26/07/2025 às 09h04min - Atualizada em 26/07/2025 às 08h58min

Faltam seis dias para o tarifaço de Trump

Paulo Galvão Júnior (*)

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Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

Fonte: Gabryella Nóbrega.

A Ciência Econômica está prestes a completar dois séculos e meio em 9 de março de 2026, data que marcará os 250 anos da publicação da obra-prima do economista escocês Adam Smith (1723-1790), A Riqueza das Nações (1776), lançada no mesmo ano da Declaração de Independência dos EUA.

Paradoxalmente, em vez de celebrarmos o fundamento do livre comércio (free trade), estamos às vésperas da escalada de uma guerra comercial (war trade), deflagrada pelo presidente norte-americano Donald Trump, que impôs tarifas protecionistas de 50% sobre produtos brasileiros, a partir de 1º de agosto de 2025.

Em pleno século XXI, quando a economia global deveria ser guiada pela liberdade econômica e pelo livre comércio, princípios defendidos por Smith no século XVIII, assistimos ao avanço de práticas nacionalistas e protecionistas dos EUA que ameaçam a economia mundial.

Medidas unilaterais como a elevação das tarifas de importação comprometem cadeias produtivas globais, tensionam relações diplomáticas e representam um perigoso retrocesso, justamente quando a Quarta Revolução Industrial exige mais cooperação e inovação. O caminho não é a guerra comercial, nem o isolamento, mas, sim o fortalecimento de alianças multilaterais e do livre comércio.

O Brasil é uma potência demográfica, territorial e econômica. Com 212,5 milhões de habitantes em 2024, segundo o IBGE, ocupa a sétima posição entre os países mais populosos do mundo. Com 8,5 milhões de km², é o quinto maior país em extensão territorial da Terra. Seu PIB nominal, estimado em US$ 2,3 trilhões, o posiciona como a décima maior economia global, segundo o FMI.

Além disso, o Brasil detém a maior reserva de água doce líquida do planeta, cerca de 5.661 bilhões de m³, ou 12% da água doce mundial, concentrada nas bacias do Rio Amazonas e nos aquíferos subterrâneos, como o Guarani e o Grande Amazônia. Também possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com 21 milhões de toneladas (23% do total global), atrás apenas da China. Esses 17 elementos são essenciais para tecnologias modernas como turbinas eólicas, veículos elétricos, equipamentos médicos e sistemas de defesa e de telecomunicações.

Apesar de sua relevância mundial, o Brasil enfrenta uma vulnerabilidade socioeconômica agravada pela iminente entrada das tarifas de 50%. As medidas protecionistas afetam diretamente exportações brasileiras e insumos importados dos EUA, como autopeças, fertilizantes, medicamentos e componentes eletrônicos.

A decisão, considerada injustificada do ponto de vista econômico, porque ocorreram sucessivos superávits comerciais dos EUA com o Brasil desde 2009. A tarifa unilateral está vinculada a motivações geopolíticas e ideológicas, como o alinhamento do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva ao BRICS, a defesa da desdolarização do comércio internacional no Sul Global e as críticas ao STF no processo judicial contra o ex-presidente brasileiro Jair Messias Bolsonaro.

O tarifaço de Trump reacende também o debate sobre a regulação das big techs americanas, como Google, Meta, Apple e Amazon, que operam no Brasil sem uma estrutura tributária proporcional à sua elevada receita. Posteriormente, o PIX, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, tornou-se alvo de investigação comercial por parte dos EUA, sob alegação de prejudicar empresas americanas de tecnologia financeira, como Mastecard e Visa.

Eu sou totalmente contrário ao tarifaço de Trump. Eu sou contra a guerra comercial iniciada pelo presidente Trump. Agora esperar o suco de laranja concentrado e congelado brasileiro perder o mercado americano por uma canetada de Trump. Eu não consigo entender o fim do livre comércio de uma nação que os seus fundadores em 1776 eram contra o protecionismo. É incrível a mudança, uma mudança alaranjada.

Os EUA são a maior economia do mundo, com PIB nominal estimado em US$ 30,3 trilhões em 2025, de acordo com o FMI. Com 347 milhões de habitantes, são o terceiro país mais populoso do planeta, atrás de Índia e China. Territorialmente, ocupam a quarta posição, com 9,8 milhões de km². Militarmente, são a maior potência global, possui mais de 400 bases militares em seu próprio território e mais de 750 bases militares em mais de 70 países, com 3.748 ogivas nucleares, um arsenal capaz de iniciar uma Terceira Guerra Mundial de proporções catastróficas, sem precedentes.

Mas a verdadeira paz, especialmente em tempos de guerra comercial, não se conquista com dissuasão bélica. Estabilidade econômica global exige equilíbrio entre comércio justo e livre, cooperação internacional e respeito mútuo.

O comércio exterior nasce da necessidade de suprir deficiências produtivas entre países. Enquanto algumas nações são ricas em recursos naturais, outras se destacam pela produção de bens de capital com tecnologia. O Brasil, por exemplo, exporta commodities agrícolas, minerais e energéticas, como minério de ferro, nióbio, petróleo, soja, carne bovina, carne de frango, café, açúcar, suco de laranja e etanol. Mas depende da importação de máquinas, equipamentos, semicondutores e medicamentos dos EUA.

O Brasil também exporta uma ampla gama de produtos industrializados para os EUA, como aço, alumínio, aeronaves, calçados, autopeças, eletroeletrônicos e motores elétricos, que vêm sendo seriamente afetados pelas medidas tarifárias do presidente Trump. E importa trigo, milho, algodão, nozes, frutas e peixes dos EUA.

A interdependência econômica global, sustentada pelo princípio das vantagens comparativas, tem sido à base do comércio internacional. No entanto, essa dinâmica foi profundamente alterada a partir de 1º de fevereiro de 2025, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou tarifas de importação de 25% sobre produtos provenientes do Canadá e do México, seus vizinhos e principais parceiros comerciais.

A situação se agravou em 2 de abril, durante o chamado “Dia da Libertação”, quando Trump nos jardins da Casa Branca anunciou tarifas recíprocas sobre mais de 180 países, incluindo o Brasil, que passou a ser taxado com uma alíquota mínima de 10% sobre todas as exportações para o mercado norte-americano.

O tarifaço de Trump de 10% para 50% representará uma ruptura diplomática em 201 anos de relações bilaterais entre Brasil e EUA. A queda de 22% nas exportações do agronegócio para os EUA já provoca cancelamentos de contratos, queda de preços, demissão e desestabilização no setor. Produtos do agro, como suco de laranja, carne bovina, café, açúcar, frutas e peixes já enfrentam barreiras tarifárias e logísticas.

O setor agroexportador já perdeu 110 mil postos de trabalho sem a efetiva subida de 10% para 50%. A informalidade já atinge 37,8% da força de trabalho. A taxa de desemprego está em 7,0% no primeiro trimestre de 2025, com 7,7 milhões de desocupados. Estima-se que mais de 1,5 milhão de empregos estejam ameaçados.

A indústria de transformação representa apenas 11,3% do PIB brasileiro. A produção industrial recuou 2,1% no primeiro semestre de 2025. Com 56,5% dos insumos produtivos importados dos EUA, empresas como Embraer, Weg e Suzano enfrentam aumento de custos, risco de paralisação e perda de competitividade internacional.

É preciso realizar várias mudanças na economia brasileira. A carga tributária bruta atingiu 32,32% do PIB em 2024, o pior resultado dos últimos 15 anos. Apesar disso, o retorno social em serviços públicos como saúde, educação, segurança, limpeza e infraestrutura é considerado insatisfatório. O Brasil ocupa a última posição entre os 30 países com maior carga tributária no ranking de retorno em bem-estar social.

A dívida pública federal atingiu R$ 9,26 trilhões, com relação dívida/PIB em 76,1%, e projeção de 84,3% até 2028. No setor privado, 77 milhões de pessoas estão inadimplentes, e 7,3 milhões de empresas também estão inadimplentes.

Desde 18 de junho, a taxa Selic no Brasil está em 15% ao ano, sendo a 4ª mais alta do mundo em termos nominais, atrás de Turquia (46%), Argentina (29%) e Rússia (20%). Já em juros reais, descontada a inflação, o Brasil ocupa o 2º lugar, com 9,53%, atrás apenas da Turquia, que lidera também no ranking global, com 14,44%, segundo a MoneYou. Esses juros elevados dificultam o consumo de bens e serviços pelas famílias e o crédito para as empresas privadas, desacelerando as atividades econômicas no país.

A concentração de renda no Brasil permanece alarmante. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, em maio de 2025, os 10% mais ricos da população brasileira recebem, em média, 13,4 vezes mais do que os 40% mais pobres. A renda média mensal dos 10% mais ricos foi de R$ 8.034, enquanto os 40% mais pobres receberam R$ 601. Já o 1% mais ricos concentra uma renda 36,2 vezes superior à dos 40% mais pobres. Apesar de uma leve redução na desigualdade econômica, com o Índice de Gini atingindo 0,506, o menor nível desde 2012, a desigualdade é elevada.

O ICC está em 86,7 pontos em julho de 2025, segundo a FGV IBRE, e poderá cair após 1º de agosto. O ICI está em 96,8 pontos, mas também tenderá a recuar diante da instabilidade econômica. O tarifaço de Trump atua como gatilho psicológico, ampliando o pessimismo e retraindo decisões de consumo e investimento.

Finalizando, faltam seis dias para o tarifaço de Trump. O protecionismo comercial dos EUA é uma cruzada ideológica contra o Brasil, com impactos severos sobre o agronegócio, a indústria e os serviços da economia brasileira. O impacto estimado é de US$ 9,4 bilhões na balança comercial e queda de 0,5 ponto percentual no PIB brasileiro.

Estamos prestes a observar uma brusca queda no volume e valor das exportações brasileiras para os EUA. Essas tarifas protecionistas foram justificadas pelo presidente Trump como proteção à economia americana, mas geraram atrito comercial e pressão sobre parceiros comerciais, como o Brasil, o Canadá e o México.

A resposta precisa ser estratégica, firme e pragmática na defesa da economia brasileira, contra o colapso anunciado por Trump e seus aliados bilionários do MAGA e pelos traidores da pátria, como Eduardo Bolsonaro, que já ressaltou direto de Washington na CNN Brasil: “Se houver o cenário de terra arrasada pelo menos eu estarei vingado”.

Na guerra comercial, não haverá vencedores, apenas perdedores. E o Brasil, se não reagir com inteligência, diplomacia e soberania, poderá mergulhar no início de mais uma década perdida.

(*) Paulo Galvão Júnior é economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, apresentador do Programa Economia em Alta na Rádio Alta Potência, e autor de 18 e-books de Economia, entre eles, O CANADÁ! (2022) e A IMPORTÂNCIA DO CANADÁ NO G7 E G20 (2024). Acesse o link para comprar o e-book de 2024: https://paulogalvaojunior.com.br/canada/. WhatsApp +55 (83) 98122-7221.

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