Desde que o preço do combustível começou a subir em março, Sarah Bradley mudou seus hábitos e passou a caçar promoções em vários supermercados diferentes de Montreal.
"Antes, eu resolvia tudo em um único lugar", conta ela. "Agora, eu penso duas vezes. Fico avaliando se realmente preciso comprar um item no IGA ou se consigo achar mais barato em outro canto."
"É uma loucura", desabafou ela sobre o custo para encher o tanque do seu SUV Toyota RAV4 esta semana — uma despesa que acabou espremendo outras partes do seu orçamento mensal.
Na verdade, Sarah nem sequer está completando o tanque. Ela colocou apenas 12 litros, gastando $24,57 em um posto da Petro-Canada onde o preço acabou de romper a barreira dos $2 por litro. O restante ela planejava abastecer no Costco, onde é associada e tem direito a desconto.
"Eu passo muito tempo na estrada e isso afeta totalmente as nossas escolhas de estilo de vida", explicou a consultora.
Com o arrastar dos conflitos no Oriente Médio e a consequente redução na oferta global de petróleo, o preço da gasolina continua flutuando perto de máximas históricas. E o pior: não há nenhum sinal de queda antes do início oficial do verão — período em que as viagens aumentam — e nem mesmo para quando a estação terminar.
De acordo com o Ministério de Recursos Naturais do Canadá, a gasolina comum sem chumbo custava, em média, $1,98 por litro em todo o país na última quinta-feira, subindo na última semana acompanhando a trajetória de alta do preço internacional do petróleo.
Os preços do combustível atingiram $1,94 por litro em Toronto, $2,04 em Montreal, $2,23 em Vancouver, $1,90 em Calgary e $1,92 em Halifax.
"Estamos em território desconhecido. Nunca vimos uma crise energética como esta antes", alertou Dan McTeague, presidente do grupo de defesa Canadians for Affordable Energy (Canadenses por Energia Acessível). "Este problema de escassez vai nos acompanhar pelo restante do ano."
Mesmo que o Estreito de Ormuz — por onde normalmente passa um quinto dos produtos petrolíferos do mundo — seja reaberto após o bloqueio prolongado decorrente do ataque dos EUA e Israel contra o Irã em 28 de fevereiro, levará meses ou até anos para que os produtores do Golfo Pérsico consigam extrair petróleo em capacidade máxima e enviá-lo às refinarias para distribuição no atacado e varejo.
"O estrago já foi feito", lamentou McTeague, destacando os ataques contra campos petrolíferos, refinarias e instalações de gás natural na Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Iraque. "Esgotamos todos os estoques de reserva ao redor do mundo. Leva tempo para reabastecer tudo."
Mais de 80% do petróleo e do gás natural que normalmente passam pelo Estreito de Ormuz vão para os mercados asiáticos. No entanto, as commodities derivadas do petróleo têm seus preços definidos globalmente, o que significa que compradores do mundo inteiro sentem o impacto em diferentes níveis.
Muitas unidades de destilação de petróleo bruto cortaram a produção, fazendo os preços dispararem. Mesmo após o fim das hostilidades, os reparos nas estruturas danificadas pelos ataques podem levar meses. Em algumas regiões, peças de reposição podem demorar anos para serem entregues. Além disso, o receio das empresas de navegação sobre a real segurança para navegar pela região pode fazer com que o tráfego demore a voltar aos níveis anteriores à guerra.
O valor final da gasolina neste verão depende "completamente" da manutenção ou não desse bloqueio, explicou Patrick De Haan, chefe de análise de petróleo do site de rastreamento de preços GasBuddy.com.
"Quanto mais tempo os preços continuarem nesse patamar, mais os canadenses devem segurar suas viagens", avaliou. "Por enquanto, não espero uma queda drástica na demanda. Muitos canadenses, assim como os americanos, não querem necessariamente abrir mão dos planos de férias de verão só porque os preços estão altos."
Em vez disso, as pessoas devem tentar cortar custos em outras áreas, apontou De Haan.
Almoustapha Haidala é um dos canadenses que precisou fazer exatamente isso, reduzindo o orçamento semanal de supermercado de sua família.
"Com certeza vamos cortar gastos com alimentação. E reduzir a comida afeta diretamente nossa qualidade de vida", desabafou o segurança de Montreal, em francês, enquanto abastecia seu Toyota Corolla e olhava para o painel do posto que marcava $2,01 por litro.
"Está alto demais. Isso faz com que as nossas despesas subam muito no fim do mês, o que significa que estamos realmente passando por apertos financeiros no dia a dia."
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