Ano após ano, o primeiro trimestre é conhecido no meio do entretenimento como a temporada de premiações.
Produções de audiovisual concorrem a premiações de projeção global de janeiro até março, em sua maioria, podendo estender-se até setembro com o Emmy Awards (para produções de TV e streaming).
O Oscar, formalmente conhecido como Academy Awards, é a última dessas premiações de março e a mais famosa mundialmente.
A cultura de premiações e festivais inclui protocolos e uma logística que Hollywood entende muito bem.
É quase um ritual de passagem de ano: filmes estreiam antes do prazo para sugestões de indicados, listas de indicados, campanhas de divulgação dos filmes, tapete vermelho, cerimônia de premiação com transmissão ao vivo. Nesse meio tempo, muita coisa pode acontecer.
O Critics Choice Awards cometeu uma grande gafe logo em janeiro. O troféu de Melhor Filme Estrangeiro foi entregue a “O Agente Secreto” não em um palco, mas durante uma entrevista no tapete vermelho.
Incrédulos e confusos, o cineasta Kleber Mendonça Filho e a produtora Emilie Lesclaux receberam o troféu da entrevistadora Keltie Knight na entrada do evento.
Assim, sem qualquer cerimônia, literalmente. A cena repercutiu muito mal entre os amantes da sétima arte pelo desrespeito e falta de pompa, sobretudo a uma obra representante da América Latina na categoria de filmes internacionais.
Essa entrega fora de protocolo nunca havia acontecido antes e isto significa algo muito importante: a vitória ficou de fora da transmissão oficial da cerimônia. Ironia ou não, os indicados na categoria de Melhor Filme (em língua inglesa) foram apresentados por Wagner Moura e Kleber no palco.
Para revidar o ato infeliz, os dois entoaram ao vivo a fala “ou como dizemos no Brasil: melhor filme estrangeiro”, já que todos os indicados foram filmes americanos ou europeus. Ou seja, estrangeiros a partir do ponto de vista brasileiro.
Outra gafe ao vivo aconteceu no Globo de Ouro, ainda em janeiro. O compositor sueco Ludwig Göransson venceu a categoria de Melhor Trilha Sonora Original por seu trabalho em “Pecadores” (Sinners).
Apesar de ter sido entregue no palco como manda a regra, a transmissão não aconteceu. Os produtores do Globo de Ouro alegam que a entrega foi cortada da transmissão por “restrições de tempo”.
A mesma categoria que já premiou compositores icônicos como Ennio Morricone e Hans Zimmer supostamente não teve a devida importância dada pela organização do evento.
O próprio Hans Zimmer, também indicado por seu trabalho no filme “F1”, já declarou ter achado essa decisão “uma vergonha”. O compositor veterano disse que “a música é crucial para um filme e deve ser honrada”.
Enquanto isso, há filmes e atores sendo comentados por motivos longe de serem positivos. Entra ano e sai ano, sempre tem um filme sem muito impacto cultural que ameaça levar algum prêmio importante contra filmes muito mais icônicos.
Já aconteceu com “Shakespeare Apaixonado” (a partir do lobby feito por Harvey Weinstein) contra “Central do Brasil” em 1999 e “Anora” contra “Ainda Estou Aqui” em 2025. Este ano, a pedra no sapato é “Marty Supreme”, com Timothée Chalamet.
Concorrendo com favoritos em categorias importantes, o filme, que não gerou nem interesse e nem comoção de público e de crítica, tem feito uma campanha de arrogância.
A revista Variety insiste que Timothée Chalamet lidera consecutivamente os “filmes campeões de bilheteria do período natalino”, fazendo menção a “Marty Supreme” e “Wonka”.
Uma pesquisa rápida pelas estatísticas oficiais de bilheteria pode informar que esses filmes não alcançaram nem o terceiro lugar no pódio de mais assistidos. Como fica a credibilidade de uma publicação ao afirmar uma inverdade facilmente verificada?
Nesta mesma linha de buscar visibilidade e engajamento sem qualquer carisma, temos Oliver Laxe, diretor de “Sirat”. O diretor espanhol fez um comentário infeliz sobre a presença de “O Agente Secreto” e brasileiros entre votantes da Academia do Oscar.
“Na Academia há muitos brasileiros, nós gostamos muito deles, mas eles são ultranacionalistas. Acho que, se os brasileiros inscrevessem um sapato no Oscar, todos votariam nele”, disse em um programa da TV espanhola.
Brasileiros compõem apenas 0,7% do total de votantes no Oscar, o que está matematicamente longe de ser o que vai definir o destino da premiação.
Entre gafes e rumores, há os esnobados. Este ano, grandes produções com muita popularidade acabaram fora da lista de indicados.
A segunda parte de Wicked, um clássico para quem gosta de musicais, não foi indicada em nenhuma categoria da Academia. Nem mesmo a performance de Ariana Grande, que aprendeu até ópera e canto lírico para seu papel, teve qualquer destaque para o evento.
Paul Mescal também não foi indicado como Melhor Ator por “Hamnet”, onde interpreta uma versão terna e enlutada de William Shakespeare no filme dirigido por Chloé Zhao.
Não sabemos o que esperar diante de tantas quebras de protocolo, rivalidade e campanhas de divulgação desleais. Talvez nos reste aceitar que, no jogo de Hollywood, a métrica nem sempre propõe medidas justas.
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