Em uma decisão histórica nesta sexta-feira, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou diversas tarifas impostas pelo presidente Donald Trump, incluindo algumas que afetavam diretamente o Canadá. A resposta do presidente, no entanto, foi imediata: durante coletiva na Casa Branca, Trump anunciou que assinará hoje uma ordem executiva para implementar uma nova tarifa global de 10%.
"Já está aprovado", diz Trump
Ao ser questionado se buscaria o apoio do Congresso para as novas taxas, Trump afirmou categoricamente que não precisa de permissão legislativa. "Já foi aprovado", declarou. O presidente sinalizou que, embora não possa mais usar as provisões da lei IEEPA (Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional) para esta rodada, ele possui "ferramentas ainda mais fortes" para manter seu regime comercial. "Temos alternativas. Ótimas alternativas", afirmou, sem dar detalhes específicos.
Ataque aos juízes e clima de tensão
Trump iniciou seu pronunciamento classificando a decisão judicial como "profundamente decepcionante" e disse sentir "vergonha" de alguns membros da Corte. Por outro lado, parabenizou os juízes que votaram a favor de seu governo. Segundo ele, "países estrangeiros que vêm explorando os EUA há anos estão em êxtase" com a decisão.
O clima na sala de imprensa da Casa Branca era de expectativa e até descontração momentânea. Enquanto aguardavam o presidente (que se atrasou por mais de uma hora), jornalistas reagiram com gemidos de desapontamento ao saberem que a seleção masculina de hóquei do Canadá havia marcado contra a Finlândia nas semifinais olímpicas (3 a 2 para o Canadá).
Impacto estratégico e comercial
Analistas, como David E. Sanger do New York Times, apontam que o momento da decisão é péssimo para Trump, que tem viagem marcada para a China em cinco semanas. Isso pode reduzir seu poder de barganha com a segunda maior economia do mundo.
Trump pretende agora invocar a "Seção 122", que permite tarifas de até 15% por um período de 150 dias. Após esse prazo, ele precisaria do Congresso. O presidente demonstrou encarar a decisão da Suprema Corte como algo pessoal, sugerindo que sua vitória eleitoral deveria protegê-lo de decisões judiciais contrárias.
O que muda para o Canadá?
Para especialistas, a ameaça ao Canadá continua viva. Carlo Dade, da Universidade de Calgary, explica que Trump deve apenas mudar o mecanismo legal: "Se ele perde uma ferramenta, usa a próxima, como a Seção 232, que foca em produtos específicos".
No cenário político canadense, as reações foram mistas:
Pierre Poilievre (Líder Conservador): Considerou a decisão um "passo na direção certa" e pediu colaboração com o governo federal. Ele defende que o foco deve ser na autossuficiência econômica e mineral do Canadá para ganhar força nas negociações.
Doug Ford (Premiê de Ontário): Chamou de "vitória importante", mas alertou que a luta continua, especialmente para proteger os setores de aço, alumínio e automotivo, que permanecem sob pressão.
Gavin Newsom (Gov. da Califórnia): Foi mais incisivo, chamando as tarifas de "extorsão ilegal" e exigindo que o governo Trump devolva o dinheiro aos americanos com juros.
Incerteza sobre reembolsos
A Suprema Corte não detalhou como o governo deve devolver os cerca de US$ 175 bilhões arrecadados ilegalmente. Especialistas jurídicos acreditam que cada importador terá que processar o governo individualmente no Tribunal de Comércio Internacional, um processo que pode levar até dois anos.
Conclusão para o setor empresarial
Embora a queda das tarifas baseadas na IEEPA seja positiva, ela não anula taxas específicas sobre metais e madeira. O economista-chefe do CIBC, Avery Shenfeld, observa que a decisão ajuda mais os concorrentes do Canadá, mas fortalece a posição canadense caso os EUA tentem sair do CUSMA (o novo NAFTA).
Como resumiu Candace Laing, da Câmara de Comércio do Canadá: "Este não é o último capítulo desta história sem fim. O Canadá deve se preparar para mecanismos ainda mais rudes de pressão comercial".
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