Do sonho ao papel, do papel à realização de um sonho

A história de como uma simples maquete impressa em papel A3 deu origem a um jornal que se tornaria voz da comunidade lusófona no Canadá.

Por Jacson Carvalho, especial para o North News-
5 Min

Do sonho ao papel, do papel à realização de um sonho
Jacson entrevistando Walter Chicharro, então prefeito de Nazaré, Portugal, durante evento em Toronto, no ano de 2018 (Fotos: Arquivo Pessoal)

Uma maquete impressa em papel A3, um computador com a tela amarelada e um sonho. Este era o retrato de um jornalista e um empresário em 2010.

Eu, jornalista recém-chegado ao Canadá, morava em Vancouver e estava focado no meu college e na experiência da nova cidade, na época das Olimpíadas de Inverno daquele ano.

Do outro lado do país estava um jovem pastor que pouco entendia de jornalismo, mas tinha uma comunicação incrível para a área comercial e administrativa. Ao lado dele estava sua esposa, Daiane, jovem e grávida da primeira filha. Juntos, três sonhadores.

O projeto inicial era rodar o primeiro jornal em Boston e Toronto. Fiz a minha parte: preparei a diagramação em um velho laptop Acer, com a tela amarelada. Confesso que isso me rendeu alguns graus de óculos mais tarde. Eu tinha um jornal nas mãos, mas não tinha clientes, amigos ou contatos — ninguém que pudesse acreditar naquele projeto. Denis tinha coragem, conhecimento, comunicação de vendedor e muita credibilidade na cidade.

Ao fim do projeto gráfico, eu e Denis saímos com uma maquete do jornal impressa em papel A3 pelas ruas de Toronto. Imagine só: o cliente precisava patrocinar algo que não existia, que nunca tinha visto. Foi assim, com coragem, que conseguimos em apenas uma semana todo o dinheiro antecipado para rodar a primeira edição do NN.

Ainda lembro da ansiedade de chegar à gráfica, do cheiro da tinta fresca no papel, do medo de encontrar erros ou problemas nas cores. Mas deu tudo certo e começamos a distribuir o jornal em todos os comércios da GTA (Greater Toronto Area).

Era só o começo. Eu preparava as entrevistas, saía às ruas ouvindo as pessoas e entendendo como era a comunidade lusófona. Denis buscava mais patrocinadores, agora muito mais preparado, porque tinha o primeiro exemplar em mãos para apresentar aos clientes. Daiane preparava os invoices e prospectava novos agendamentos.

As dificuldades foram muitas. Arrancamos sorrisos e gestos de parceria, mas também descobrimos a inveja. Algumas pessoas não gostavam do projeto, talvez pelo fato de Denis ser pastor. Achavam que seria um jornal “chapa branca”, que falaria apenas de igreja.

Na época, as pessoas conheciam o Denis, mas não sabiam que eu era jornalista com grande bagagem em jornal impresso, rádios importantes e oito anos na Record como repórter e apresentador. Nunca fiz questão de falar disso. Éramos apenas sonhadores, humildes, e sabíamos que o tempo mostraria que a confiança seria conquistada, não forçada.

A primeira situação de desigualdade que encontrei foi a falta de voz para os angolanos nos veículos de comunicação. A grande maioria era da forte comunidade portuguesa, e a brasileira começava a conquistar seus primeiros espaços, mas a comunidade angolana praticamente não existia na mídia. Tratei de corrigir isso e colocamos um colunista angolano. Pedro Malungo foi nosso primeiro colunista. Depois vieram outros colunistas brasileiros, angolanos e portugueses.

A ideia era ter um jornal lusófono na América do Norte com força, igualdade e que retratasse as dificuldades dos imigrantes. Um dos maiores exemplos de ajuda à comunidade eram os classificados. Em tempos de poucos aplicativos e no início da era digital, eles eram a ponte para quem queria alugar uma casa, comprar móveis ou pedir ajuda.

Vivíamos uma época de GPS precários. Para ligar para a família no Brasil precisávamos do famoso “Cartão Amigo”. Quem não lembra desse tempo? Tínhamos que raspar o código, ligar e sempre dizíamos: “Fala rápido porque meu cartão está com pouco crédito.”

Foram muitas coberturas presenciais: furacão Igor, corridas de Fórmula Indy, jogos de futebol, entre outras. Mas meu foco sempre foram as minorias e as questões sociais. Lembro de um inverno em que o alerta não estava sendo acionado para abrir novos leitos para moradores de rua. Eles dormiam nas calçadas e morriam ali mesmo. Acompanhei, registrei em fotos, denunciamos a situação e logo foram abertas novas vagas, com o alerta normalizado.

Histórias foram muitas, entrevistas inúmeras, fotografias incontáveis. Não saberia dizer quantas. Mas uma coisa eu sei contar: quantos cafés e quantos pães o pastor Denis comprou para mim, quantos almoços ele pagou. Quanta ajuda psicológica e quanto amor de irmão recebi. Eu, recém-chegado, não buscava dinheiro — buscava conhecimento e um abraço de amigo.

Hoje o NN está consolidado como um grande jornal no Canadá. Tenho orgulho de fazer parte dessa trajetória e de saber que ele continua ajudando pessoas e levando informação de qualidade. O North News é uma ferramenta poderosa para ajudar a sociedade, cobrar autoridades e denunciar injustiças. Este é o papel do jornalismo.

Mas o maior legado que fica para mim é que o North News nunca fez escolhas parciais. Sempre ouviu brancos, negros, evangélicos, católicos e ateus. Sempre foi um jornal isento, focado nas pessoas e na sociedade. Obrigado, North News, por me dar a oportunidade de fazer parte dessa grande história.

 


FONTE: Jacson Carvalho, especial para o North News

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