13/09/2025 às 08h10min - Atualizada em 13/09/2025 às 08h06min

O Brasil é o país mais desigual entre as maiores economias do planeta

Por Paulo Francisco Monteiro Galvão Júnior*

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Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

1. Introdução

Segundo o Credit Suisse Global Wealth Report 2023, publicado pelo banco suíço UBS, o Brasil lidera o ranking de desigualdade entre as maiores economias do mundo, com 48,4% da riqueza nacional concentrada nas mãos do 1% mais rico em 2022. Em seguida aparecem Índia (41,0%) e Estados Unidos (34,2%).

Outras economias relevantes, como China (31,1%), Alemanha (30,0%) e Canadá (24,3%) apresentam índices elevados, mas ainda inferiores ao brasileiro, revelando modelos distributivos menos concentradores. Posteriormente, vêm Coreia do Sul (23,1%), Itália (23,1%) e Austrália (21,7%).

Por fim, países desenvolvidos como França (21,2%), Reino Unido (20,7%) e Japão (18,8%) registram os menores níveis de concentração de riqueza. Esses dados evidenciam que, embora o Brasil figure entre as maiores economias globais em termos de PIB nominal, sua estrutura distributiva é profundamente desigual.

Portanto, o Brasil configura-se como o país mais desigual entre as maiores economias do planeta. As interpretações furtadianas sobre essa preocupante realidade são discutidas ao longo deste artigo.

2. Interpretações Furtadianas sobre a Desigualdade no Brasil

O economista paraibano Celso Monteiro Furtado (1920-2004) interpretou a economia brasileira sob a ótica do subdesenvolvimento, que, para ele, não representa uma etapa transitória rumo ao desenvolvimento, mas sim uma estrutura própria, persistente e funcional à reprodução da desigualdade.

Cinco pilares do pensamento furtadiano ajudam a compreender as causas que levaram o Brasil a ocupar o topo da desigualdade entre as maiores economias globais: i) Herança histórica da colonização; ii) Industrialização por substituição de importações; iii) Dependência estrutural; iv) Ausência de projeto nacional de desenvolvimento; e v) Desindustrialização.

2.1. Herança Histórica da Colonização

O Brasil foi moldado como uma economia de exploração de recursos naturais, voltada à exportação de produtos primários (açúcar, ouro, café, algodão e borracha), sob controle de elites agrárias.

Furtado (2003, p. 13-14), em sua obra-prima Formação Econômica do Brasil, afirma: “Coube a Portugal a tarefa de encontrar uma forma de utilização econômica das terras americanas que não fosse a fácil extração de metais preciosos. Somente assim seria possível cobrir os gastos de defesa dessas terras”.

Para Furtado, a colonização portuguesa não visou à formação de uma sociedade nacional, mas à exploração de recursos naturais da colônia em benefício da metrópole. O Brasil nasceu sob uma lógica extrativista, com concentração fundiária e ausência de políticas de integração social. Essa herança colonial ainda se manifesta no latifúndio, na baixa mobilidade social e na elevada desigualdade.

2.2. Industrialização por Substituição de Importações

Entre 1930 e 1985, o crescimento econômico impulsionado pela industrialização brasileira não resultou em uma distribuição equitativa de renda. Apesar dos avanços tecnológicos e da modernização dos setores produtivos, amplas camadas da população brasileira permaneceram à margem dos benefícios gerados pela industrialização.

O processo concentrou-se em grandes centros urbanos e favoreceu grupos econômicos específicos, enquanto persistiam profundas desigualdades sociais. A expansão do PIB brasileiro refletiu mais a acumulação de capital do que a inclusão socioeconômica, evidenciando um modelo de industrialização por substituição de importações.

Furtado (1974, p. 95), em O Mito do Desenvolvimento Econômico, registra: “A economia brasileira constitui exemplo interessante de quanto um país pode avançar no processo de industrialização sem abandonar suas principais características de subdesenvolvimento: grande disparidade na produtividade entre as áreas rurais e urbanas, uma grande maioria da população vivendo em um nível de subsistência fisiológica, massas crescentes de pessoas subempregadas nas zonas urbanas, etc.”.

A industrialização brasileira, especialmente no século XX, gerou crescimento econômico sem democratização da riqueza. A urbanização acelerada não foi acompanhada por políticas públicas de inclusão social, resultando em periferias marginalizadas e serviços públicos precários.

2.3. Dependência Estrutural

O Brasil exporta commodities agrícolas, minerais e energéticas e importa tecnologia e bens de alto valor agregado. Essa dependência estrutural limita a geração de empregos de qualidade e acentua a concentração de terra, riqueza e renda.

Furtado (1976, p. 332), em A Economia Latino-Americana, aponta: “No caso das economias exportadoras de produtos agropecuários, seja porque as vantagens comparativas se baseavam no uso extensivo dos recursos, seja porque a organização agrária não propiciava a capitalização, a experiência demonstrou que a assimilação de novas técnicas seria lenta ou inexistente”.

Para Furtado, o subdesenvolvimento é mantido pela dependência tecnológica e pela especialização em produtos primários. Essa lógica limita a autonomia tecnológica e perpetua a vulnerabilidade externa. Mesmo com avanços em segmentos, como agronegócio e mineração, ocorrem a dependência de mercados externos e a baixa diversificação industrial.

O Brasil ocupa posição de destaque no agronegócio mundial. É o maior produtor global de suco de laranja, soja, açúcar e café; o segundo maior de carne bovina, celulose e etanol; e o terceiro maior de carne de frango, fumo, algodão e milho. Segundo a FAO, o país sul-americano lidera as exportações mundiais em nove desses produtos do agronegócio, com exceção do etanol e milho.

2.4. Ausência de Projeto Nacional de Desenvolvimento

A ausência de um projeto nacional de desenvolvimento é o ponto mais urgente do Brasil. Celso Furtado (1969, p. 133), no livro Um Projeto para o Brasil, afirma: “Como a eliminação do desenvolvimento à base de um projeto nacional não seria compatível com a preservação da identidade cultural, não é demais afirmar que a política de desenvolvimento e a luta pela formação da personalidade nacional tenderão a confundir-se em nosso país”.

Para Furtado, o verdadeiro desenvolvimento exige a superação das estruturas herdadas do passado e a construção de um projeto nacional. O Brasil nunca consolidou um plano capaz de integrar as massas populares ao processo econômico. Sem reformas estruturais, como redistribuição de terras, democratização da educação e fortalecimento da indústria nacional, o crescimento econômico não se converte em desenvolvimento social.

2.5. A Desindustrialização

Em A Fantasia Organizada, Celso Furtado critica a crença de que o mercado internacional, por si só, seria capaz de promover o desenvolvimento. Segundo Furtado (1985, p. 57): “A expansão da produção nacional, ao incrementar o poder de compra da população, faz crescer, mais do que proporcionalmente, a demanda de manufaturados, e a diversifica, o que estimula as importações”.

Essa visão levou à abertura econômica sem contrapartida em políticas industriais, resultando na perda de competitividade da indústria nacional e na reprimarização da pauta exportadora.

Na obra Em Busca de Novo Modelo, Celso Furtado propõe uma reflexão crítica sobre a crise contemporânea e defende a reconstrução do papel do Estado como agente indutor de crescimento econômico com inclusão social. Para Furtado (2002, p. 14): “Os 20% mais pobres da população brasileira contrastam com o elevado grau de urbanização do país. Não se pode, assim, explicar essa realidade pela desigualdade notória que existe entre as populações rurais e urbanas. O problema maior do Brasil é a pobreza urbana, vale dizer, o das condições de habitação e emprego da população de baixa renda”.

À luz do pensamento furtadiano, a desindustrialização brasileira desde 1985, configura-se como fenômeno econômico e processo estrutural que aprofunda as desigualdades sociais e limita a geração de empregos qualificados.

3. Conclusão

Concluindo, Celso Furtado explicou as raízes do subdesenvolvimento brasileiro, como também antecipou os profundos desafios estruturais que ainda enfrentamos. Vivemos sob um modelo que concentra riqueza e perpetua desigualdade entre as maiores economias do mundo, o número de milionários saltou de 58 mil em 2012 para 433 mil em 2024, enquanto, a taxa de pobreza, embora tenha recuado de 34,9% para 23,4% no mesmo período, ainda representa quase um quarto da população brasileira. Tudo isso ocorre dentro da décima maior economia do planeta, na atualidade, um paradoxo que evidencia a urgência de um projeto nacional de desenvolvimento.

Referências Bibliográficas

FAO. FAOSTAT: Countries by commodity. Disponível em: https://www.fao.org/faostat/en/?form=MG0AV3#rankings/countries_by_commodity. Acesso em: 12 set. 2025.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 32ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2003.

______________. O mito do desenvolvimento econômico. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

______________. A economia latino-americana. 1ª ed. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1976.

______________. Análise do “modelo” brasileiro. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.

______________. Um projeto para o Brasil. 5ª ed. Rio de Janeiro: Saga, 1969.

______________. A fantasia organizada. 1ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

______________. Em busca de novo modelo: reflexões sobre a crise contemporânea. 2ª Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

UBS. Credit Suisse Global Wealth Report 2023. Disponível em: file:///D:/Meus%20arquivos/Downloads/gwr-2023-en-2.pdf. Acesso em: 12 set. 2025.

*Paulo Francisco Monteiro Galvão Júnior é economista paraibano (CORECON-PB 1392), com graduação em Ciências Econômicas pela UFPB e especialização em Gestão de RH pela UNINTER. Eleito o Economista do Ano 2019 e o Professor de Economia do Ano 2023 na Paraíba pelo CORECON-PB. É conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor técnico do Fórum de Desenvolvimento da Paraíba e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência.

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