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Crime em alta no Canadá: tiroteios dobram em Peel e polícia aponta ligação com o tráfico internacional

Tiroteios quase dobraram na região de Peel, perto de Toronto, no primeiro semestre de 2026. Entenda o que a polícia diz e veja relatos de moradores.

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Reprodução/ CTV News

O número de incidentes com armas de fogo quase dobrou na região de Peel, a oeste de Toronto, durante os primeiros seis meses de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025.

"Nossos índices de tiroteios subiram este ano", reconheceu o vice-chefe de polícia da região, Nick Milinovich. Ele afirma que "a razão por trás desse aumento está diretamente associada a extorsões, ao crime organizado e ao tráfico internacional de drogas".

Nos primeiros seis meses deste ano, as cidades de Mississauga e Brampton, em Ontário, registraram juntas 103 ocorrências envolvendo disparos de armas de fogo. Para efeito de comparação, na primeira metade de 2025, foram contabilizados 58 casos do tipo nas duas localidades que compõem a região de Peel.

"Temos uma equipe de agentes dedicada exclusivamente a retirar armas das ruas. Não é raro que, no decorrer de um único fim de semana, eles apreendam três ou quatro armas ilegais que entraram no Canadá vindas dos Estados Unidos", relatou Milinovich.

'No que este país se transformou?'

Dados fornecidos pela Polícia Regional de Peel também revelam que, embora a quantidade de invasões domiciliares (home invasions) em Mississauga e Brampton tenha caído em relação a anos anteriores, o problema continua preocupando a população.

No primeiro semestre de 2024, Peel registrou 50 invasões a residências. O número caiu para 34 no mesmo período de 2025 e está em 36 até o momento em 2026.

"A vida das pessoas está sendo violada, é preciso levar isso a sério. Não dá para simplesmente deixar essa situação continuar por mais seis meses. As medidas para conter esses crimes violentos já deveriam ter sido tomadas ontem", desabafa Sam McDadi, vítima desse tipo de crime.

McDadi, um corretor imobiliário de renome cuja empresa é a imobiliária oficial do time de basquete Toronto Raptors, decidiu vir a público contar a sua história na esperança de gerar mudanças reais e chamar a atenção dos legisladores em Ottawa.

Nas primeiras horas da manhã de julho de 2023, McDadi conta que foi acordado ao som de vidros se quebrando dentro de sua casa, em Mississauga.

"Era por volta das 5h30 da manhã quando ouvi um barulho enorme de janela estourando. Na hora pensei: 'Pronto, estão invadindo minha casa. Estão vindo atrás de mim ou dos meus carros?'", relembra.

Um grupo de criminosos entrou rapidamente na residência, pegou dois jogos de chaves e fugiu levando dois de seus veículos, destruindo o portão da entrada da garagem durante a fuga.

Foi só quando um policial analisou as imagens do sistema de segurança que McDadi percebeu o tamanho do perigo ao qual esteve exposto.

"O policial me disse que eram sete suspeitos e que a suspeita é que todos eles estivessem armados", revela McDadi.

Em 2025, após participar da parada de Natal da cidade, o empresário foi alvo de um segundo crime violento.

"Voltei para o meu carro, que estava em uma vaga de visitantes num condomínio próximo, quando dois jovens se aproximaram e disseram: 'Me dá a chave e sai do carro'", conta McDadi, que não teve escolha a não ser entregar o veículo.

Falando diretamente do seu escritório em Mississauga, o empresário desabafa que simplesmente não se sente mais seguro.

"Foram duas vezes em dois anos. Fico pensando: no que este país se transformou? Não foi para esse tipo de Canadá que mudamos para cá", desabafa.

A influência das redes sociais

O vice-chefe de polícia concorda com a gravidade da situação: "As invasões a residências são, sem dúvida, o tipo de crime que gera muita apreensão na comunidade, e com toda razão."

Apesar do alerta, Milinovich ressalta que parte do pânico compartilhado pela população não reflete totalmente a realidade estatística.

"Tivemos pouco mais de 30 invasões domiciliares até agora este ano em uma cidade com 1,7 milhão de habitantes. Isso não minimiza a dor de ninguém, e a polícia de Peel e de toda a Grande Área de Toronto está empenhada em combater esse problema — uma única invasão já é demais", ressaltou o oficial.

Um relatório do Statistics Canada divulgado neste mês mostra que, em termos per capita, tanto os crimes violentos quanto os não violentos caíram em todo o país. No entanto, ainda existem pontos focais, como a região de Peel, onde certos índices criminais continuam subindo.

Além do patrulhamento ostensivo nas ruas, Milinovich afirma que as autoridades têm pressionado por mudanças fora da esfera policial, cobrando o poder público por alterações legislativas. A polícia apoia projetos como o Bill C-22, que amplia o poder de investigadores em apurações online, e o Bill C-14, que prevê manter criminosos reincidentes por mais tempo atrás das grades.

Embora reconheça o desafio gigantesco que as forças policiais de todo o país enfrentam em relação às armas e gangues, o vice-chefe acredita que os algoritmos das redes sociais acabam amplificando o medo da população.

"A forma como consumimos informações sobre a nossa comunidade mudou. As pessoas entram no Instagram, no Facebook ou no TikTok, veem o vídeo de um assalto violento e, rapidamente, aquele episódio isolado se transforma na sensação de realidade de todo mundo", pontua Milinovich.

'Temos pouco tempo para agir'

Para Sam McDadi, porém, o tempo está correndo para que a polícia, o governo e os legisladores façam mudanças profundas no sistema de justiça e criem punições mais severas para inibir os criminosos.

"Caso contrário, as pessoas vão viver com medo indefinidamente. Já ouvi gente perguntando: 'Será que vale a pena continuar no Canadá? Vale a pena correr esse risco pelos nossos filhos? Talvez seja hora de nos mudarmos para um lugar mais seguro, como a Europa.' Ninguém quer isso. O Canadá é um país maravilhoso, mas temos uma janela de tempo muito curta para consertar isso", alerta McDadi.

"Para nós, como força policial, o fato de a comunidade se sentir segura é tão importante quanto a segurança comprovada pelas estatísticas", concluiu Milinovich, reforçando que a polícia de Peel "está nessa luta junto com a população, sentindo o que o público sente e comprometida em fazer a diferença."