Com crianças detidas e mortes sob custódia, novo conselho aos canadenses é cancelar viagens aos EUA
Dados revelam aumento de prisões de canadenses na fronteira pelo ICE, mesmo por infrações leves. Especialistas recomendam evitar viagens.
Foto: JASON REDMOND/AFP via Getty Images
Um número crescente de canadenses — incluindo crianças pequenas — tem sido detido ou preso por autoridades de imigração dos Estados Unidos nos últimos dois anos.
O alerta vem de novos dados governamentais obtidos através de um processo judicial federal nos EUA, analisados por especialistas que agora sugerem que os riscos de cruzar a fronteira podem superar os benefícios.
A recomendação mais contundente veio de especialistas em imigração ouvidos pela reportagem, que foram diretos ao abordar os viajantes canadenses: "Meu conselho, na verdade, é: não vá. Acredito que, atualmente, os riscos superam qualquer recompensa", afirmou Mark Petrozzi, especialista em questões de fronteira.
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Mudança drástica na fiscalização
Sharry Aiken, professora da Faculdade de Direito da Queen's University, explica que o aumento acentuado nas detenções reflete uma mudança fundamental na forma como as leis estão sendo aplicadas, e não necessariamente um aumento na criminalidade dos viajantes.
"Não estamos falando de pessoas com histórico de agressões violentas ou qualquer tipo de violência", esclareceu Aiken à CTVNews.ca. "Estamos vendo infrações criminais muito leves, mas que agora são suficientes para atrair o radar da fiscalização dos EUA."
Historicamente, segundo a professora, casos de viajantes sem a documentação correta eram tratados de forma simples: a pessoa era apenas solicitada a retornar ao Canadá. "O que mudou é que, agora, as pessoas não são apenas mandadas de volta; elas estão sendo detidas como parte desse processo", alertou.
Cenário preocupante
Os dados revelados pelo Deportation Data Project mostram um cenário preocupante. Desde janeiro deste ano, mais de 200 canadenses passaram algum tempo sob custódia do ICE (Immigration and Customs Enforcement), um aumento significativo em comparação aos 137 detidos em todo o ano de 2024.
Ao analisar um período mais amplo, entre setembro de 2023 e meados de outubro de 2025, os registros indicam 434 estadias de detenção de canadenses.
O perfil dos detidos chama a atenção: a grande maioria — 366 pessoas — não possuía nenhum registro de crime grave (agravado). Apenas dois casos envolviam condenações por crimes graves. Em termos de infrações migratórias, os dados mostram que 94 canadenses foram detidos simplesmente por não possuírem vistos válidos, enquanto 66 foram mantidos presos por ultrapassarem o tempo de permanência de vistos de não-imigrante.
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Condições precárias e riscos fatais
Aiken descreveu as condições de detenção como alarmantes, citando casos de crianças mantidas em situações "egregias", sem acesso adequado a comida, cuidados de saúde ou tempo ao ar livre, além da falta de acesso a advogados.
Mais grave ainda, os dados do ICE revelaram que 15 pessoas morreram sob custódia da agência apenas em 2025. Um caso recente envolveu um detento com condições médicas pré-existentes que não receberam a devida atenção, resultando em deterioração física e mental antes do óbito.
Quem corre mais risco?
Embora qualquer viajante possa ser afetado, o alerta é ainda mais urgente para canadenses que não nasceram no Canadá ou que possuem status de proteção (refugiados). Aiken citou o caso de uma pessoa com status de proteção no Canadá que, ao tentar visitar um parente nos EUA, foi detida e deportada para um terceiro país, apesar de o Canadá ter concordado em recebê-la de volta.
"Qualquer um pode potencialmente ser pego nessa rede", disse Aiken. "Mas, certamente, pessoas que não são canadenses natos correm um risco maior."
"Segurança nacional"
É importante notar que este endurecimento nas fronteiras ocorre no contexto do segundo mandato de Donald Trump, iniciado em janeiro de 2025. A administração implementou uma série de ordens executivas visando a "segurança nacional", que impactaram diretamente o fluxo de viajantes.
- Registro de estrangeiros (Alien Registration): desde abril de 2025, novas regras exigem que canadenses que permaneçam nos EUA por mais de 30 dias se registrem ativamente (Formulário G-325R), uma exigência que pegou muitos "snowbirds" (aposentados que passam o inverno no sul) de surpresa. A falha neste registro tem sido um motivo frequente para complicações na saída ou reentrada.
- Cannabis: apesar da legalização no Canadá, o uso ou envolvimento com a indústria da maconha continua sendo um crime federal nos EUA e motivo para banimento vitalício. Relatos indicam que os agentes de fronteira intensificaram as perguntas sobre uso pregresso da droga, utilizando respostas honestas como base para negar entrada e deter viajantes.
- Tarifas e tensões comerciais: o clima político tenso, exacerbado por disputas comerciais e tarifas impostas aos produtos canadenses, criou um ambiente de "tolerância zero" nas fronteiras, onde a discricionariedade dos agentes (o poder de "dar uma chance") foi praticamente eliminada em favor de protocolos rígidos de detenção.