporte, tirar uma foto e pagar uma taxa que, se não me engano, foi de 30 dólares. A foto foi tranquila, mas achei a exigência das digitais um pouco excessiva.”
Curiosamente, enquanto Leigh foi submetido a todo esse processo, Angela passou sem problemas. Ela utilizou seu cartão de Certificado Seguro de Status Indígena (SCIS), o que a isentou das novas verificações. “Fiquei muito surpresa por não ter tido problemas usando meu cartão SCIS em vez do passaporte”, comentou ela.
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O novo cenário de regras na fronteira
Esses relatos são apenas a ponta do iceberg de um sistema em transformação. Em 20 de janeiro de 2025, o presidente dos EUA, Donald Trump, assinou uma ordem executiva intitulada "Protegendo o Povo Americano Contra Invasão", que impôs requisitos mais rígidos para visitantes estrangeiros.
As principais mudanças incluem:
- Registro obrigatório para estadias longas: o Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) agora exige que todos os não-americanos que permaneçam no país por mais de 30 dias se registrem junto ao governo.
- Formulário I-94: canadenses que planejam ficar mais de 30 dias devem preencher o formulário I-94 e registrar-se nos Serviços de Cidadania e Imigração dos EUA logo na entrada.
- Biometria expandida: a partir de 26 de dezembro de 2025, novas medidas de segurança entrarão em vigor, tornando obrigatória a coleta de impressões digitais e fotografias para visitantes.
O clima de incerteza já afeta o emocional dos viajantes. “Foi um pouco intimidador chegar à fronteira por causa de toda essa confusão”, desabafou Angela, citando histórias de compatriotas que foram barrados.
Relatos de desencontro de informações
A falta de clareza não é um caso isolado. Owa Schlaikjar e Yvonne Fostey, moradores de Winnipeg que possuem propriedade no Arizona, também enfrentaram dificuldades. Cientes das mudanças, eles se anteciparam e preencheram os formulários I-94 conforme recomendado. No entanto, ao cruzarem a fronteira em 18 de novembro, a recepção foi inesperada.
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“A agente da alfândega perguntou por que estávamos mostrando aquele papel”, contou Yvonne. “Explicamos que entendíamos ser obrigatório. Ela respondeu: ‘Da próxima vez, ligue direto para o porto de entrada. É tudo como sempre foi (business as usual). Vocês não precisam desse formulário preenchido’.”
A situação gerou frustração. Owa, que havia pago antecipadamente pelo processo, sentiu-se lesado. “Foi a primeira vez que paguei para entrar nos Estados Unidos. Basicamente, foi uma perda de tempo e dinheiro. Isso deixa as pessoas angustiadas e confusas. Quero espalhar a mensagem de que, no fundo, as coisas podem estar normais, mas a confusão é real.”
A importância do planejamento
Diante desse cenário volátil, Ksenia Tchern McCallum, advogada licenciada no Canadá e nos EUA, alerta que o preparo é a melhor defesa. Segundo ela, cada guarda de fronteira pode ter exigências ou perguntas diferentes, o que explica a inconsistência nos relatos.
Ela recomenda que os viajantes tenham respostas e documentos prontos para as seguintes questões:
- Onde você vai ficar? (Tenha o endereço em mãos).
- Quanto tempo vai ficar? (Tenha a passagem de volta ou um plano claro de retorno).
- Como vai se sustentar financeiramente?
- Você tem seguro saúde?
- Quais são seus laços com o Canadá? (Emprego, família, animais de estimação).
“O objetivo deles é determinar se suas intenções são honestas e se você não está entrando para trabalhar ilegalmente”, explica McCallum. “Sim, há um escrutínio maior, mas se você for honesto e tiver um plano claro, não deve ter problemas.”
Mudança de planos e boicote
Para alguns, o novo clima político e as regras mais rígidas foram a gota d'água. Eric Fagen e sua família, que costumavam passar cinco meses por ano viajando de trailer pela Flórida, decidiram mudar o destino este ano.
“Originalmente, planejávamos voltar, até começarem os ataques ao Canadá por parte da atual administração americana”, disse Fagen. A atmosfera política hostil pesou na decisão difícil de não ir aos EUA. “Lamentamos não ir, pois fizemos grandes amigos lá, mas não estamos nos ‘divorciando’ totalmente dos EUA, apenas dando um tempo”, concluiu, esperançoso de retornar um dia ao parque de trailers que chamava de lar no inverno.