Com a província de Alberta dando novos passos rumo a um referendo que pode resultar na sua saída do Canadá, analistas econômicos alertam para um possível "congelamento" nas intenções de investidores privados em grandes projetos de infraestrutura nacional, como a construção de novos gasodutos e oleodutos.
Os planos do primeiro-ministro Mark Carney de lançar múltiplos projetos de interesse nacional — focados no setor de energia e recursos naturais, como petróleo e gás — correm o risco de ver o capital da iniciativa privada minguar até que o cenário político de Alberta fique mais claro.
"A única coisa que a indústria sempre exige é estabilidade", explica Grace Skogstad, professora emérita de ciência política da Universidade de Toronto. "Existe aqui um risco real de paralisia nos investimentos dentro da província. Um risco de que a saída desses dutos do papel seja travada."
Na última sexta-feira, em Ottawa, Carney discursou sobre o papel central de Alberta nessas ambições nacionais. "O Canadá está avançando. Estamos trabalhando sob o espírito de um federalismo cooperativo para melhorar o país", declarou o primeiro-ministro, diretamente da Biblioteca do Parlamento, no canteiro de obras de reconstrução do Bloco Central, na Colina do Parlamento. "Estamos renovando o país passo a passo, e a participação de Alberta no centro desse processo é essencial."
Em outra aparição em março, na província da Nova Escócia, Carney foi questionado por jornalistas se um referendo em Alberta poderia abalar a confiança do mercado. "Pode, sim. Com certeza pode ter um efeito", admitiu.
O plano de desenvolvimento nacional de Carney envolve bilhões de dólares em verbas federais combinadas com aportes do setor privado, incluindo parceiros internacionais. O recém-criado Escritório de Grandes Projetos tem a meta de atrair 33 bilhões de dólares canadenses em capital privado, voltados especificamente para expandir a produção de gás natural liquefeito (GNL) para exportação rumo a mercados na Ásia e na Europa.
Outro projeto de peso, anunciado na semana passada, é um acordo entre Ottawa e o governo de Alberta para iniciar a construção de um novo duto ligando a província à costa oeste do Canadá já no próximo ano. O Memorando de Entendimento (MOU) incluiu, inclusive, um acordo de precificação de carbono exclusivo para Alberta.
Carney também tem se movimentado para consolidar a iniciativa "Uma Só Economia Canadense", que busca derrubar barreiras comerciais internas entre as províncias para acelerar o avanço dessas obras.
Contudo, se Alberta decidir se separar do Canadá, esses planos — que dependem diretamente de alinhamento regulatório, financeiro e jurídico entre as jurisdições canadenses — podem ser completamente comprometidos.
"Isso torna as negociações entre o governo federal e o governo de Alberta ainda mais tensas. Eles simplesmente não concordam. Não me parece haver muita relação de confiança ali", avalia Mark Manger, professor de economia política e assuntos globais na Munk School of Global Affairs and Public Policy. "Não acho que as autoridades de Alberta estejam convencidas de que o governo federal pensa no melhor para a província quando propõe esses projetos de unificação nacional."
Manger completou: "Isso deve fazer os investidores pensarem duas vezes. Na prática, pode arrastar as negociações e tornar qualquer execução de medidas por parte do governo federal muito mais difícil e demorada."
A primeira-ministra de Alberta, Danielle Smith, anunciou que a província incluirá uma pergunta na votação do dia 19 de outubro. A consulta questionará a população de Alberta se a província deve ou não iniciar o processo legal necessário para realizar um plebiscito oficial de separação no futuro.
Diante disso, a tendência é que os potenciais investidores adotem uma postura de "esperar para ver" até que haja clareza sobre o rumo que Alberta tomará. O problema, segundo a professora Grace Skogstad, é que o mercado não costuma esperar parado.
"Alberta tem recursos naturais valiosos que não vão a lugar nenhum, mas existem muitos outros lugares no mundo onde as pessoas podem investir dinheiro. E em projetos que, convenhamos, são bem mais seguros do ponto de vista político", pontua Skogstad. "Os investidores vão fazer as suas próprias contas... mas o que posso dizer é que esse clima de incerteza não ajuda em nada."
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