1. Considerações Iniciais
Estimados leitores lusófonos do Portal North News, poucas marcas brasileiras conseguiram atravessar gerações mantendo viva sua identidade, conquistando novos consumidores e, ao mesmo tempo, preservando a memória de sua origem. A Dore Refrigerantes é um desses raros exemplos no Brasil.
A Fábrica de Águas Gasosas Anglo-Brasileira foi fundada há 114 anos, na antiga Parahyba do Norte (atual João Pessoa), na tradicional Rua da Areia, no secular bairro de Varadouro, na capital do estado da Paraíba (PB).
O refrigerante Dore nasceu como um empreendimento familiar e rapidamente conquistou os paladares paraibanos com seu sabor marcante, tendo o Guaraná Dore o seu primeiro e mais clássico produto. Desde então, a Dore Refrigerantes construiu uma trajetória pautada pela tradição, pela autenticidade e pela resistência no mercado nordestino.
2. O Guaraná Dore: O Refrigerante Mais Tradicional da Paraíba e do Rio Grande do Norte
Na linha do tempo da Dore Refrigerantes, iremos destacar o ano e o marco histórico:
1911: Fundação em 13 de junho, na parte baixa da Rua da Areia, nº 197, no Varadouro, pelo engenheiro mecânico e químico industrial inglês Sidney Clement Dore (1866-1952). Na Fábrica de Águas Gazozas Anglo-Brasileira produzia Gazozas (escrevia-se com a letra z, e era como se chamava refrigerante na época), assim nasce o Guaraná Dore, com sabor marcante do fruto da Amazônia.
1917: Fundação da sua primeira filial em Natal, no Rio Grande do Norte (RN), na Rua Frei Miguelinho, 62, no Bairro da Ribeira.
1921: Celebra 10 anos, já reconhecido como bebida popular entre os paraibanos.
1931: Comemora 20 anos, consolidando-se como símbolo das festas juninas e encontros familiares.
1941: Aos 30 anos amplia sua presença comercial em plena Segunda Guerra Mundial.
1951: Celebra 40 anos de excelência no mercado paraibano, consolidando-se como referência em qualidade e tradição.
1952: Inicia expansão regional com nova filial, na Rua Agostinho Leitão, no bairro do Alecrim, em Natal, no estado do RN, tornando-se presença constante em festas populares e no cotidiano das famílias nordestinas.
1956: Com novas máquinas, em novo prédio na Rua Sílvio Pélico, em Alecrim, em Natal (RN), a empresa alicerçou as imprescindíveis condições técnicas e comerciais.
1961: Comemora 50 anos, já é referência em sabor na cultura alimentar da região Nordeste.
1971: Moderniza processos e embalagens, alinhando-se às tendências do mercado sem perder sua essência e sabor aos 60 anos.
1981: Nas comemorações alusivas aos 70 anos, abre nova indústria na Avenida Parque, 1330, Distrito Industrial de João Pessoa (PB), ampliando a produção, a produtividade e a competitividade da empresa.
1991: Celebra 80 anos e avança na clientela de consumidores nordestinos em festas de Natal e de Ano Novo.
1999: Foi inaugurada em Parnamirim (RN) a nova sede e matriz da marca, concentrando toda a operação na cidade potiguar. Com modernas instalações físicas, equipamentos de última geração e máquinas alemãs, a fábrica se destaca como uma das mais avançadas do Nordeste. A mudança fortalece a logística e a distribuição para diversos estados da região, consolidando a presença da empresa no mercado nordestino.
2001: Com 90 anos de atuação, consolida sua presença regional com foco na eficiência logística e na expansão de mercado.
2011: Comemora 100 anos de marca, como símbolo de resistência, tradição e sabor nordestino.
2021: Celebra 110 anos, mantendo a fórmula original e conquistando novas gerações de consumidores.
2025: Aos 114 anos, reafirma seu papel como patrimônio afetivo e empresarial da PB e do RN.
3. Dore: Uma Marca com Raízes Profundas
No início do século XX, a produção de bebidas no Brasil era dominada por pequenas fábricas artesanais voltadas ao consumo local. Foi nesse contexto que surgiu o Guaraná Dore, com a proposta de oferecer um refrigerante diferenciado e refrescante.
A Rua da Areia, importante reduto comercial da capital paraibana, foi o palco inicial dessa rica História. No Varadouro, os primeiros lotes começaram a conquistar os paladares paraibanos.
Sidney Clement Dore nasceu em 14 de janeiro de 1866, em Londres, Inglaterra, e faleceu em 1º de junho de 1952, aos 86 anos, sendo sepultado em João Pessoa, Paraíba, Brasil. Ele foi o primeiro proprietário de carro na Paraíba, fundou o primeiro cinema de João Pessoa, fundou a primeira associação dos músicos, era de religião protestante e possuía um grau maçônico 33 (muito elevado).
Em 1911 foi inaugurada a primeira fábrica de refrigerantes na PB e no Nordeste, a Fábrica de Águas Gasosas Anglo-Brasileira, com máquinas inglesas importadas. As garrafas de vidro eram importadas da Europa, a produção e engarrafamento ficavam por conta desta fábrica paraibana.
Sidney Clement Dore, filho de tabelião e de uma dona de casa na Inglaterra, chegou à Paraíba em 1898, aos 32 anos de idade, quando veio ao Brasil a serviço da Great Western of Brazil Railway para construir a Rodovia TransNordestina, encantou-se com a capital paraibana e decidiu investir nas terras nordestinas. Casou-se com a paraibana Aide Lucena, com quem teve três filhos: James Wallace Dore, William Clement Dore e Walter Bryon Dore.
Em 1917 a segunda unidade fabril da Fábrica de Águas Gasosas Anglo-Brasileira é aberta no estado do RN. A fábrica em João Pessoa sofreu bastante economicamente, a empresa concentrou sua fabricação e direção no RN.
Posteriormente, o nome da empresa mudou para Sidney C. Dore Indústria de Refrigerantes, agora SIDORE, comandada por netos e bisnetos de Sidney Dore. O atual presidente é Walter Byron Dore Júnior (nascido em Natal, no RN).
A abertura da filial no Distrito Industrial de João Pessoa, em 1981, marcou um salto na modernização da marca. Com estrutura ampliada, a empresa Dore Refrigerantes consolidou a sua presença não apenas na PB, mas também em estados vizinhos.
Posteriormente, em 1999, a instalação da fábrica na Rodovia BR-304, s/n, no Distrito Industrial, em Parnamirim (RN), reforçou sua capacidade produtiva e logística, garantindo competitividade frente a grandes players nacionais e internacionais.
No ano de 2012 ocorre o falecimento aos 87 anos do empresário paraibano Walter Byron Dore, que herdou do pai, a Dore Indústria de Refrigerantes, e fundou o Sindicato das Indústrias de Cervejas, Refrigerantes, Águas Minerais e Bebidas em Geral do Estado do Rio Grande do Norte, o SICRAMIRN.
Hoje, a SIDORE (atual CNPJ) atua no mercado nordestino, com forte presença nos estados do RN, PB, Pernambuco (PE), Ceará (CE), Alagoas (AL), Sergipe (SE), Piauí (PI) e Bahia (BA), produzindo e comercializando refrigerantes, sucos e energéticos. A SIDORE não exporta refrigerantes para o Canadá nem tão pouco para a Inglaterra, terra natal do seu fundador, pois, ainda tem muito mercado no Brasil para se desenvolver.
4. Análise do Mercado Brasileiro e Concorrência com Multinacionais
O mercado brasileiro de refrigerantes é dominado por gigantes globais, como Coca-Cola e Pepsi-Cola, que investem fortemente em publicidade, logística e distribuição. Ainda assim, a Dore Refrigerantes conseguiu se consolidar como uma marca de resistência regional, preservando espaço no Nordeste mesmo diante da forte concorrência dessas multinacionais.
A força da Dore Refrigerantes repousa sobre três pilares estratégicos: i) Identidade cultural: Enquanto as multinacionais vendem uma experiência globalizada, o Guaraná Dore representa o sabor da tradição brasileira; ii) Preço acessível: Oferece um produto de qualidade com preços compatíveis à realidade econômica da região Nordeste; iii) Distribuição estratégica: Com fábricas em Parnamirim (matriz) e João Pessoa (filial), garante proximidade com o consumidor e reduz custos logísticos.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas não Alcoólicas (ABIR), o segmento é altamente competitivo e globalizado, conta com 71 empresas associadas, 136 fábricas, 32 bilhões de litros produzidos por ano e mais de dois milhões de empregos diretos e indiretos. A SIDORE Indústria e Comércio de Refrigerantes e Águas Minerais Ltda. é uma das empresas associadas à ABIR, com sede em Brasília.
É importante destacar que os brasileiros ocupam a segunda posição entre os maiores consumidores de refrigerante na América Latina, com uma média anual de 76,6 litros por domicílio. Esse volume latino-americano é liderado pelo México, onde o consumo atinge 270,9 litros por domicílio por ano, conforme dados de 2024 da empresa de pesquisa Worldpanel by Numerator.
5. A Evolução da Marca
A Dore Refrigerantes (nome fantasia), fundada em 1911 por Sidney Clement Dore, começou como uma fábrica de águas gasosas na PB e, ao longo de mais de um século, se manteve firme no mercado nordestino.
Hoje, a empresa conta com 14 marcas de bebidas não alcoólicas em seu portfólio, incluindo: i) Refrigerantes: Guaraná Dore, Grapette (franquia americana), Kitubaína, Dore Cola, Cajuí, Dore Laranja, Dore Limão, Dore Uva e Guaraná Dore Zero Açúcar; ii) Energéticos: Infinity, Blade e Mormaii; iii) Licenciamento internacional: Tampico (bebida mista em diversos sabores) e Ice Pego (bebida alcoólica a base de cereais).
É impossível esquecer o icônico slogan: “Quem bebe Grapette repete”. Essa frase marcou gerações, especialmente entre estudantes do Ensino Fundamental e Médio na capital paraibana, onde o primeiro refrigerante de uva lançado no país fazia parte do cotidiano escolar e das cantinas escolares. Durante o período em que estudava no Colégio João Machado, costumava escolher Grapette acompanhado de sonho doce como lanche preferido. O Grapette chegou ao Brasil em 1948, o meu pai já tinha um ano.
Vale destacar que meu pai, o Professor Paulo Francisco Monteiro Galvão, teve uma infância marcada por momentos singulares na antiga fábrica Dore, situada na Rua da Areia. Aos quatro anos de idade, possivelmente foi à última criança fora do círculo familiar a conhecer pessoalmente o proprietário Sidney Clement Dore, desfrutando do privilégio de explorar os espaços da fábrica e saborear gratuitamente o tradicional Guaraná Dore, oferecido por James Wallace Dore, filho mais velho do Senhor Dore. Essa convivência próxima foi possível graças à vizinhança entre a Dore e a fábrica de sucos de frutas de seu avô paterno, Francisco Olegário de Vasconcellos Galvão.
A indústria F. Galvão & Cia. iniciou suas atividades em 1951, na própria Rua da Areia, dedicando-se à produção de sucos de maracujá, abacaxi, caju e jenipapo. Encerrando suas operações nesse endereço em 1969, posteriormente, a empresa retomou suas atividades na década de 1970 no estado de Alagoas, mais precisamente no Pontal do Cururipe, em parceria com a colônia agrícola Pindorama.
Hoje, com cerca de 400 colaboradores diretos e uma extensa rede de distribuição, a Dore Refrigerantes atende oito dos nove estados nordestinos e mantém-se como parte essencial da cultura nordestina, sendo a primeira fábrica de refrigerantes do Norte e Nordeste do Brasil.
6. Considerações Finais
Concluindo, ao celebrar seus 114 anos em 13 de junho de 2025, no Dia de Santo Antônio, a Dore Refrigerantes reafirma sua posição como símbolo de tradição, resistência e sabor nordestino. Sua trajetória, iniciada na Rua da Areia e marcada por expansões estratégicas, reflete a capacidade de um negócio familiar se transformar em referência nordestina sem perder sua essência.
O sucesso atual da marca está no equilíbrio entre inovação e preservação da tradição. Mesmo diante da concorrência de multinacionais, a Dore Refrigerantes com o seu clássico Guaraná Dore segue conquistando novas gerações, carregando consigo a memória afetiva de milhões de consumidores no Nordeste.
Com certeza, mais do que um refrigerante, a marca Dore é um patrimônio cultural, econômico e emocional nos almoços em família e nas festas de aniversario e sua História continua a ser escrita com sabor, afeto e orgulho nordestino. Nos próximos meses, a terceira capital mais antiga do Brasil, com 440 anos, ganhará o Museu Dore, na Rua da Areia, uma das mais antigas ruas de João Pessoa.
Enfim, a rica História da Rua da Areia permanece viva em seus prédios revitalizados, como o da empresa Dore, em prédios abandonados (como um pertencente à minha família e de número 198 e antiga Fábrica de Sucos F. Galvão e vizinha da Dore), em imóveis alugados (como um também de propriedade familiar e antigo Scala Drinks e de número 211), em casas, sobrados, estabelecimentos comerciais e, sobretudo, nos descendentes que ainda preservam sua memória, como um episódio marcante ocorreu em 24 de dezembro de 1859, quando a rua recebeu a ilustre visita do imperador Dom Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina. Na ocasião, o casal imperial percorreu a Rua da Areia em bondes puxados por burros, sob os olhares atentos das famílias da alta sociedade, que ali residiam ou mantinham seus negócios, em pleno apogeu do Brasil Imperial.
(*) Economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, apresentador do Programa Economia em Alta na Rádio Alta Potência e autor de 18 e-books de Economia. WhatsApp para entrevistas: +55 (83) 98122-7221.
Nota: Meus sinceros agradecimentos ao estimado amigo e Diretor de Markting da DORE Refrigerantes, Fábio Dore, pela foto histórica, pelas relevantes informações da DORE na PB e no RN. Muito sucesso, muita prosperidade, e sobretudo, muita saúde, e que possamos juntos divulgar o Museu DORE, no Brasil, na Inglaterra, no Canadá e no mundo.