18/10/2025 às 15h36min - Atualizada em 18/10/2025 às 16h15min

O Brasil Pode Mais!

Por Paulo Francisco Monteiro Galvão Júnior (*)

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Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

Paulo Galvão Júnior - jornalnorthnews.com
Fonte: Instituto de Inteligência Econômica.

Estimados leitores lusófonos do Portal North News, venho acompanhando, a partir da terra de Celso Monteiro Furtado (1920-2004), as ações do Instituto de Inteligência Econômica (IIE), em São Paulo. Concordo plenamente que o Brasil tem plenas condições de deixar de ser, majoritariamente, um exportador de commodities agrícolas, minerais e energéticas, e passar a agregar mais valor aos seus produtos nas exportações para o resto do mundo.

Think Tank criado na capital paulista, em 1 de maio de 2025, o IIE nasceu com o lema “O Brasil Pode Mais!” e vem apontando caminhos para a construção de segmentos econômicos estratégicos e a criação de ambientes favoráveis à inovação, capazes de impulsionar de forma consistente o crescimento econômico do maior e mais populoso país sul-americano. Um exemplo dessa visão estratégica é o reposicionamento do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) como plataforma eficaz de exportações globais.

É hora de apoiar de forma decisiva o Acordo de Livre Comércio entre o MERCOSUL e o Canadá. Já publiquei diversos artigos nesta coluna digital de Economia, diretamente de Toronto, a cidade mais rica e populosa do Canadá, defendendo a importância estratégica desse acordo de livre comércio (free trade), especialmente no contexto da guerra comercial (war trade) em curso com os Estados Unidos da América (EUA).

Em 2024, aproximadamente 50% das exportações brasileiras foram compostas por produtos primários, de baixo valor agregado. Essa dependência excessiva de matérias-primas nos torna vulneráveis às volatilidades e oscilações do mercado internacional. O momento, portanto, é oportuno para promover mudanças estruturais e estratégicas.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil é líder mundial nas exportações de diversos produtos: suco de laranja (74%), soja (59%), açúcar (56%), carne de frango (36%), carne bovina (31%), café (31%), fumo (31%), celulose (29%) e algodão (28%). Apesar da expressiva participação global, essas exportações do agronegócio brasileiro possuem baixo valor agregado.

O Brasil é um dos maiores exportadores de minérios do mundo, sendo um ator estratégico no setor de mineração global. O país possui riqueza mineral abundante e os dez principais minérios que o Brasil exporta em grande escala são: minério de ferro, nióbio, bauxita, manganês, ouro, quartzo, níquel, estanho, urânio e lítio.

O Brasil figura entre os dez principais exportadores globais de commodities energéticas, destacando-se na exportação de petróleo, etanol (derivado da cana-de-açúcar), carvão mineral e outros biocombustíveis, como o biodiesel. A diversificação da matriz energética brasileira confere ao país um papel estratégico no mercado internacional de energia.

Outros países emergentes demonstraram ser possível mudar esse cenário. O Vietnã, por exemplo, transformou-se, em poucas décadas, em um dos maiores exportadores de eletrônicos do mundo. Desde 1986, o país adotou uma agenda de renovação econômica, conhecida como Doi Moi, marcada pela abertura comercial e pela atração de investimentos estrangeiros diretos (IEDs). Essa estratégia impulsionou a industrialização, a modernização tecnológica e a integração do país às cadeias globais.

Embora o Vietnã e o Brasil tenham trajetórias distintas, o modelo vietnamita de sucesso nas exportações de produtos industrializados se apoia em três pilares fundamentais: i) planejamento consistente de médio e longo prazo; ii) comunicação de alto padrão; e iii) estratégias sólidas de branding.

Mas, o que é branding? O termo branding é o conjunto de estratégias e ações voltadas à construção, fortalecimento e gestão de uma marca, seja ela de um produto, serviço, empresa, pessoa ou até mesmo de um país. Vai muito além de logotipo e publicidade, trata-se de criar uma identidade forte, confiável e reconhecida, que agregue valor.

Embora o Vietnã seja uma economia socialista de mercado e tenha iniciado como uma economia voltada à produção terceirizada de baixo custo (especialmente em eletrônicos, celulares, vestuário e calçados para grandes marcas globais, como Samsung, LG, Nokia, Apple, Nike, Adidas e Puma), o país membro da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) tem investido fortemente na criação de marcas próprias a nível internacional.

Exemplos de branding no Vietnã, como a VinFast, uma montadora vietnamita de automóveis e motos elétricas, com sede em Hanói, que busca se posicionar como uma marca global no setor de veículos sustentáveis. Suas ações de branding incluem investimento em design europeu, participação em feiras internacionais (como o Salão de Paris), marketing global e construção de uma identidade associada à inovação e sustentabilidade.

A Vietnam Airlines, também com sede em Hanói, trabalha ativamente sua marca como sinônimo de qualidade, modernidade e segurança em voos aéreos nacionais e internacionais, conectando esses atributos a valores culturais vietnamitas.

Marcas de café vietnamita como Trung Nguyên, com sede na Cidade de Ho Chi Minh, vem trilhando um caminho semelhante à marca de café premium da Colômbia, a Juan Valdez. A Trung Nguyên está posicionando o café vietnamita como premium, o melhor café, reforçando sua identidade para disputar mercados internacionais mais exigentes.

Branding nacional, como o selo Made in Vietnam, tem sido promovido por meio de políticas públicas que valorizam a qualidade e a inovação. O governo vietnamita desenvolve campanhas para fortalecer a percepção internacional de que o país não é apenas um polo de produção terceirizada, mas um produtor de marcas competitivas.

Portanto, sim, o Vietnã tem branding e está cada vez mais consciente da sua importância como ferramenta estratégica de desenvolvimento sustentável em pleno século XXI. O país do Sudeste Asiático já não quer ser apenas "a fábrica dos outros", mas sim dono de marcas globais que geram mais valor econômico, reputação e protagonismo internacional.

Recentemente, entrevistei no meu programa Economia em Alta, transmitido pela rádio web Alta Potência, com sede na capital paraibana, o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Vietnã, o empresário Victor Key, em São Paulo. Durante a conversa online, destacamos os dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) referentes ao ano de 2024, que permitem uma comparação entre os fluxos comerciais do Vietnã, o Novo Tigre Asiático, e do Brasil, um país membro do MERCOSUL, do Grupo dos Vinte (G20) e do BRICS (em inglês, Brazil, Russia, India, China, and South Africa).

Segundo os dados disponíveis da OMC, o Vietnã registrou, em 2024, exportações totais de US$ 405,5 bilhões e importações na ordem de US$ 380,8 bilhões, resultando em um superávit comercial de US$ 24,7 bilhões. O Brasil, por sua vez, alcançou exportações de US$ 337,0 bilhões e importações de US$ 262,5 bilhões, com um superávit comercial da ordem de US$ 74,5 bilhões no ano de 2024.

Apesar de o superávit brasileiro ser bem maior do que o vietnamita em 2024, o dado que chama atenção é o volume total exportado, o Vietnã, com um território um pouco maior do que o estado de São Paulo, exportou US$ 68,5 bilhões a mais do que o Brasil, um país de dimensões continentais. Esse contraste revela muito sobre o modelo industrial exportador vietnamita e serve como alerta para a urgente necessidade de o Brasil ampliar sua pauta de produtos com maior valor agregado no comércio exterior.

Todavia, o cenário internacional atual é amplamente favorável ao Brasil, o décimo país mais rico do mundo em termos de Produto Interno Bruto (PIB) nominal, com PIB de US$ 2,30 trilhões no segundo trimestre de 2025, e a sétima nação mais populosa do planeta, com 213,4 milhões de habitantes no ano de 2025. O país reúne um conjunto de ativos estratégicos que o posicionam de forma privilegiada na economia global. Detém a maior reserva de água doce superficial do planeta, concentrando 12% da disponibilidade mundial, um recurso cada vez mais valioso diante das crescentes crises hídricas globais.

Além disso, o continental Brasil possui a segunda maior reserva conhecida de terras raras do mundo (23% do total), sendo 17 minerais estratégicos para a produção de tecnologias avançadas, como veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares, baterias, smartphones, microchips, semicondutores e equipamentos de defesa, como aviões, drones, mísseis e submarinos. Essas reservas de terras raras, pouco exploradas, podem colocar o país latino-americano em posição central na transição energética global.

No campo ambiental e energético, o país também se destaca, pois abriga a maior biodiversidade do mundo, conta com uma das matrizes energéticas mais limpas entre as vinte maiores economias do planeta, com 87,8% da eletricidade proveniente de energia limpa, e possui vasto potencial em energia solar, eólica e biomassa.

Outros diferenciais incluem sua posição geopolítica estratégica no Sul Global, a produção agropecuária altamente competitiva e um sólido sistema de pesquisa e inovação, com destaque para instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), referência mundial em ciência aplicada ao setor agropecuário.

No Instituto de Inteligência Econômica (IIE), o atual presidente, é o economista Roberto Luis Troster, e o Comitê de Indústria e Comércio é coordenado pela economista Fernanda Della Rosa, ambos são responsáveis por conduzir as reuniões online e presenciais sobre os desafios e caminhos para ampliar a participação brasileira nas exportações mundiais de produtos industrializados.

Concluindo, a mensagem é clara e apartidária do IIE, com planejamento econômico estruturado, comunicação sofisticada, visão estratégica e integração comercial inteligente, o desigual e tropical Brasil pode transformar commodities em marcas globais, produtos primários em bens de valor agregado e fornecedores em protagonistas no cenário internacional. Em resumo, o lema do IIE ecoa como uma convocação nacional: “O Brasil Pode Mais!”.

Vale destacar também que os EUA, a China, a Alemanha, o Japão, a Índia, o Reino Unido, a França, a Itália, o Canadá e o mundo estão voltando seus olhos para o Brasil. E o Brasil pode mais, especialmente em plena Quarta Revolução Industrial, em que o verdadeiro ouro do século XXI é o conhecimento.

(*) Economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor-secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba e apresentador do programa Economia em Alta, na rádio web Alta Potência, em João Pessoa (PB), Brasil. Autor de 18 e-books de Economia. WhatsApp para entrevistas: +55 (83) 98122-7221.

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