Ryan Van Horne é detentor de ingressos de temporada (season tickets) do Toronto Raptors há 12 anos, mas, pela primeira vez, ele cogita interromper essa sequência. O motivo é a nova legislação de Ontário, que entrou em vigor no mês passado, estabelecendo um teto para o preço de revenda de ingressos: agora, eles só podem ser comercializados pelo valor de face, acrescido apenas de taxas de serviço e impostos.
A medida dificulta a vida de torcedores como Van Horne, que costumam dividir a assinatura com amigos e revender as entradas dos jogos a que não podem comparecer para abater os custos. “Disse ao meu amigo que não sei se vou continuar”, lamenta ele, que desembolsa anualmente quase US$ 5.000 por dois assentos na oitava fileira do nível 300 da Scotiabank Arena. “Não é que eu fizesse disso um negócio, mas agora a conta simplesmente não fecha.”
O dilema de Van Horne ilustra as complicações que fãs e grandes franquias esportivas canadenses enfrentam com as novas regras. Até pouco tempo, quem possuía ingressos de temporada podia revendê-los pelo preço que o mercado estivesse disposto a pagar. Embora alguns transformassem isso em um negócio lucrativo, muitos torcedores garantem que o objetivo era apenas sustentar a paixão pelo esporte, já que as agendas de jogos são intensas e os custos, cada vez mais altos.
O peso do calendário e dos custos
Paul Beirne, consultor de negócios esportivos e ex-executivo da Maple Leaf Sports and Entertainment (MLSE), explica que o volume de partidas é humanamente impossível de acompanhar para a maioria. No beisebol, por exemplo, a temporada ultrapassa 160 jogos; é compreensível que um fã comum não consiga ir a todas as 80 partidas disputadas em casa.
Para outros, a revenda é a única forma de manter o benefício, já que os preços das assinaturas subiram drasticamente ao longo dos anos. Com o novo limite, os torcedores terão que aceitar o valor de custo ou recorrer a vendas informais e arriscadas em redes sociais.
O posicionamento do governo
Em resposta às críticas, o gabinete de Stephen Crawford, Ministro de Serviços Públicos e Entrega de Negócios de Ontário, afirmou que o objetivo é tornar concertos e eventos esportivos “mais acessíveis para as famílias”. A porta-voz Giulia Paikin ressaltou que a lei se aplica igualmente a todas as plataformas de revenda e que uma consulta pública sobre o tema segue aberta até 10 de maio.
Impacto imediato na prática
Sho Kalache, que possui ingressos para o Toronto Tempo (basquete feminino), sentiu o impacto de imediato. Ao tentar listar ingressos para jogos em que teria conflito de agenda, ela viu seus anúncios serem removidos para que a plataforma se adequasse à lei. “Eu não queria lucrar, só queria recuperar o valor dos jogos que não posso ir”, desabafa.
Especialistas como Beirne criticam a medida, classificando-a como uma “força bruta” que pune comportamentos normais. Ele argumenta que, ao engessar os preços, o governo torna os ingressos de temporada menos flexíveis e menos atraentes, o que acaba prejudicando tanto os clubes quanto os torcedores a longo prazo.
Para Van Horne, que mora fora de Toronto e tem obrigações familiares, ir a todos os jogos é impensável. Ele agora se questiona se o esforço de manter a assinatura vale a pena sem a facilidade de repassar as entradas. "A menos que a pessoa tenha uma rede de contatos muito boa para dividir tudo, muitos vão se perguntar se esse fardo extra compensa", finaliza.
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