Em uma negociação de última hora, o Irã, os Estados Unidos e Israel concordaram com um cessar-fogo de 14 dias. O acordo permitiu que o presidente norte-americano, Donald Trump, recuasse de sua ameaça de iniciar uma campanha de bombardeios que, segundo ele, poderia "destruir a civilização iraniana". Contudo, poucas horas após o anúncio nesta quarta-feira, novos ataques foram relatados pelo Irã e por países árabes do Golfo.
Ainda não se sabe se esses incidentes esporádicos serão suficientes para implodir o pacto, classificado pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance, como "frágil". A incerteza impera, já que as partes envolvidas apresentam versões conflitantes sobre os termos estabelecidos:
Estreito de Ormuz: O Irã afirma que o acordo formaliza a cobrança de taxas de navios que transitam pelo Estreito de Ormuz. Não está claro, porém, se outras nações aceitaram essa condição ou se a rota — vital para o escoamento global de petróleo — será considerada segura.
Conflito no Líbano: Mediadores como o Paquistão sugeriram que os combates cessariam também no Líbano, onde Israel realiza uma invasão terrestre contra o Hezbollah. Israel nega essa cláusula e manteve ataques a Beirute nesta quarta-feira.
Programa Nuclear: O destino das ambições nucleares e de mísseis do Irã segue incerto. Trump mencionou que os EUA trabalhariam com Teerã para remover urânio enriquecido, informação que o governo iraniano não confirmou.
Nas ruas de Teerã, a reação foi de hostilidade. Manifestantes pró-governo queimaram bandeiras dos EUA e de Israel, gritando palavras de ordem contra os americanos e contra aqueles que aceitaram o compromisso, evidenciando a pressão dos radicais que se preparavam para um embate direto.
O presidente Trump descreveu inicialmente um plano iraniano de 10 pontos como "viável" para encerrar a guerra iniciada em 28 de fevereiro. Entretanto, o otimismo foi abalado por uma versão em farsi do documento, que indicava a continuidade do enriquecimento de urânio pelo Irã — termo que Trump chamou de "fraudulento".
Enquanto isso, as exigências de Teerã para um fim definitivo das hostilidades incluem a retirada das tropas de combate dos EUA da região, o fim das sanções e a liberação de ativos congelados. Trump afirmou em suas redes sociais que está aberto a discutir o alívio de tarifas e sanções, mas é improvável que outras nações ocidentais concordem com os demais pontos.
Apesar da instabilidade política, o mercado reagiu positivamente ao anúncio do cessar-fogo: o preço do petróleo apresentou queda e as bolsas de valores operaram em alta nesta quarta-feira.
Um dos pontos mais polêmicos envolve o controle do Estreito de Ormuz. O plano permitiria que Irã e Omã cobrassem taxas de navegação, recursos que o Irã pretende usar para reconstrução nacional. Essa medida rompe com décadas de precedentes que tratam o estreito como águas internacionais de livre trânsito, o que deve gerar resistência dos Estados árabes do Golfo, que também sofrem com os danos causados pelos ataques iranianos às suas refinarias.
O conflito tem deixado um rastro de destruição. Até o final de março, mais de 1.900 mortes foram registradas no Irã. No Líbano, os números passam de 1.500 mortos e um milhão de deslocados. Israel registra 23 mortos civis e 11 militares, enquanto 13 membros das forças armadas dos EUA perderam a vida desde o início das hostilidades.
Novas conversas para tentar transformar a trégua em uma paz permanente estão previstas para começar em Islamabad, no Paquistão, já nesta sexta-feira.
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