03/11/2025 às 10h58min - Atualizada em 03/11/2025 às 12h46min

Faltam 273 dias para o VII Congresso Internacional do Centro Celso Furtado em João Pessoa

Paulo Francisco Monteiro Galvão Júnior (*)

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Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

Paulo Galvão Júnior - jornalnorthnews.com
Fonte: CICEF.

Estimados leitores lusófonos do Portal North News, entre os dias 3 e 6 de agosto de 2026, a cidade de João Pessoa, no estado da Paraíba (PB), no Brasil, sediará o VII Congresso Internacional do Centro Celso Furtado, com o tema central “Emergência Climática e Transformação Ecológica Justa”.

Hoje é 3 de novembro de 2025, logo, faltam 273 dias para um evento global na capital paraibana, que reunirá especialistas de diversas áreas, como pesquisadores, economistas, ambientalistas, jornalistas, ativistas ambientais, formuladores de políticas públicas e representantes da sociedade civil, com o objetivo de discutir estratégias para um futuro economicamente próspero, socialmente justo e ambientalmente sustentável.

A organização está a cargo do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas Públicas para o Desenvolvimento (CICEF), com apoio da Rede de Macroeconomia Ecológica. A presidência do CICEF é exercida pelo economista Carlos Pinkusfeld Monteiro Bastos, com sede na cidade do Rio de Janeiro.

A crise ambiental que vivenciamos é mundial, sistêmica e multidimensional. O agravamento do aquecimento global, o aumento da frequência de eventos climáticos extremos (secas, enchentes, incêndios, ciclones, tufões e furacões), a perda acelerada da biodiversidade e o colapso de ecossistemas são sintomas de um modelo de desenvolvimento insustentável.

A principal causa global é a emissão desenfreada de gases de efeito estufa (GEE), como dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxidos de nitrogênio (NOx), provenientes, majoritariamente, da queima de combustíveis fósseis.

No entanto, a realidade brasileira apresenta especificidades, como cerca de 60% das emissões nacionais de GEE provêm do desmatamento e das mudanças no uso do solo, em especial na Amazônia Legal. A pecuária extensiva, com grande emissão de metano, é outro fator relevante. Apenas 16% das emissões brasileiras estão ligadas à queima de combustíveis fósseis, valor consideravelmente abaixo da média mundial.

Isso evidencia que a transformação ecológica no Brasil deve priorizar o combate ao desmatamento, o reflorestamento, a transição agroecológica e o fortalecimento de economias sustentáveis nas florestas.

A cidade de João Pessoa é reconhecida por sua excelente qualidade do ar, sendo um exemplo positivo entre as capitais brasileiras. Durante o congresso internacional, os palestrantes e participantes terão a oportunidade de discutir soluções enquanto respiram um ar mais limpo, um privilégio raro em muitas cidades do mundo.

O evento global contará com grupos de trabalhos (GTs) para apresentações de trabalhos de pesquisa. É preciso revelar também que a emergência climática exige ação coordenada e responsabilidade diferenciada, de acordo com os princípios da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC).

Uma transformação ecológica justa deve articular, de forma equilibrada, os objetivos ambientais, sociais e econômicos, reconhecendo as desigualdades históricas e os diferentes níveis de responsabilidade entre as nações e os grupos sociais. Seus principais elementos-chave incluem a redução das emissões de GEE de maneira compatível com a justiça climática e a equidade histórica, assegurando que os países e populações mais vulneráveis não sejam penalizados por uma crise que ajudaram menos a causar.

Outro pilar essencial consiste na promoção de investimentos sustentáveis em energias renováveis, como solar, eólica e biomassa, bem como em infraestruturas verdes e azuis, voltadas à restauração de ecossistemas terrestres e aquáticos, à mobilidade sustentável e à eficiência energética. Tais ações devem fomentar novos empregos verdes e uma economia de baixo carbono, capaz de promover o desenvolvimento sustentável.

A proteção dos povos indígenas e das comunidades tradicionais é igualmente indispensável, pois esses grupos desempenham papel central na conservação da biodiversidade e na gestão sustentável dos territórios. Reconhecer e fortalecer seus direitos territoriais, culturais e políticos é condição fundamental para qualquer projeto ecológico que se pretenda justo e inclusivo.

Outro componente estratégico é a Educação Ambiental crítica e emancipadora, voltada à formação de cidadãos conscientes e participativos. A participação democrática nas decisões sobre políticas climáticas e ambientais assegura que a transição ecológica ocorra com transparência, legitimidade e corresponsabilidade social, evitando a reprodução de desigualdades.

É imprescindível garantir mecanismos de financiamento climático internacional que sejam transparentes, acessíveis e equitativos, especialmente para os países do Sul Global. O acesso justo a recursos financeiros e tecnológicos é vital para que essas nações possam implementar estratégias de mitigação e adaptação climática sem comprometer seus direitos ao desenvolvimento sustentável.

Assim, a transformação ecológica justa não se resume à mudança tecnológica ou energética: trata-se de uma mudança civilizatória, que busca harmonizar a relação entre humanidade e natureza, promover justiça social e assegurar a continuidade da vida em condições dignas para as presentes e futuras gerações.

Os países em desenvolvimento, especialmente da Ásia, lideram os níveis de poluição atmosférica, devido à alta urbanização, uso intensivo de carvão e regulação ambiental insuficiente.

Vale destacar que Bangladesh (173), Paquistão (162) e Índia (148) registram índices alarmantes, com níveis de AQI (Air Quality Index) muito acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o AQI acima de 100 e até 150 já é considerado insalubre para grupos sensíveis como crianças, idosos e asmáticos.

O Brasil, com índice 89, ainda está em uma zona de alerta, embora um pouco acima, como Emirados Árabes Unidos (83) e Tailândia (81), segundo o AQI World Report 2024.

Países desenvolvidos como Alemanha (47) e Estados Unidos (61) têm índices mais baixos, mas seu impacto histórico acumulado de emissões e o consumo per capita elevado permanecem problemáticos do ponto de vista climático.

Segundo a Organização Nações Unidas (ONU), cerca de 7 milhões de pessoas morrem prematuramente por ano devido à poluição do ar, tornando-a o maior risco ambiental à saúde humana.

A cidade de Byrnihat, na Índia, é atualmente a mais poluída do planeta, com uma concentração média anual de partículas finas de 128,2 µg/m³, segundo a AQI World Report 2024. A cidade de São Paulo, no Brasil, é atualmente a cidade brasileira com a maior poluição do ar, com concentração média anual de partículas finas de 66,0 µg/m³.

A China lidera em emissões absolutas de GEE, dada sua grande produção industrial, mundialmente conhecida como a “fábrica do mundo”. Já os EUA têm as maiores emissões de GEE per capita, reflexo de um padrão de consumo altamente energético.

O Brasil, embora esteja entre os dez maiores emissores globais de GEE, tem perfil distinto, com forte peso das atividades agropecuárias e do desmatamento das florestas. O Brasil é um dos países membros do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), do Grupo dos Vinte (G20) e do BRICS (Brazil, Russia, India, China, and South Africa).

A concentração atmosférica de CO₂ atingiu em 2024 o recorde de 424 partes por milhão (PPM), de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), ultrapassando amplamente o nível seguro de 350 PPM recomendado por cientistas.

O economista paraibano Celso Monteiro Furtado (1920-2004) antecipou, décadas atrás, discussões que hoje são centrais à Economia Ecológica. Em obras como “O Mito do Desenvolvimento Econômico” (1974), ele questionava o modelo de crescimento econômico baseado na exploração desenfreada dos recursos naturais e na concentração de riqueza.

Celso Furtado (1998, p. 88) afirmava que: “(...) a ideia de que os povos pobres podem algum dia desfrutar das formas de vida dos atuais povos ricos – é simplesmente irrealizável”. O pensamento de Celso Furtado sobre os problemas ambientais é de enorme relevância e atualidade, pois ele foi um dos primeiros economistas latino-americanos a compreender que a questão ecológica está profundamente ligada à questão social e ao modelo de desenvolvimento econômico adotado pelos países periféricos, como o Brasil, Argentina, Chile e México.

Para Furtado, o chamado “desenvolvimento econômico” promovido nos moldes capitalistas tradicionais não representava verdadeiro progresso, mas sim um processo de modernização concentradora e destrutiva, tanto do ponto de vista social quanto ambiental.

Furtado via o crescimento econômico baseado na industrialização e no consumo de massa, típico dos países centrais, como insustentável e inviável de ser universalizado. Ele argumentava que, se todos os países seguissem o mesmo padrão de produção e consumo das nações ricas, o planeta não teria condições ecológicas de suportar tamanha pressão sobre os recursos naturais. Assim, denunciava a ilusão do crescimento ilimitado, chamando-o de “mito”, pois ignorava os limites físicos da natureza, a ideia da visão internacional, a prevalência do capital humano e a desigualdade na apropriação de recursos naturais e financeiros.

De acordo com Celso Furtado, um dos principais intérpretes do Brasil, o verdadeiro desenvolvimento não se restringe ao aumento do Produto Interno Bruto (PIB). Ele deveria ser entendido como um processo de expansão das potencialidades humanas, que respeitasse as condições ecológicas locais e valorizasse os saberes tradicionais e as formas de vida sustentáveis das populações. Essa visão antecipa o conceito moderno de desenvolvimento sustentável, embora Furtado fosse mais crítico ao capitalismo selvagem do que o discurso dominante da sustentabilidade nos anos 1990.

Passados mais de 50 anos da publicação da obra “O Mito do Desenvolvimento Econômico, Furtado (1998, p. 57) afirmava que: “(...) não há dúvida alguma de toda a nossa civilização é predatória, que ela vive de destruir o planeta. Se deixarmos que continuem o atual processo civilizatório, o planeta se destrói”.

Outro aspecto central do pensamento de Furtado é sua análise estrutural da dependência econômica. Ele mostrava que os países periféricos, como o Brasil e outros da América Latina eram levados a explorar intensivamente seus recursos naturais para atender à demanda dos países centrais, como os Estados Unidos, exportando matérias-primas baratas e importando produtos industrializados. Esse mecanismo de dependência resultava em subdesenvolvimento e destruição ambiental, pois consolidava uma economia baseada na exploração e na exaustão dos ecossistemas.

Furtado propunha uma reorientação radical do desenvolvimento, baseada em planejamento ecológico e racional do uso dos recursos naturais, evitando o desperdício e a degradação dos ecossistemas. Pregava a descentralização econômica, fortalecendo economias regionais e comunitárias. Apontava a redução das desigualdades sociais, como condição essencial para uma relação mais equilibrada com o meio ambiente. E Furtado defendia a autonomia cultural e econômica para romper com a lógica dos padrões de consumo dos países ricos.

No contexto atual, marcado por mudanças climáticas, crises energéticas e colapso da biodiversidade, as ideias de Celso Furtado ganham nova força. Sua visão antecipa as discussões sobre transição ecológica justa e economia solidária. Ele nos lembra que não há saída ambiental possível sem enfrentar as estruturas de desigualdade e dependência que sustentam o modelo capitalista global.

Em síntese, Furtado foi um dos pioneiros em articular economia, sociedade e ecologia sob uma perspectiva crítica e latino-americana. Seu pensamento continua a inspirar reflexões sobre como construir um modelo de desenvolvimento que seja ambientalmente sustentável, socialmente justo e culturalmente enraizado, um verdadeiro projeto civilizatório alternativo ao padrão de destruição vigente.

Hoje, convidamos todos os economistas da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), residentes no Canadá e demais profissionais interessados em mudanças climáticas, a participarem do VII Congresso Internacional do Centro Celso Furtado, em João Pessoa, de 3 a 6 de agosto de 2026.

Na terra onde o Sol nasce primeiro nas Américas, esperamos reencontrar economistas brasileiros, entre eles o economista e ativista ambiental paulista Marcus Eduardo de Oliveira, reconhecido nacional e internacionalmente pelo excelente trabalho em defesa das causas ambientais e por suas reflexões consistentes sobre o tema. Em recente artigo “Estamos jogando roleta russa com o planeta” publicado no site do Conselho Federal de Economia (COFECON), ele escreveu:

“Em momento raro, parece lícito imaginar que, a partir de um novo modelo econômico, cetro de racionalidade bem equilibrada, só teremos possibilidade de alcançar o sucesso civilizacional completo se forem ampliadas nossas mais gritantes carências: a cobertura social e a saúde ambiental, diminuindo sobremaneira os extremos da maldosa e desleal desigualdade econômica, que não cessa de aumentar em várias partes do mundo”.

Vale ressaltar que no I Congresso Internacional Celso Furtado, em 16 de agosto de 2012, realizado no Rio de Janeiro, o economista polonês Ignacy Sachs proferiu uma relevante palestra intitulada Rumo a um Novo Contrato Social para um Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável. Nascido na cidade polonesa de Varsóvia, em 17 de dezembro de 1927, Sachs é reconhecido internacionalmente por sua contribuição teórica ao conceito de ecodesenvolvimento, que integra as dimensões econômica, social e ambiental do desenvolvimento.

Em sua exposição, o saudoso Sachs (morreu em 2 de agosto de 2023, em Paris) destacou a urgência de repensar o modelo civilizatório vigente, defendendo a construção de um novo contrato social global, baseado na solidariedade entre as nações, na redução das desigualdades e na responsabilidade compartilhada pela preservação do planeta Terra. Sua proposta reforça a necessidade de cooperações econômicas para articular crescimento econômico com inclusão social e sustentabilidade ecológica, princípios que dialogam profundamente com o legado intelectual de Celso Furtado e sua visão de um desenvolvimento voltado ao bem-estar coletivo e à valorização da diversidade cultural e ambiental.

É preciso destacar que no II Congresso Internacional Celso Furtado, no Rio de Janeiro, ocorreu no ano de 2014, com uma relevante palestrante do economista colombiano José Antonio Ocampo (nascido em 20 de dezembro de 1952, na cidade colombiana de Cali), um dos mais importantes economistas latino-americanos contemporâneos. Foi ministro da Fazenda da Colômbia, secretário-executivo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e professor da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Sua obra dá continuidade e atualização ao pensamento estruturalista inaugurado pelo economista argentino Raúl Prebisch e com forte colaboração de Celso Furtado.

Concluindo, a transição para uma nova matriz energética global é desafiadora, mas essencial. Ao meu ver, uma Economia Ecológica é não apenas possível, é urgente. Portanto, Welcome! Bienvenue! Bem-vindo a João Pessoa, em agosto de 2026! Exatamente, 5 de agosto, João Pessoa completará 441 anos de fundação.

(*) Paulo Francisco Monteiro Galvão Júnior é economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor-secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência. WhatsApp: +55 (83) 98122-7221.

Site oficial do VII Congresso Internacional do Centro Celso Furtado: https://www.congresso2026.centrocelsofurtado.org.br/.

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