Estimados leitores lusófonos do Portal North News, faltam quatro dias para o tarifaço de Trump. Trata-se de uma medida unilateral e protecionista que impõe tarifas de importação de 50% sobre os produtos brasileiros, capaz de desencadear uma série de consequências econômicas, sociais e geopolíticas de alto impacto para o Brasil, atualmente, a décima maior economia do mundo.
Os efeitos serão sentidos, sobretudo, nas exportações, atingindo os setores do agronegócio, petróleo, indústria farmacêutica e produtos industrializados, como aço, alumínio, aviões, motores elétricos e calçados. As empresas brasileiras que dependem fortemente do mercado norte-americano terão queda abrupta nas exportações, acúmulo de estoques, retração de receitas e redução expressiva dos lucros.
A balança comercial brasileira, deficitária com os EUA desde 2009, foi equivocadamente citada pelo presidente americano Donald John Trump, como superavitária em sua carta dirigida ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, em 9 de julho de 2025, uma distorção que fragiliza o discurso protecionista da Casa Branca.
Essa guerra comercial tende a se espalhar pelo mercado de trabalho brasileiro. A estimativa é que cerca de 200 mil empregos, nos três primeiros meses, sejam ameaçados diretamente, com forte impacto nos principais estados exportadores, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso do Sul.
O aumento do desemprego refletirá no crescimento na inadimplência. Segundo a SERASA, em junho de 2025, o Brasil contabilizou 77,8 milhões de pessoas inadimplentes, com dívida média de R$ 6.128,26 por indivíduo, totalizando R$ 477 bilhões em débitos vencidos. O estado do Amapá apresenta o maior índice de inadimplência do país, com 63,49% da população adulta negativada, enquanto, Santa Catarina ocupa a última posição, com 37,69%. Com a entrada em vigor das tarifas punitivas de 50% impostas pelos EUA, projeta-se que o número de inadimplentes ultrapasse 80 milhões até o final de agosto, que elevará o atual percentual de inadimplência de 47,79% para 50% da população adulta.
Esse efeito cascata pressionará as contas públicas, diminuindo a arrecadação de tributos como IPI, PIS/COFINS e IRPJ. O governo federal será inevitavelmente compelido a adotar medidas emergenciais, como subsídios, créditos suplementares e desonerações, maiores gastos públicos, o que poderá ampliar ainda mais a dívida pública já elevada.
O tarifaço de Trump trará também repercussões severas nas relações trabalhistas. A queda brusca das exportações forçará diversas empresas a adotarem cortes de gastos, com demissões imediatas e suspensão de contratos. Frigoríficos, fruticultores, madeireiras, metalúrgicas e fábricas de calçados e aeronaves devem reduzir turnos de produção, iniciar férias coletivas e até encerrar unidades operacionais. Trabalhadores terceirizados, prestadores de serviço e pequenos produtores rurais serão igualmente afetados, elevando a taxa de desemprego, atualmente, em 7,0%, para patamares alarmantes.
O contingente atual de 7,7 milhões de desempregados poderá ultrapassar a 10 milhões nos próximos cinco meses. A retração da demanda interna, causada pela perda de renda e de confiança do consumidor, agravará ainda mais o panorama de incerteza econômica. Famílias endividadas cortarão gastos essenciais, o comércio sentirá o baque e empresas sofrerão com inadimplência e queda de faturamento.
Além disso, muitas empresas terão seus planos de expansão congelados. Micro, pequenas, médias e grandes empresas encontrarão grandes dificuldades para manter a folha de pagamento e honrar compromissos. Isso provocará um aumento expressivo de falências, pedidos de recuperação judicial e inadimplência empresarial, sobretudo, nos polos industriais e agrícolas voltados à exportação para os cinquenta estados americanos.
A queda nas exportações para os EUA, o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China, será particularmente crítica nos produtos do agronegócio, como carne bovina, café, açúcar, suco de laranja, soja, milho, peixes, cacau, manga, madeira e celulose.
As barreiras tarifárias tornarão esses produtos do agro menos competitivos nos EUA. Muitos produtores terão margens de lucro comprimidas, optando por reduzir ou suspender os volumes exportados, o que gerará excedentes no mercado interno.
A fruticultura nordestina atravessa uma crise, já marcada pelo descarte de laranjas em Sergipe, Alagoas e Bahia. O problema decorre de gargalos logísticos, da futura imposição de tarifas e da queda na demanda externa. Essa conjuntura caótica enfraquece a balança comercial brasileira e ameaça a viabilidade de empresas do setor em todo o país, cujo suco de laranja responde por 70% das importações norte-americanas e por 55% do consumo per capita da bebida nos EUA.
O Brasil é detentor de uma das maiores reservas de terras raras do mundo, fundamentais para tecnologias modernas. Em meio à crescente guerra comercial com os EUA, o país mais rico do mundo, com um PIB nominal de US$ 30,1 trilhões, torna-se urgente uma resposta articulada entre governo, setor produtivo, exportadores e sociedade civil. Com soberania estratégica no mapeamento geológico das terras raras para fortalecer as cadeias produtivas internas, que poderá transformar a vocação mineral do Brasil em motor de desenvolvimento sustentável.
Com esse cenário preocupante, vários economistas apontam soluções como o diversificar produtos e fortalecer polos logísticos que poderá reduzir perdas e aumentar a competitividade global. A diminuição das exportações brasileiras, em decorrência de novo aumento de tarifas, já resultou em uma elevação da oferta interna de diversos produtos. Esse excedente provocou uma queda temporária nos preços no mercado doméstico, especialmente o café, a laranja, a manga e a carne bovina. Embora esse movimento possa aliviar a inflação de curto prazo, trata-se de um fenômeno conjuntural, sujeito à recomposição de estoques em containers e ajustes logísticos.
No plano geopolítico, o tarifaço de Trump representa uma ruptura na relação centenária entre Brasil e EUA. A busca por novos parceiros, como Canadá, México, EAU e países integrantes da ASEAN, será inevitável. Essa conjuntura reacende debates fundamentais sobre soberania nacional, política industrial, inovação tecnológica, agregação de valor à produção e fortalecimento do mercado interno. A medida protecionista, alinhada à retórica nacionalista do movimento MAGA, revela contornos ideológicos e representa uma afronta à estabilidade econômica do Brasil.
A atuação do deputado federal Eduardo Bolsonaro e o jornalista Paulo Figueiredo em Washington, articulando apoio à tarifa protecionista de 50% imposta por Donald Trump sobre produtos brasileiros, representa um grave atentado à soberania nacional. Ambos, descendentes diretos de deensores da tortura durante a Ditadura Militar (1964-1985), têm se posicionado publicamente a favor de medidas de Trump que penalizam a economia brasileira.
É inadmissível que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) e o neto do ex-presidente João Figueiredo (1979-1985) estejam torcendo também que os EUA desconectem o Brasil do GPS e o expulsem do SWIFT, sendo uma forma moderna de tortura econômica. O GPS é vital para infraestrutura, transporte, agropecuária e redes financeiras, se cortar o acesso seria muito prejudicial à economia brasileira. Já o SWIFT, essencial para transações internacionais, seria uma medida de retaliação que afetaria gravemente o sistema financeiro nacional.
Em um cenário de guerra comercial e chantagem digital promovida pelos EUA, torna-se essencial reafirmar que a soberania nacional não se negocia. O país deve agir com firmeza, articulando soluções diplomáticas, econômicas e tecnológicas que preservem seus interesses e garantam sua independência frente a pressões externas. É imperativo reafirmar que a soberania brasileira é inegociável. E sobretudo, é urgente uma resposta coordenada do governo brasileiro, articulada com o setor produtivo e a classe política, para preservar empregos nas cinco regiões do Brasil.
Na guerra comercial não tem vencedores, apenas perdedores. A guerra comercial iniciada pelos EUA é injustificável e destrutiva a economia brasileira, ela poderá trazer um grande prejuízo para as empresas brasileiras e o aumento da inflação para os consumidores americanos.
É preciso destacar que o provável aumento do dólar norte-americano provocará a elevação dos custos de importação, com repasse inflacionário para produtos e serviços, especialmente combustíveis, máquinas, equipamentos, medicamentos e insumos industriais, e a retração do consumo. A valorização da moeda americana encarecerá matérias-primas e componentes essenciais à produção nacional, como fertilizantes, semicondutores e cobre. Esse cenário devastador comprometerá a competitividade das empresas brasileiras, elevará os preços ao consumidor final e intensificará a perda de poder aquisitivo dos consumidores.
É hora de agir com firmeza e defender o livre comércio e a soberania nacional. Diante da guerra comercial e das ameaças dos EUA, o Brasil deveria iniciar um boicote aos produtos “Made in USA” e aos serviços de empresas norte-americanas. A medida seguiria o exemplo dos canadenses, que desde 1º de fevereiro de 2025 vêm se mobilizando contra as tarifas abusivas de Trump, como resposta direta às tarifas de 25% sobre importações do Canadá e sua absurda proposta de anexar o Canadá como o 51º estado americano. O boicote aos produtos dos EUA será uma resposta legítima e estratégica para preservar a economia brasileira.
Finalizando, a lição do economista paraibano Celso Furtado permanece atual: “Não há crescimento verdadeiro sem soberania nacional”. O tarifaço de Trump exige ao Brasil a construção de um projeto de desenvolvimento sustentável para promover grandes transformações socioeconômicas. Enfim, o Brasil é dos brasileiros!