03/09/2025 às 12h31min - Atualizada em 03/09/2025 às 12h27min

POR UMA PARAÍBA MELHOR

Por Paulo Galvão Júnior (*)

  • Ir para GoogleNews
Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

1. Considerações Iniciais

A Paraíba, com sua rica História e belezas naturais, como a Ponta do Seixas, o ponto mais oriental das Américas, e os impressionantes inselbergs do Sertão, ainda enfrenta desafios estruturais profundos que comprometem a construção de um futuro mais próspero, mais inclusivo e mais sustentável.

Para compreender esses entraves, é essencial realizar uma análise crítica dos problemas sociais, econômicos e ambientais que moldam a realidade desse estado secular e nordestino. Somente por meio de uma abordagem integrada e sensível às especificidades paraibanas será possível promover transformações socioeconômicas duradouras.

Com uma população que já ultrapassou os 4,1 milhões de habitantes, a Paraíba precisa de um projeto estadual estratégico, com slogan: “Por uma Paraíba Melhor, que seja capaz de enfrentar seus desafios e promover o desenvolvimento sustentável em pleno século XXI.

Como economista paraibano da Geração X, que nasceu entre 1965 e 1980, período de intensas transformações no Brasil, hoje, apresento neste artigo reflexões críticas que buscam contribuir para o debate sobre os rumos da Paraíba nos próximos quatro anos.

2. Sete Obstáculos ao Desenvolvimento Sustentável da Paraíba

A Paraíba enfrenta uma série de obstáculos que comprometem o bem-estar da população e dificultam o progresso socioeconômico do estado. Entre os principais entraves estão a precariedade da educação pública, a fragilidade dos serviços de saúde pública, a elevada pobreza, o elevado índice de desemprego, o persistente déficit habitacional, os impactos das mudanças climáticas, e o crescente desafio de enfrentar a criminalidade.

2.1 A Precariedade da Educação Pública

Nenhum projeto de desenvolvimento sustentável se sustenta sem uma educação pública de qualidade. Infelizmente, a Paraíba ainda convive com escolas carentes de infraestrutura, professores mal remunerados e alunos que não atingem os níveis básicos de aprendizagem.

Segundo o IDEB 2023, a Paraíba obteve nota 5,2 nos anos iniciais, 3,9 nos anos finais e 3,6 no ensino médio, abaixo da meta nacional. A taxa de aprovação no ensino médio é de 84%, e menos de 50% dos alunos demonstram aprendizado adequado em Português e Matemática.

Investir em escolas integrais, bibliotecas públicas, formação docente e acesso a tecnologias educacionais devem ser prioridade absoluta. Só assim será possível preparar os jovens para um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, mais globalizado, além de erradicar o analfabetismo, ou seja, 409 mil pessoas analfabetas, com 15 anos ou mais de idade. Isso representa uma taxa de analfabetismo de 12,8%, a terceira maior do Brasil, atrás de Alagoas (14,3%) e Piauí (13,8%).

2.2 A Fragilidade da Saúde Pública

A saúde é outro ponto crítico na Paraíba. Com 223 municípios, muitos de pequeno porte, o estado enfrenta dificuldades em oferecer serviços de saúde de qualidade. No primeiro semestre de 2025, segundo a SES-PB, foram registrados 6.461 casos de arboviroses, sendo 5.316 casos de dengue, 476 de chikungunya, 17 de zika e 652 de oropouche. Quanto aos óbitos, 3 mortes por dengue e 2 por chikungunya, totalizando 5 óbitos.

Hospitais sobrecarregados, escassez de médicos, enfermeiros e fisioterapeutas em pequenas cidades e deslocamentos obrigatórios para grandes cidades revelam um sistema desigual. Fortalecer a atenção básica, valorizar os profissionais de saúde, expandir a telemedicina e interiorizar efetivamente o atendimento médico-hospitalar são medidas urgentes.

Infelizmente, a Paraíba ainda enfrenta uma crise silenciosa na saúde pública, especialmente em áreas rurais e periféricas. Atualmente, a Paraíba enfrenta sérios desafios em diversos indicadores de saúde pública, revelando desigualdades e fragilidades estruturais que afetam principalmente os municípios menores e mais afastados dos grandes centros urbanos, como João Pessoa, Campina Grande e Patos.

2.3 Elevada Pobreza

Em 2023, cerca de 7,4% da população paraibana vivia em situação de extrema pobreza, o que corresponde a aproximadamente 300 mil pessoas. Esse percentual é superior à média nacional (4,4%), mas inferior à média do Nordeste (9,1%).

No mesmo ano, 47,4% da população estava abaixo da linha de pobreza, definida como renda familiar per capita inferior a R$ 665 por mês, valor recomendado pelo Banco Mundial. Esse elevado índice é bem acima da média nacional (27,4%) e ligeiramente acima da média nordestina (47,2%).

Comparando com o panorama nacional, a Paraíba ainda apresenta um elevado nível de pobreza, mesmo diante de avanços em vários indicadores econômicos nos últimos vinte anos.

2.4 Desemprego

A falta de empregos de qualidade é um dos maiores problemas enfrentados pelos paraibanos. Em 2025, a taxa de desemprego caiu para 7% no segundo trimestre, a menor da série histórica desde 2012, segundo a PNAD Contínua, do IBGE. Ainda assim, 152 mil pessoas seguem desocupadas.

Jovens e mulheres continuam sendo os mais afetados com a desocupação. Combater o desemprego exige políticas eficazes de qualificação profissional, como também, incentivos ao empreendedorismo, ao cooperativismo, a economia criativa, a economia verde e o comércio exterior.

Para além do crescimento dos investimentos privados na indústria, notadamente nos segmentos de alimentos, bebidas, construção civil, calçados, têxteis e máquinas agropecuárias, torna-se essencial fomentar a geração de empregos com carteira de trabalho assinada, como estratégia para fortalecer o mercado de trabalho e impulsionar o desenvolvimento sustentável.

2.5 O Déficit Habitacional

O déficit habitacional é um dos problemas sociais mais graves nas 23 microrregiões. Segundo dados da Fundação João Pinheiro, o Brasil tem um déficit de 6,2 milhões de domicílios, e a Paraíba contribui com mais de 100 mil unidades habitacionais em condições precárias ou com ônus excessivo de aluguel.

A ausência de políticas habitacionais consistentes agrava a desigualdade econômica. O programa estadual prevê 10 mil novas moradias populares e investimentos de R$ 1,4 bilhão em habitação popular.

2.6 As Mudanças Climáticas

As mudanças climáticas já impactam diretamente a vida das famílias paraibanas. O Sertão Paraibano sofre com estiagens prolongadas e avanço da desertificação, comprometendo a agricultura de subsistência. O Agreste Paraibano enfrenta irregularidade das chuvas e aumento das temperaturas, afetando a produção agropecuária.

O Brejo Paraibano tem sofrido variações bruscas no regime de chuvas, ameaçando a produção agropecuária. A Mata Paraibana exposta ao risco de enchentes, erosão costeira e aumento do nível do mar, colocando em risco comunidades litorâneas.

2.7 A Criminalidade

A violência urbana e rural compromete o bem-estar da população paraibana. Na Paraíba, de janeiro a agosto de 2025, já foram registrados 21 feminicídios, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) Essa estatística alarmante revela uma média de quase três mulheres assassinadas por mês por motivação de gênero, refletindo uma realidade marcada pela violência contra a mulher no estado.

Esse preocupante panorama exige ações governamentais eficazes, como também, o engajamento ativo da sociedade civil, e, sobretudo, das famílias. É fundamental romper com a cultura da violência contra a mulher e construir uma Paraíba mais segura e igualitária para todas as mulheres no estado. Infelizmente, nos últimos oito meses de 2025, mais de 900 agressores de mulheres foram conduzidos às delegacias no estado, segundo dados da Polícia Civil da Paraíba. Esse número alarmante evidencia a urgência de fortalecer políticas públicas de prevenção, proteção e responsabilização, além de promover uma profunda transformação cultural na sociedade paraibana.

A Paraíba vem enfrentado também uma escalada alarmante de violência, evidenciada, sobretudo, pelo assassinato de jovens envolvidos em disputas entre facções criminosas na Região Metropolitana de João Pessoa. Muitos desses jovens, pertencentes à Geração Alpha, deixaram de trilhar caminhos promissores nas diversas áreas do conhecimento humano e acabaram sendo seduzidos pelo perigoso submundo do tráfico de drogas.

3. Reflexões Críticas de um Economista Paraibano da Geração X

Quem nasceu na Paraíba entre 1965 e 1980 viveu tempos de intensas mudanças, da Ditadura Militar (1964-1985) à redemocratização, da hiperinflação ao Plano Real, da televisão em preto e branco ao smartphone. Essa geração aprendeu a lidar com crises econômicas e a buscar soluções práticas diante das adversidades.

Hoje, o maior desafio não é apenas econômico ou social, mas cultural. É preciso romper com o imediatismo e construir políticas de longo prazo. Para que a Paraíba alcance um futuro próspero, é essencial fortalecer o planejamento econômico, alinhando cada investimento público e privado ao projeto estadual “Por uma Paraíba Melhor”, que deve ser o norte estratégico do desenvolvimento sustentável. Portanto, somente com uma estratégia clara será possível elevar a economia paraibana a novos patamares.

Em plena Quarta Revolução Industrial, a Paraíba apresenta a pior velocidade média de conexão à Internet entre os estados brasileiros, registrando apenas 84,13 megabytes por segundo (Mbps), segundo dados do Portal Minha Conexão. Essa realidade evidencia a necessidade urgente de investimentos em infraestrutura digital e políticas públicas voltadas à inclusão tecnológica. Superar esse cenário desafiador exige um esforço conjunto da sociedade paraibana, em parceria com as autoridades estaduais e municipais, com o objetivo de garantir acesso à conectividade de qualidade para todos.

4. A Interiorização do Desenvolvimento na Paraíba

Descentralizar o desenvolvimento é um dos grandes desafios do estado. João Pessoa e Campina Grande concentram a maioria das oportunidades, enquanto o Sertão, o Brejo e o Cariri enfrentam escassez de investimentos e de novas oportunidades.

Em resposta, o governo estadual lançou o programa “Paraíba 2025-2026”, com R$ 11,5 bilhões em investimentos nas quatro mesorregiões do estado. Estão previstas obras em infraestrutura, saúde, educação, segurança hídrica, turismo e habitação, com destaque para a construção de 10 mil novas unidades habitacionais e 26 novas escolas.

A interiorização do desenvolvimento exige políticas públicas eficientes, que atraiam empresas brasileiras e estrangeiras para o interior, incentivem a agricultura, aumentando a produção de cana-de-açúcar, abacaxi, manga, banana, mangaba, algodão, feijão, milho, cajá, mandioca e macaxeira, e, sobretudo, explorem o turismo histórico, cultural e rural de forma sustentável.

5. Considerações Finais

É urgente superar a negligência histórica com a educação, enfrentar a criminalidade com seriedade, combater o desemprego e a pobreza, garantir saúde pública de qualidade nos 223 municípios, reduzir o déficit habitacional nas 23 microrregiões e preparar o estado para os impactos das mudanças climáticas nas 4 mesorregiões.

Mais do que reagir aos grandes problemas paraibanos, é preciso planejar o futuro com responsabilidade, colocando o planejamento econômico como eixo central do Governo. Um futuro próspero só será alcançado se o desenvolvimento for sustentável, equilibrando crescimento econômico com justiça social e respeito ao meio ambiente.

O sonho de uma Paraíba mais próspera, mais justa e mais sustentável não é uma utopia, mas sim a necessidade de um projeto estadual viável, que exige a coragem de enfrentarmos, coletivamente, os nossos maiores desafios e, unidos, trabalharmos “Por uma Paraíba Melhor”.

(*) Economista paraibano (CORECON-PB 1392).

  • Ir para GoogleNews
Leia Também »