Indústria da multa? Moradores de Toronto vivem pesadelo com enxurrada de infrações na porta de casa: "Não temos onde parar"
Moradores de Scarborough colecionam multas na porta de casa mesmo sem placas de proibição. Sem opção de garagem, eles cobram soluções da prefeitura de Toronto.
Reprodução/ CityNews
Os moradores de uma pacata rua na região de Cliffcrest, em Scarborough, perderam completamente a paciência com a cor amarela — mais especificamente com os irritantes e caros bilhetes amarelos de multa de trânsito que encontram quase diariamente nos para-brisas de seus carros.
Quem vive na National Street, bem perto do cruzamento da St. Clair Avenue East com a Midland Avenue, afirma estar sofrendo uma verdadeira perseguição. Eles são multados sem parar por estacionarem perto de suas próprias casas, mesmo não existindo nenhuma placa de proibição no local e nenhuma opção para a compra de autorizações de estacionamento (as famosas parking permits).
Felicia, que reside na rua, recebeu nada menos que oito multas nas últimas nove semanas. Em entrevista à reportagem do CityNews, ela abriu os bilhetes como um mágico que exibe um baralho, mas confessou que não encontra nenhum truque para fazer a dívida desaparecer.
“Sinceramente, passou dos limites”, desabafou. “Moramos em uma rua estritamente residencial, que nem tem saída — é uma rua sem quarteirão seguinte —, não há nenhuma sinalização dizendo que é proibido parar e, para piorar, a prefeitura não nos deixa comprar a vaga de residente.”
Como medida de desespero, ela passou a deixar o carro no estacionamento da estação de trem da GO Network nas proximidades para tentar fugir do prejuízo.
Pelas leis gerais da cidade de Toronto, quando não há placas indicando restrições ou proibição explícita, vigora a regra universal de que o limite máximo de permanência na vaga é de três horas. Felicia, no entanto, garante que é multada mesmo respeitando esse período.
“Era por volta das 15h. Entrei em casa, preparei um macarrão com carne moída de peru e, quando saí, o papel já estava lá no vidro. Não se leva nem uma hora para cozinhar um macarrão. Não sei onde esses fiscais ficam escondidos esperando pela gente, de verdade, não dá para entender o que está acontecendo.”
A equipe de reportagem procurou a Polícia de Toronto, responsável pela fiscalização. Em nota, a corporação limitou-se a dizer que “o volume de multas aplicadas é influenciado pela densidade populacional, o desenho da rua, a quantidade de vagas disponíveis, o sistema de autorizações locais, as regras publicadas e o índice de descumprimento por parte dos motoristas.”
Para quem sente o impacto no bolso, como Felicia ou o morador Sokol Dodaj, a resposta oficial não resolve o problema. Dodaj revelou que acumulou quase 2 mil dólares em penalidades apenas nos últimos dois meses.
“Comecei a receber notificações quase todas as noites. Tentei conversar com os fiscais na rua e explicar que sou PCD (pessoa com deficiência)”, relatou ele. “O grande xis da questão é que simplesmente não temos outro lugar no mundo para guardar nossos carros, só nos resta a rua.”
Diante do impasse, Dodaj e outro vizinho colheram assinaturas e enviaram um abaixo-assinado ao vereador do distrito, Parthi Kandavel, implorando por mudanças nas regras para que as famílias consigam andar na linha sem que as dívidas virem uma bola de neve. Os moradores argumentam que, diante da falta de garagens na região, a rua é larga o suficiente para comportar o estacionamento regulamentado para residentes.
O CityNews tentou contato diretamente com o gabinete do vereador Kandavel para tratar do assunto, mas não obteve retorno até o fechamento da reportagem.
Como alternativa de consenso, Felicia sugere uma saída simples: permitir que os moradores cadastrem as placas de seus veículos na autarquia de trânsito. “Assim eles saberiam exatamente quem de fato mora aqui e poderiam multar apenas os carros de fora que estão usando a rua indevidamente”, concluiu.