Um grupo de defesa formado por agricultores e organizações ambientais está pressionando a Health Canada (o órgão de saúde do país) para que o rótulo de carne de porco proveniente de animais editados geneticamente seja obrigatório.
No início deste ano, a agência federal aprovou a comercialização desses suínos para consumo humano. Trata-se de uma linhagem resistente ao vírus da Síndrome Reprodutiva e Respiratória Suína (PRRSV). Segundo a Health Canada, a tecnologia visa evitar mortes nos rebanhos, reduzir o uso de antibióticos e melhorar o bem-estar animal.
Sem riscos, sem rótulos?
Em comunicado, a agência afirmou que esses animais não apresentam riscos à saúde humana e possuem valor nutricional idêntico ao dos porcos comuns. Por não encontrar riscos de segurança, o órgão decidiu que não é necessário um rótulo especial. Para o governo, os animais são praticamente idênticos aos convencionais, exceto pela remoção da parte do gene sensível à infecção.
No entanto, Lucy Sharratt, coordenadora da Rede Canadense de Ação Biotecnológica (CBAN), discorda dessa abordagem. "Se esse produto chegar ao mercado, os canadenses não saberão o que estão comprando nas prateleiras", afirmou Sharratt, destacando que pesquisas indicam que mais de 80% da população deseja saber se os alimentos são geneticamente modificados.
Atualmente, a lei canadense não exige a identificação desses alimentos; existe apenas uma norma de rotulagem voluntária para as empresas que desejarem informar o consumidor.
O fim da fiscalização voluntária
A preocupação aumentou após o anúncio de que o Conselho de Normas Gerais do Canadá, responsável por esses padrões de rotulagem, encerrará suas atividades em 31 de março. Sem esse órgão, o futuro das normas de identificação voluntária é incerto. "O governo orienta o consumidor para a rotulagem voluntária enquanto desmantela o instituto que mantém esse padrão", criticou Sharratt em carta enviada à Ministra da Saúde, Marjorie Michel.
Resistência no setor produtivo
Nem todos os produtores estão entusiasmados. René Roy, presidente do Conselho Canadense de Suínos, afirmou que não pretende criar animais editados em sua fazenda no Quebec, pois acredita que o consumidor global ainda não se sente confortável com o produto.
Já Vincent Breton, presidente da empresa duBreton (certificada como orgânica), aponta uma injustiça financeira: se o rótulo não for obrigatório para quem usa a tecnologia, o custo de provar que a carne é "limpa" recairá sobre os produtores orgânicos e tradicionais. "Não é justo que quem não usa a tecnologia tenha que gastar para provar que é isento dela", desabafou.
Confiança e Transparência
Embora a Health Canada defenda que sua avaliação segue padrões científicos globais e consultas a órgãos como a OMS, a falta de transparência sobre os dados analisados — fornecidos pela própria empresa que desenvolveu a tecnologia, a Genus PLC — gera desconfiança. "Confiança exige transparência, e há 25 anos as regulamentações têm sido feitas a portas fechadas", pontuou Sharratt.
A Genus PLC já tem permissão para vender esses suínos nos EUA, Brasil, Colômbia e República Dominicana, mas ainda não iniciou as vendas à espera de autorizações em outros mercados importantes. Como o Canadá exporta 70% de sua carne de porco (cerca de US$ 5,5 bilhões anuais), o setor segue atento aos impactos que a aceitação dessa tecnologia terá no comércio internacional.
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