Em várias cidades do norte da Venezuela, moradores enfrentam uma corrida contra o tempo, usando as próprias mãos para revirar escombros em busca de parentes. A tragédia ocorre após dois terremotos consecutivos deixarem ao menos 589 mortos e milhares de feridos no país.
Na manhã desta sexta-feira (26), a presidente em exercício, Delcy Rodríguez, atualizou o número de vítimas. Cercada por membros do governo e das Forças Armadas, ela celebrou a chegada de equipes de resgate de diversas partes do mundo. “Vamos salvar as pessoas que estão presas. Estamos trabalhando incansavelmente nessa missão”, garantiu.
Segundo Rodríguez, o estado de La Guaira foi o mais castigado pelos tremores de magnitude 7.2 e 7.5 que atingiram a região na noite de quarta-feira. A área foi militarizada para facilitar as buscas por sobreviventes e organizar a distribuição de água e alimentos. O temor das autoridades é que o número de mortos aumente significativamente, já que milhares de pessoas continuam desaparecidas.
A Organização Internacional para as Migrações (OIM) estima que até 6,76 milhões de pessoas tenham sido afetadas pelos sismos em todo o país, sendo cerca de 2 milhões apenas na capital, Caracas. A Cruz Vermelha Internacional alertou que a população está em pânico e com medo de retornar para o que sobrou de suas casas.
Cenário de guerra e isolamento de familiares no exterior
O amanhecer após os tremores revelou um cenário desolador: prédios reduzidos a estruturas retorcidas, móveis pendurados em janelas destruídas e grandes fendas abertas no asfalto. Nas ruas, famílias colavam cartazes com fotos de parentes sumidos, enquanto outras compartilhavam listas de nomes escritas à mão.
No exterior, a comunidade de imigrantes venezuelanos enfrenta momentos de angústia devido à interrupção nos serviços de telefonia, o que torna quase impossível conseguir notícias de familiares que estão na zona do desastre.
Em meio ao caos, histórias de resgates dramáticos trazem pequenos momentos de esperança. Na capital, uma jovem foi retirada com vida dos escombros de um edifício de 10 andares que desabou completamente em La Guaira. O chefe da equipe de resgate de Caracas, José Luis Núñez, elogiou o milagre: “Queremos destacar a força, a determinação e a vontade de viver dessa menina”.
Desafios políticos e estruturais
O desastre natural representa mais um teste crítico para o governo de Delcy Rodríguez, ex-vice-presidente que assumiu o poder em janeiro, após a destituição e captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. A Venezuela já enfrentava um colapso econômico há mais de uma década, e o atual cenário político soma desafios à logística de socorro.
Na tentativa de agilizar o fluxo de informações que podem salvar vidas, as restrições ao uso da rede social X (antigo Twitter) foram levantadas. A plataforma estava bloqueada no país desde agosto de 2024 por determinação do antigo governo.
Embora a Venezuela esteja localizada próxima a falhas geológicas (no limite entre as placas sul-americana e do Caribe), tremores dessa magnitude não são comuns na região. De acordo com Marcos Ferreira, geofísico e pesquisador do Serviço Geológico do Brasil, o fato de os dois terremotos terem ocorrido em sequência e a pouca profundidade dos tremores ampliaram drasticamente o poder de destruição. “É como se uma pessoa começasse a gritar e, logo em seguida, outra também gritasse. Isso amplifica a vibração e potencializa o perigo”, explicou o especialista brasileiro.
Rede de solidariedade global
A Organização das Nações Unidas (ONU) informou que cerca de mil socorristas de 25 equipes internacionais estão a caminho do país. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, confirmou o envio imediato de ajuda humanitária em larga escala, embora reconheça que o fechamento do principal aeroporto do país cria gargalos logísticos.
Equipes com cães farejadores, radares de solo e câmeras térmicas vindas da Espanha, Alemanha, Chile e Suíça já começaram a desembarcar. Países como China e Turquia também anunciaram o envio de aeronaves com suprimentos. Na América Latina, missões de socorro do México, El Salvador e República Dominicana já estão operando em solo venezuelano.
Líderes de diversas nações, incluindo os governos do Brasil, de Portugal e do Canadá, também se comprometeram a enviar ajuda financeira e equipes especializadas para apoiar a reconstrução do país.
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