Hoje é domingo, 24 de agosto de 2025. O céu de João Pessoa está claro, o dia amanheceu ensolarado, muito parecido com um domingo de cinquenta anos atrás, quando a cidade celebrava a Semana do Exército, com entusiasmo e esperança.
Em 24 de agosto de 1975, eu era apenas uma criança de cinco anos, caminhando de mãos dadas com minha avó paterna, a inesquecível professora de Geografia, Suzana Monteiro Galvão, pelas calçadas do Parque Sólon de Lucena. Minha saudosa avó sempre fazia os gostos do seu primeiro neto.
Morávamos na Avenida Dom Pedro I, no coração do Centro Histórico de João Pessoa, bem próximo à Lagoa, um dos principais cartões-postais da cidade. Aquele passeio parecia apenas mais um momento de alegria compartilhada entre gerações da família Monteiro Galvão. As árvores, os carrinhos de pipoca, tudo conspirava para um domingo perfeito. Eu já andei muito de bicicleta pelo Parque Sólon de Lucena na década de 70.
Naquele dia, o Exército Brasileiro organizava passeios gratuitos em uma embarcação chamada “Portada”, originalmente destinada ao transporte de carga. A proposta era simples, oferecer lazer à população durante as festividades da Semana do Exército. Minha avó autorizou meu embarque sozinho no penúltimo passeio da balsa, de cerca de vinte minutos. Mal sabíamos que, minutos depois, o último passeio daquela embarcação militar se tornaria uma das maiores tragédias da capital paraibana.
Por volta das 17h15, cerca de 200 pessoas embarcaram na balsa, no último passeio do dia, excedendo em muito sua capacidade máxima, que era de apenas 60 passageiros. Poucos metros após a partida, o peso excessivo e o desequilíbrio causado pela movimentação dos passageiros fizeram a embarcação afundar bem próximo da fonte luminosa.
Sem coletes salva-vidas, sem boias e com muitos sem saber nadar, o pânico tomou conta da Lagoa por mais de trinta minutos. Infelizmente, 35 pessoas perderam a vida, entre elas, 29 crianças. Entre os seis adultos, destaca-se o sargento Reginaldo Calixto da Silva, da Polícia Militar da Paraíba, que, mesmo de folga e à paisana, mergulhou repetidamente para salvar vidas. Conseguiu resgatar duas crianças, mas acabou se tornando uma das vítimas ao tentar salvar outras duas ao mesmo tempo, mergulhando em um trecho da Lagoa com cinco metros de profundidade.
Hoje, cinquenta anos depois da tragédia da Lagoa, restam memórias de um domingo inesquecível e trágico. Relembrar esse dia é caminhar pela linha tênue entre a alegria inocente de um passeio com minha avó e a dor da tragédia que se seguiu.
Narro esses fatos a partir do valioso depoimento do meu pai, o historiador e sociólogo paraibano Paulo Francisco Monteiro Galvão, que nos recebeu em sua casa naquele dia fatal, profundamente abalado ao ver minha avó e eu retornando assustados, sem saber ainda da dimensão trágica do que havia acontecido. Sim, eu escapei por pouco, e essa lembrança se tornou um marco silencioso da fragilidade da vida e da importância de preservar a memória coletiva.
Sim, eu estava na Lagoa, em 24 de agosto de 1975. Repito, tinha apenas cinco anos e estava acompanhado da minha avó paterna. Fui um dos passageiros do penúltimo passeio tranquilo da balsa “Portada”, às vésperas do Dia do Soldado, 25 de agosto.
Fui testemunha viva de um dos episódios mais tristes, dolorosos e angustiantes da História de João Pessoa. O que deveria ser um dia de lazer e alegria para centenas de famílias paraibanas se transformou, em instantes, em uma tragédia. Os bombeiros conseguiram salvar quase 80 pessoas nas águas turvas da Lagoa.
Ao descer da balsa militar, e retornar aos cuidados da minha avó, minutos depois, vi de perto o drama que se desenrolou na Lagoa do Parque Sólon de Lucena. O passeio, que para muitos foi inesquecível pela beleza e pela emoção, como foi para mim aos cinco anos de idade, tornou-se trágico para dezenas de famílias que perderam crianças nas condições de filhos, netos, irmãos, primos e sobrinhos.
No contexto da Ditadura Militar (1964-1985), o inquérito responsabilizou o Exército pela negligência, mas nenhuma punição foi aplicada aos organizadores do evento. A Justiça Federal reconheceu a responsabilidade da União e determinou o pagamento de indenizações, e pensões, embora os processos tenham se arrastado por anos.
Até hoje, não há memorial físico na Lagoa que homenageie as 35 vítimas. O documentário "Lagoa 1975: O passeio que não terminou", dirigido pela jornalista Vall França e produzido pela TV Assembleia, do estado da Paraíba, mantém viva a memória, com depoimentos de sobreviventes e familiares, em quase 15 minutos.
Hoje, ao almoçar com meu pai, o professor universitário aposentado da UFPB, Paulo Galvão, ouvi dele os detalhes com emoção. Carrego a lembrança pessoal daquele dia, mas também a consciência de que eu poderia ter sido uma das vítimas. Se não fosse pela inteligência da minha avó, que não permitiu que eu embarcasse novamente, talvez minha história tivesse terminado na Lagoa.
Então, eu não teria me tornado Coordenador do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de João Pessoa (CMDCA-JP) em 2017, Economista do Ano de 2019 e Professor de Economia do Ano de 2023 na Paraíba, eleito pelo Conselho Regional de Economia da Paraíba (CORECON-PB), além de Professor Destaque nos semestres 2016.1, 2017.1, 2017.2, 2018.2, 2021.2 e 2023.2 no UNIESP.
Hoje, meio século depois, ao pesquisar sobre o tema, reconheço o valor dessa escolha da minha saudosa avó, na época com 70 anos, e a importância de preservar a memória das 29 crianças que não tiveram a mesma chance e perderam suas vidas naquela tarde trágica. Essa lembrança da tragédia da Lagoa me acompanha como um compromisso permanente com a defesa da infância na capital paraibana.
Com certeza, foi uma tragédia esse dia para muitas famílias paraibanas. Eu morava na Avenida Dom Pedro I e participei desse dia trágico. No dia anterior outras crianças deram uma volta na balsa do Exércio Brasileiro. Até hoje, não existe um memorial no Parque Sólon de Lucena.
Por fim, que a Lagoa receba, um dia, um memorial estadual com o nome completo dessas 35 pessoas e com fotos. Elas merecem ser lembradas como símbolo de dor, de luto e de preservação da História da sociedade paraibana. Não podemos esperar mais 50 anos!
Recomendamos assistir ao documentário “Lagoa 1975: O passeio que não terminou”: https://www.youtube.com/watch?v=jKhAksv6Zmc.