1. Considerações iniciais
Estimados leitores lusófonos do Portal North News, o Canadá é conhecido mundialmente por seu vasto território, seus enormes recursos naturais, sua elevada qualidade de vida e por ser um país bilíngue, multicultural e frio. Internacionalmente também se tornou um berço de mentes brilhantes que transformaram a Ciência Econômica.
Desde o pioneiro William Vickrey até o mais recente laureado Peter Howitt, cinco economistas canadenses conquistaram o Prêmio Nobel de Economia, contribuindo para moldar políticas globais, mercados financeiros e teorias de crescimento econômico que explicam o desenvolvimento das nações.
O presente artigo realiza um breve panorama dessas trajetórias intelectuais e das ideias que revolucionaram a maneira como entendemos o mundo econômico nos dias de hoje.
2. Cinco economistas canadenses laureados com o Prêmio Nobel de Economia
2.1. William Vickrey: O arquiteto dos leilões modernos
Nascido em Victoria, a capital da província de Colúmbia Britânica, William Vickrey (1914-1996) foi um dos fundadores da teoria dos leilões e do design de mecanismos, campos fundamentais para entender como formular regras eficientes em mercados e políticas públicas.
Inventor do leilão de Vickrey (onde o vencedor paga o segundo maior lance), ele inspirou o desenho de leilões de telecomunicações, concessões públicas e políticas de transporte urbano, como o pedágio de congestionamento.
Seu trabalho mostrou que a economia é, acima de tudo, uma ciência dos incentivos, de como as regras moldam o comportamento humano e o bem-estar social. William Vickrey foi o primeiro economista canadense a vencer o Prêmio Nobel de Economia no ano de 1996.
2.2. Myron Scholes: O gênio das finanças modernas
Nascido em Timmins, na província de Ontário, Myron Scholes (1941-) revolucionou as finanças com o modelo Black-Scholes, que explica como precificar opções e derivativos. Sua fórmula transformou Wall Street, os fundos de investimento e o gerenciamento de risco corporativo.
Embora o modelo tenha sido criticado após crises financeiras, ele continua sendo à base da engenharia financeira moderna, usada em bolsas de valores e bancos do mundo inteiro. Scholes representa o encontro entre teoria econômica e prática do mercado financeiro, onde números, taxas e índices e incertezas caminham lado a lado.
Vale destacar também que o economista Myron Scholes foi o segundo economista canadense vencedor do Prêmio Nobel de Economia no ano de 1997 e continua atuando como Professor de Finanças na Stanford Graduate School of Business, na Califórnia, nos Estados Unidos da América (EUA).
2.3. Robert Mundell: O pai do euro
Nascido em Kingston, na província de Ontário, Robert Alexander Mundell (1932-2021) foi o terceiro canadense a receber o Nobel de Economia em 1999. Seus estudos sobre macroeconomia internacional e política monetária em economias abertas deram origem ao célebre modelo Mundell-Fleming, base da moderna análise de regimes cambiais.
Mundell formulou também os critérios das áreas monetárias ótimas, explicando quando países podem compartilhar uma mesma moeda, conceito que se tornou o alicerce intelectual do euro, a moeda oficial de 20 dos 27 países membros da União Europeia (UE). Sua obra permanece essencial para bancos centrais e ministérios da Fazenda ou da Economia em todo o mundo.
2.4. David Card: O pesquisador da economia do trabalho
David Card (1956-) nasceu na cidade de Guelph, na província de Ontário. David Card é o quarto economista canadense que ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2021, por sua pesquisa empírica em economia do trabalho, especialmente sobre o impacto do salário mínimo e da imigração. Ele dividiu o prêmio com o economista americano Joshua Angrist e o economista holandês Guido Imbens.
David Card continua atuando como Professor de Economia da University of California, em Berkeley, nos EUA, e sempre pesquisando sobre a economia do trabalho.
2.5. Peter Howitt: O economista do crescimento sustentado pela destruição criativa
O mais novo e quinto economista canadense laureado com o Prêmio Nobel de Economia 2025, Peter Wilkinson Howitt (1946-), nasceu em Guelph, na província de Ontário, e fez carreira entre universidades canadenses e norte-americanas. Em parceria com o economista francês Philippe Aghion, desenvolveu o modelo de crescimento endógeno baseado na destruição criativa, retomando e formalizando as ideias do economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950).
Destruição criativa é um termo atribuído ao economista Schumpeter, que a descreveu em sua obra-prima Capitalismo, Socialismo e Democracia, de 1942. De acordo com Schumpeter: “O impulso fundamental que inicia e mantém o movimento da máquina capitalista decorre dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados, das novas formas de organização industrial que a empresa capitalista cria […] que incessantemente revoluciona a estrutura econômica a partir de dentro, incessantemente destruindo a velha, incessantemente criando uma nova. Esse processo de destruição criativa é o fato essencial acerca do capitalismo”.
Vale destacar também que o conceito de destruição criativa foi inicialmente exposto por Joseph Schumpeter em sua relevante obra Teoria do desenvolvimento econômico, publicada no ano de 1911.
Exemplos desse processo de destruição criativa são os serviços de streaming, como a Netflix lançada em 2007 em seu formato digital, que substituíram as locadoras de filmes, e os smartphones, popularizados a partir de 2007 com o lançamento do iPhone da Apple, com tela sensível ao toque e um navegador de internet em um único dispositivo, que gradualmente substituíram os telefones fixos e os celulares com teclado físico.
Segundo o economista Howitt, o crescimento econômico sustentado surge de um processo incessante de inovação industrial, com novas tecnologias e empresas substituem as antigas, elevando a produtividade e renovando o tecido econômico. Sua pesquisa influencia políticas de inovação, competitividade e desenvolvimento tecnológico em todo o mundo. Portanto, Howitt explicou a teoria do crescimento sustentado por meio da destruição criativa.
Peter Howitt, bacharelado em Economia na McGill University em 1968, e com mestrado em Economia no ano de 1969 na Western University, desde 2000 é Professor de Economia da Brown University, em Rhode Island nos EUA. Ele é um dos três economistas laureados pelo Prêmio Nobel de Economia 2025, ao lado do economista holandês Joel Mokyr, doutor em Economia pela University of Yale e professor na Northwestern University, em Illinois, nos EUA, e do economista francês Phillipe Aghion, doutor em Economia pela Harvard University e professor na London School of Economics (LSE), no Reino Unido (RU).
O economista canadense Peter Howitt concluiu um doutorado de Economia na Northwestern University, em Illinois, nos EUA, no ano de 1973. O Professor Emérito de Economia Howitt em parceria com Aghion escreveram um artigo em 1992, no qual apresentam um modelo matemático da destruição criativa, processo em que novas e melhores inovações substituem as antigas, sendo decisivo para ambos serem vencedores do Prêmio de Economia 2025.
3. Uma síntese das ideias de cinco economistas laureados de Economia
É muito importante trazer uma síntese das ideias de cinco economistas canadenses laureados com o Prêmio do Banco da Suécia em Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, que foi criado em 1969, desde então, ele foi concedido 56 vezes a um total de 99 laureados, sendo três dos vencedores foram mulheres, Elinor Ostrom (2009), Esther Duflo (2019) e Claudia Goldin (2023), e cinco economistas que nasceram no Canadá:
| Quadro 1. Cinco canadenses laureados com o Prêmio Nobel de Economia (1996-2025) | ||||
|---|---|---|---|---|
| Economista | Ano do Nobel | Motivo segundo o Banco da Suécia | Tema central | Impacto principal |
| William Vickrey | 1996 | Por suas contribuições fundamentais à teoria dos incentivos sob informação assimétrica | Leilões e incentivos | Estrutura de licitações e políticas de congestionamento |
| Myron Scholes | 1997 | Por um novo método para determinar o valor de derivativos | Finanças e precificação de opções | Revolução dos derivativos e gestão de risco global |
| Robert Mundell | 1999 | Por sua análise da política monetária e fiscal sob diferentes regimes de taxa de câmbio e sua teoria das áreas monetárias ótimas | Macroeconomia internacional e moedas únicas | Base teórica para o euro e regimes cambiais modernos |
| David Card | 2021 | Por suas contribuições empíricas para a economia do trabalho, especialmente sobre os efeitos do salário mínimo, imigração e educação | Economia do trabalho | Impacto do salário mínimo e da imigração no crescimento econômico de uma nação |
| Peter Howitt | 2025 | Por terem explicado como as novas tecnologias podem dirigir o crescimento sustentado | Crescimento endógeno e inovação | Teoria moderna da destruição criativa e políticas de inovação |
| Fonte: Elaborado pelo próprio autor após pesquisas em sites. | ||||
Apesar de atuarem em áreas distintas, esses cinco economistas canadenses compartilham três características marcantes: i) Visão global com raízes canadenses, onde todos nascidos no Canadá, seus trabalhos transcenderam fronteiras, moldando instituições financeiras, políticas públicas e teorias econômicas globais; ii) Interdisciplinaridade, onde cada um uniu matemática, política, sociologia ou tecnologia à economia, abrindo novas fronteiras de pesquisa; e iii) Relevância prática, com suas ideias não ficaram nas universidades americanas, elas influenciaram políticas de câmbio, transporte, finanças, inovação e educação.
4. Considerações finais
Concluindo, o Canadá tem a maior porcentagem da população com ensino superior do mundo, com 52,6% e é berço de cinco economistas laureados com Prêmio Nobel de Economia. O Canadá é o décimo sexto melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do planeta, com IDH de 0,939 no ano de 2023 e, com certeza, William Vickrey, Myron Scholes, Robert Mundell, David Card e Peter Howitt são exemplos do poder da pesquisa canadense, pragmática, criativa e profundamente humana.
Da moeda única europeia à precificação de opções, da economia da informação ao crescimento sustentado por meio da destruição criativa, o Canadá ofereceu ao mundo mentes que redefiniram o pensamento econômico moderno na atualidade.
Finalizando, o legado desses cinco economistas canadenses é um lembrete de que a economia, mais do que números, é uma ciência da transformação econômica, da busca incessante pela prosperidade econômica e pela elevada qualidade de vida.
(*) Economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência na capital paraibana. WhatsApp para entrevistas: +55 (83) 98122-7221.