Considerações Iniciais
O Brasil vive um momento estratégico decisivo em sua inserção internacional, marcado pela busca ativa de novos mercados. Em resposta ao aumento das tarifas de importação dos Estados Unidos da América (EUA), de 10% para 50% em cerca de 3,8 mil produtos brasileiros, o Brasil intensificou negociações comerciais com países como Canadá e Emirados Árabes Unidos (EAU), além de estabelecer diálogos com Índia e Vietnã.
Essas ações integram o eixo central do recém-lançado Plano Brasil Soberano, apresentado ontem em Brasília. O objetivo é proteger empresas exportadoras e trabalhadores diante do tarifaço imposto por Donald Trump, diversificando os destinos das exportações brasileiras e reduzindo a dependência de mercados tradicionais.
No primeiro semestre de 2025, as exportações brasileiras para o Canadá atingiram US$ 3,4 bilhões, um crescimento expressivo de 25,92% em relação ao mesmo período de 2024, com US$ 2,7 bilhões. Mais do que um número impressionante, esse avanço comercial reflete um conjunto de fatores estratégicos, como o reposicionamento comercial, a resposta à guerra comercial com os EUA e a capacidade de setores brasileiros em oferecer produtos com qualidade, escala e competitividade, mesmo em um cenário global marcado por volatilidade cambial e tensões geopolíticas.
Esse recorde nas exportações não é apenas estatístico, ele representa uma inflexão na política comercial brasileira, aponta novas direções para as cadeias produtivas e reacende o debate sobre a diversificação da pauta exportadora. O comércio exterior reafirma-se como vetor essencial para o crescimento econômico do país.
Para alcançar maior competitividade econômica, o Brasil precisa adotar uma postura mais aberta ao comércio exterior, tanto nas exportações quanto nas importações, inspirando-se em modelos bem-sucedidos como o da China.
Destaques das Exportações do Brasil para o Canadá
O principal produto da pauta exportadora foi o ouro em barra, que somou US$ 1,35 bilhão, praticamente o dobro do registrado no ano anterior. O setor mineral também teve participação relevante com vendas de minério de ferro, cobre, nióbio e níquel, evidenciando que os recursos naturais continuam sustentando boa parte da relação bilateral.
O agronegócio brasileiro também se destacou, com exportações de açúcar, café verde, carne bovina, carne de frango e carne suína, produtos de forte apelo entre os consumidores canadenses.
Um dado particularmente relevante é o crescimento das exportações de bens industrializados, como óxido de alumínio, aeronaves e máquinas, além de móveis e colchões. Embora ainda modesta frente às commodities agrícolas e minerais, essa presença indica potencial para ampliar o valor agregado das exportações e reduzir a dependência de produtos primários.
Outro ponto positivo foi a leve queda de 2% nas importações brasileiras provenientes do Canadá, gerando um superávit comercial superior a US$ 2 bilhões. A participação do Canadá nas exportações totais do Brasil subiu de 1,6% para 2,1%, consolidando-se como mercado estratégico em meio às tensões comerciais com os EUA.
Do ponto de vista empresarial, esse avanço não ocorreu por acaso. Câmaras de comércio, especialmente a Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC), e órgãos de promoção de exportações, como a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), vêm há anos fortalecendo laços bilaterais, organizando missões comerciais e identificando nichos de mercado. Produtos com certificações ambientais, agrícolas livres de determinados agrotóxicos e bens com alto padrão tecnológico têm conquistado espaço nas prateleiras e indústrias canadenses.
Considerações Finais
Concluindo, o recorde histórico nas exportações para o bilíngue Canadá é motivo de celebração, especialmente para um economista brasileiro, autor de dois e-books sobre o Canadá, colunista do Portal North News em Toronto com 220 artigos publicados desde 8 de julho de 2022, e pai de uma filha casada que vive, trabalha e estuda em Montreal há mais de dois anos.
Esse recorde comercial ocorre em meio à intensificação da guerra tarifária promovida pelos EUA, que têm adotado tarifas protecionistas contra diversos países desenvolvidos e emergentes. Entre os países desenvolvidos, o Canadá enfrenta tarifas de 35% e a Coreia do Sul, após negociações, foi submetida a uma tarifa de 15% sobre seus produtos exportados aos EUA. Já entre as economias emergentes do grupo BRICS, as medidas são ainda mais severas, Brasil e Índia enfrentam tarifas de 50%, enquanto a China, após um período de escalada tarifária que chegou a 145%, atualmente está sujeita a uma tarifa de 30% durante uma trégua temporária de 90 dias.
Esse resultado comercial comprova que o Brasil, mesmo diante de um cenário global adverso, é capaz de ampliar sua presença em mercados exigentes, com alto poder aquisitivo e rigorosos padrões de qualidade, como o do Canadá, a nona maior economia do mundo.
Ainda assim, é preciso reconhecer que há um longo caminho a percorrer, como diversificar a pauta exportadora brasileira, investir em inovação tecnológica e reduzir a dependência de commodities agrícolas e minerais são desafios estruturais.
Esse avanço carrega um significado geopolítico relevante. Ao fortalecer os laços com o continental Canadá, o Brasil sinaliza ao mundo que não está restrito a uma ou duas potências econômicas e que possui capacidade de estabelecer parcerias estratégicas com países que valorizam relações comerciais sustentáveis, tecnológicas e de longo prazo.
As exportações brasileiras não são maiores, porque os brasileiros não estudam nem conhecem bem o Canadá. São décadas sendo influenciados pelos americanos. Agora tudo mudará com o presidente Trump e suas tarifas absurdas.
Por fim, o desafio agora é transformar esse recorde em tendência. Para isso, serão necessárias políticas públicas consistentes, incentivos à indústria, maior integração logística e acordos bilaterais que garantam segurança jurídica e previsibilidade aos exportadores brasileiros. Se bem conduzida, essa trajetória poderá não apenas manter o ritmo de crescimento, mas também abrir espaço para novos recordes de exportação para o segundo maior país do mundo.
(1) Paulo Galvão Júnior é economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, apresentador do Programa Economia em Alta na Rádio Alta Potência, e autor de 18 e-books de Economia, entre eles, O CANADÁ! (2022) e A IMPORTÂNCIA DO CANADÁ NO G7 E G20 (2024). Acesse o link para comprar o e-book do ano de 2024: https://paulogalvaojunior.com.br/canada/. WhatsApp +55 (83) 98122-7221.