17/08/2025 às 14h47min - Atualizada em 17/08/2025 às 14h42min

O retrato da Paraíba em tempos de mudanças climáticas e guerra comercial

Por Paulo Galvão Júnior (*)

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Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

O estado da Paraíba (PB) vive um momento de contrastes profundos na atualidade. Embora tenha registrado avanços importantes em segmentos como, construção civil, turismo e energias renováveis, ainda enfrenta desafios que comprometem seu crescimento econômico com inclusão social e com proteção ao meio ambiente.

A pobreza elevada, a desigualdade social alta e persistente e a baixa diversificação produtiva são obstáculos que exigem atenção urgente. Em meio aos fortes impactos das mudanças climáticas e à guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos da América (EUA), torna-se essencial compreender os principais indicadores demográficos, econômicos, sociais e ambientais que revelam a complexidade da realidade paraibana.

Com uma população estimada em 4.145.040 habitantes em 2024 e distribuída em 223 municípios, a PB apresenta um crescimento populacional positivo de 30.952 pessoas entre 2017 e 2022, com uma diversidade que exige políticas públicas eficazes e estratégias produtivas eficientes. É o quinto estado mais populoso da região Nordeste.

O estado possui uma área territorial de 56.467,242 km², relativamente pequena, é o sexto menor estado brasileiro, mas marcada por contrastes geográficos, do litoral turístico ao sertão semiárido, que influenciam diretamente as condições de vida e as oportunidades econômicas.

Mais da metade da população paraibana vive em situação de pobreza (57,48%), e cerca de 7,4% em extrema pobreza, o que evidencia elevada incidência da pobreza no estado e a urgência de ações voltadas à inclusão social, redistribuição de renda e acesso universal a serviços essenciais. O desemprego afeta 7% da população economicamente ativa (PEA) no segundo trimestre de 2025. A geração de empregos qualificados e o estímulo ao empreendedorismo e ao cooperativismo são caminhos para mudar o retrato da PB.

A Paraíba tem 1,2 mil pessoas morando em tendas ou barracas de lona, plástico ou tecido, segundo dados de 2024 do IBGE. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da PB é de 0,698 em 2021, é médio e abaixo do IDH nacional, refletindo limitações em renda, educação e longevidade. A desigualdade de renda, expressa pelo Índice de Gini de 0,559, revela uma elevada concentração de riqueza e renda.

O Produto Interno Bruto (PIB) nominal do estado foi de R$ 86,0 bilhões em 2022, com taxa de crescimento de 5,6%. Atualmente, o estado da Paraíba é a sexta maior economia do Nordeste e o 19° estado mais rico do Brasil. Apesar dos avanços econômicos registrados nos últimos anos, a PB ainda enfrenta obstáculos em sua trajetória de crescimento econômico. Em 2022, o PIB per capita do estado foi de apenas R$ 21.661, a penúltima renda per capita do Brasil, atrás apenas do Maranhão (R$ 20.633). O PIB per capita paraibano que permanece bem abaixo da média nacional (R$ 49.638) e evidencia a necessidade de políticas voltadas para o aumento da renda per capita.

Atualmente, a PB responde por apenas 0,9% do PIB brasileiro e 8,6% do PIB da região Nordeste, o que revela uma inserção econômica ainda tímida frente ao potencial produtivo do estado. Essa limitação está diretamente associada a fatores como, baixa diversificação da matriz produtiva, produtividade limitada da força de trabalho, infraestrutura deficiente, restrição ao crédito e ao capital empreendedor.

A economia paraibana é fortemente concentrada no setor de serviços, que responde por 80,4% do PIB estadual, enquanto a indústria representa 14,9% e o setor agropecuário apenas 4,7% do PIB. A modernização da agricultura, a reindustrialização e os serviços verdes são estratégias fundamentais para diversificar a matriz produtiva estadual.

A PB se destaca nacionalmente como a maior produtora de leite e queijos de cabra. A caprinocultura é um dos pilares da economia paraibana, gerando renda para milhares de famílias no semiárido. Além disso, o estado possui uma agroindústria consolidada de coco, com exportações de água de coco e derivados. Esses segmentos econômicos movimentam a economia, como também, promovem inclusão social e sustentabilidade em vários municípios, como Taperoá, Monteiro, Sumé, Souza, Lucena e Mamanguape.

Na fruticultura, a PB ocupa posição de destaque como o maior produtor nacional de mangaba e terceira maior produtora de abacaxi do Brasil. O mamão papaia também tem liderança nacional, com forte presença no mercado interno e externo. A produção de algodão, algodão colorido orgânico, feijão, feijão verde, arroz, arroz vermelho, milho e mandioca geram receitas anuais para os produtores rurais.

Complementando esse panorama agropecuário, a cana-de-açúcar é o principal produto agrícola do estado, com mais de 7 milhões de toneladas colhidas e com forte impacto na geração de empregos, na produção de açúcar e etanol, além da liderança na produção nacional de cachaça artesanal. A bovinocultura e avicultura também têm crescido, com aumento expressivo na produção de leite de vaca e ovos de galinha.

A Paraíba possui um expressivo potencial mineral, com destaque para a diversidade de recursos exploráveis em seu território, como a água mineral de qualidade reconhecida. A atividade mineradora representa uma importante base econômica para o estado, especialmente nas mesorregiões do Sertão Paraibano, Borborema e Agreste Paraibano, onde as características geológicas favorecem a ocorrência de minerais industriais, metálicos e não metálicos. Entre os principais recursos minerais destacam-se a argila branca (caulim), ilmenita, fosfato, cobre, rochas ornamentais (granitos, quartzitos e mármores), argila para cerâmica vermelha e turmalina Paraíba.

A indústria paraibana é concentrada em cinco setores que juntos representam 78% do PIB industrial estadual. A construção civil lidera com 29,4%, impulsionada por obras públicas e expansão urbana. Em seguida, os serviços industriais de utilidade pública, como energia e saneamento básico, respondem por 23,8%. O setor de couros e calçados, com 9,3%, destaca-se pelas exportações, especialmente para mercados internacionais. Já os segmentos de alimentos (7,9%) e minerais não metálicos (7,6%) refletem a vocação para o aproveitamento de recursos naturais e produção básica.

No setor de serviços, o mais dinâmico da economia paraibana, destacam-se os segmentos de comércio, educação, saúde, turismo e tecnologia da informação (TI). Esses ramos apresentam crescimento contínuo, impulsionado pela urbanização, expansão do consumo das famílias e investimentos em infraestrutura. O turismo, especialmente no litoral e em cidades históricas, como Areia, contribui para a geração de empregos e renda. Já o setor de TI, com destaque para Campina Grande, posiciona a PB como referência nacional em inovação e desenvolvimento de software e startups.

A PB registrou, em julho de 2025, 521.186 trabalhadores com carteira de trabalho assinada, segundo o Novo CAGED, enquanto 640.883 pessoas foram beneficiárias do Programa Bolsa Família (PBF), de acordo com o MDS. Esses dados revelam um cenário em que o número de cidadãos dependentes de assistência social supera o contingente de trabalhadores formais no estado.

Esse contraste evidencia a predominância da informalidade e da vulnerabilidade socioeconômica na Paraíba, um dos estados brasileiros em que a população economicamente ativa (PEA) com vínculo empregatício representa uma minoria, frente à maioria que depende de políticas públicas de transferência de renda mínima para garantir o sustento básico de sua família.

Na área social, a PB apresenta avanços importantes, como a taxa de escolarização de 98,2% entre 6 a 14 anos e uma taxa de alfabetização de 91,3% entre adultos. No entanto, a Paraíba tem a terceira maior taxa de analfabetismo do Brasil, com 12,8%, atrás de Alagoas (14,4%) e Piauí (13,8%), são 409 mil pessoas analfabetas com 15 anos ou mais de idade nas 4 mesorregiões paraibanas. A Paraíba é o quarto estado brasileiro com a maior taxa de analfabetismo na população de 60 anos ou mais, com uma taxa de 33,0% em 2024, atrás de Alagoas (40,1%), Maranhão (34,6%) e Piauí (33,2%).

É inadmissível que, em pleno século XXI, a PB ainda registre um contingente alto de cidadãos em condição de analfabetismo. Essa realidade representa uma violação ao direito fundamental à educação, como também, um entrave estrutural ao crescimento econômico do estado e à melhoria da qualidade de vida da população paraibana. O analfabetismo compromete a capacidade do indivíduo de acessar oportunidades de trabalho formal e compreender direitos civis. Em escala coletiva, essa limitação gera impactos profundos, como perda de produtividade e competitividade, aumento da desigualdade econômica, fragilidade na cidadania ativa e sérios impactos na saúde.

A taxa de mortalidade infantil, embora em queda, ainda preocupa, com 12,96 óbitos por mil nascidos vivos. A expectativa de vida ao nascer é de 74,2 anos em 2023, abaixo da média nacional, refletindo desigualdades no acesso à saúde. A cobertura de saneamento básico alcança 82% da população, mas nas 23 microrregiões têm acesso precário.

Em 2024, a Paraíba recebeu mais de 2 milhões de turistas, impulsionada por investimentos em infraestrutura, promoção turística e qualificação profissional. Uma das maiores atrações turísticas da Paraíba são as praias deslumbrantes de João Pessoa. O destaque é o Polo Turístico Cabo Branco, maior complexo planejado do Nordeste, com R$ 2,6 bilhões em investimentos privados. O projeto prevê resorts, parque aquático, parques temáticos e geração de milhares de empregos com carteira de trabalho assinada.

João Pessoa conta com seu Centro de Convenções desde agosto de 2012, consolidando-se como um polo estratégico para eventos na capital paraibana. Em setembro de 2025, será inaugurado o Centro de Convenções de Campina Grande, cidade reconhecida internacionalmente por sediar o Maior São João do Mundo. A nova e moderna estrutura ampliará o leque de eventos da segunda maior cidade da PB, fortalecendo sua vocação para o turismo de negócios, cultura e tecnologia.

As mudanças climáticas impõem desafios crescentes à PB, afetando diretamente a segurança hídrica, a produção rural e a infraestrutura urbana. Por exemplos, a média de temperatura em João Pessoa passou de 29,5°C em 1964 para 33°C em 2024. E o semiárido paraibano enfrenta risco de desertificação acelerada devido à elevação da temperatura e à redução das chuvas.

O aumento da frequência de secas prolongadas no semiárido e a elevação do nível do mar no litoral intensificam a vulnerabilidade socioambiental do estado. O semiárido demanda políticas de adaptação robustas, como irrigação inteligente, reflorestamento de áreas degradadas e uso eficiente da água.

No litoral, a erosão costeira ameaça comunidades ribeirinhas, equipamentos públicos e atividades turísticas, exigindo ações de contenção e ordenamento territorial. Além disso, as fortes chuvas na Região Metropolitana de João Pessoa têm provocado alagamentos recorrentes. Recentemente, ocorreu a maior chuva dos últimos 39 anos, provocando o caos, com várias ruas e avenidas ficaram completamente alagadas, deslizamentos de barreiras, comprometendo a mobilidade urbana e a saúde pública dos habitantes. A integração entre planejamento urbano, gestão municipal verde e educação socioambiental é essencial para mitigar os impactos das mudanças climáticas.

Vale destacar que Cabaceiras, localizada na mesorregião da Borborema e na microrregião do Cariri Oriental, é reconhecida como a cidade com menor índice pluviométrico do Brasil, registrando uma média anual inferior a 350 mm. Essa característica climática extrema contribui para sua paisagem árida, que a tornou mundialmente conhecida como "Roliúde Nordestina", devido ao grande número de produções cinematográficas realizadas em seu território muito ensolarado, em especial, “O Auto da Compadecida”.

O número de veículos registrados no estado ultrapassa 1.593.744 em 2023, o que revela o crescimento da mobilidade urbana, mas também impõe desafios como congestionamentos, poluição e necessidade de transporte público eficiente nas principais cidades paraibanas, como João Pessoa, Campina Grande, Santa Rita e Patos.

Investir em energias renováveis, como a solar e a eólica, é uma estratégia que alia sustentabilidade ambiental à geração de empregos verdes e à diversificação econômica. A PB tem se destacado nesse cenário, com crescimento de 55,4% na instalação de usinas solares no primeiro trimestre de 2025, totalizando mais de 7.300 sistemas fotovoltaicos em operação. A geração distribuída, predominante em residências e áreas rurais, já responde por cerca de 375 MW de potência instalada, com forte adesão entre produtores rurais e com isenção de ICMS e agilidade no licenciamento ambiental.

No campo da energia eólica, a PB apresenta elevado potencial de desenvolvimento. Estudos técnicos indicam que o estado reúne condições meteorológicas e geográficas ideais para a expansão dessa matriz energética limpa. A instalação de parques eólicos tem impulsionado a economia, promovendo a geração de emprego e renda, além de estimular investimentos em infraestrutura e capacitação profissional. A expansão das fontes renováveis nos municípios de Santa Luzia, São Mamede, São José de Sabugi e Areia de Baraúnas fortalece a economia e posiciona o estado como referência regional.

No comércio exterior, a PB exportou US$ 79,6 milhões no primeiro semestre de 2025, sendo 12% destinados aos EUA (US$ 9,6 milhões), o país mais rico do mundo desde 1871 e o segundo maior destino das exportações paraibanas. Por outro lado, as importações somaram US$ 564 milhões, com destaque para os óleos brutos de petróleo vindos dos EUA, que totalizaram US$ 185 milhões.

A tarifa de importação de 50% imposta pelos EUA sobre produtos brasileiros afeta diretamente 36% das exportações da PB, resultando em perdas estimadas superiores a R$ 101 milhões. Trata-se de uma medida protecionista, desproporcional e economicamente contraproducente, que compromete a competitividade dos produtos paraibanos no mercado internacional.

Em 2024, as exportações paraibanas atingiram US$ 35,6 bilhões, refletindo o dinamismo do setor externo estadual. No entanto, em 2025, os principais produtos destinados ao mercado norte-americano, como calçados (15,0%), açúcares e melaços (8,5%), materiais de construção (3,3%), pedra, areia e cascalho (1,4%) e pescados (1,1%), estão entre os mais impactados pelas tarifas protecionistas, o que pode resultar em retração da produção e demissões em segmentos fortemente dependentes dos EUA.

Diante desse cenário desafiador, torna-se urgente o redirecionamento estratégico para mercados alternativos, como Canadá e México, países vizinhos dos EUA e com potencial de absorção da pauta exportadora paraibana.

Concluindo, a PB precisa transformar suas vulnerabilidades em oportunidades. A superação dos desafios passa pela articulação entre governos, setor privado, universidades, cooperativas e sociedade civil. É fundamental promover políticas públicas integradas, com foco em educação de qualidade e inclusão produtiva, além da valorização do turismo, das energias renováveis e da economia criativa, que podem ser alavancadas para promover o desenvolvimento sustentável.

O futuro da linda, secular, tropical e resiliente Paraíba depende da capacidade de planejar com visão de longo prazo. O primeiro passo para construir uma Paraíba mais próspera, mais justa e mais sustentável é analisar com profundidade os principais indicadores demográficos, econômicos, sociais e ambientais, como os que compõem o Índice de Progresso Social (IPS), no qual o estado da Paraíba já lidera o Nordeste e Norte, com nota 61,09 no IPS Brasil 2025.

Vamos, Paraíba! É possível crescer mais, distribuir melhor, educar com excelência, gerar mais empregos formais e, sobretudo, transformar a terra de Ariano Suassuna, Augusto dos Anjos, Celso Furtado, José Américo de Almeida e José Lins do Rego, no primeiro estado brasileiro livre do analfabetismo, em plena Quarta Revolução Industrial.

Com o apoio da ciência, da tecnologia, da vontade política e da iniciativa privada, esse sonho pode se tornar realidade. Um programa verdadeiramente visionário será a criação de um aplicativo educacional revolucionário, desenvolvido pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que integra inovação digital, pedagogia inclusiva e inteligência artificial (IA) para promover a alfabetização de jovens, adultos e idosos analfabetos, em qualquer lugar e a qualquer momento, ou seja, educação na palma da mão.

(*) Economista paraibano (CORECON-PB 1392).

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