Foram meses de busca exaustiva, mas Allyssa McCarthy finalmente encontrou uma residência em St. John’s que atendia a todos os seus requisitos. Ela buscava um imóvel de três quartos — com espaço suficiente para ela, o namorado e o filho dele — e que não precisasse de reformas imediatas no telhado ou no piso. O fator decisivo, porém, era o orçamento: a meta era manter a hipoteca dentro do que a família podia pagar.
Mesmo focada na economia, Allyssa precisou abrir a carteira para garantir sua nova casa móvel na região de Goulds, em St. John’s. Para vencer a concorrência de mais de uma dúzia de ofertas, ela desembolsou 56 mil dólares canadenses — cerca de 30% acima do valor inicial pedido pelo vendedor.
“Está tudo superfaturado, vendendo por valores muito acima do anunciado”, desabafa Allyssa. “A guerra de lances está uma loucura.”
Um condomínio de casas móveis no bairro de Goulds não é o lugar onde se esperaria encontrar uma disputa agressiva de preços, mas o superaquecimento imobiliário na região subverteu qualquer expectativa tradicional. Estatísticas da Associação Canadense de Imóveis (CREA) revelam que os “meses de estoque” — indicador que compara casas à venda versus transações concluídas — atingiram os níveis mais baixos da história em St. John’s.
Os preços médios também mantêm uma subida constante, com alta de 6,6% no primeiro trimestre de 2026 em comparação ao ano anterior. “Procurar casa hoje em dia é mentalmente exaustivo”, diz Allyssa. Embora esta tenha sido sua primeira proposta oficial, ela passou meses filtrando opções que raramente se adequavam às necessidades da família. “Depois de um tempo, você se sente desinflada. Começa a pensar: ‘Será que isso vai dar certo? Algum dia terei meu próprio lar?’”
As causas do boom
O cenário atual é fruto de anos de baixa construção civil somados ao aumento do interesse imigratório em Terra Nova e Labrador após a pandemia. Hillary Hodder, corretora de Allyssa, estima que metade de seus clientes vive fora da província. “São pessoas se preparando para a aposentadoria ou querendo voltar para casa. Tenho até clientes dos EUA querendo se mudar para cá”, revela.
Jason Piercey, outro corretor local, explica que a construção de moradias ainda não se recuperou da crise de 2014, quando a queda nos preços do petróleo freou a atividade econômica na província. “Mesmo quando o petróleo se recuperou, a construção não acompanhou. Temos um déficit de novas casas que deveriam ter sido erguidas anualmente há mais de uma década.”
E o problema não é falta de vontade. Segundo Kelly Rogers, CEO da Associação de Construtores de Terra Nova e Labrador, as empresas lutam para encontrar mão de obra qualificada. Além disso, o aumento de taxas de desenvolvimento, impostos e o custo elevado de materiais de construção têm freado o setor.
Em 2024, a Corporação de Hipotecas e Habitação do Canadá (CMHC) sugeriu que a província precisaria dobrar seu ritmo de construção para 10 mil casas por ano para suprir a demanda. O desafio é hercúleo: em 2025, apenas 1.600 unidades começaram a ser construídas.
“Mesmo se tivéssemos mil unidades começando agora, levaria um ano até que estivessem prontas para morar”, pontua Bill Stirling, chefe da Associação de Corretores da província. Para ele, o mercado aquecido em St. John’s pode ser o “novo normal”. “Vai demorar um bom tempo para mudar, a menos que algo drástico aconteça na economia.”
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