26/11/2025 às 22h00min - Atualizada em 26/11/2025 às 23h42min

Retornar a UFCG após 36 anos da Queda do Muro de Berlim e 35 anos do Plano Collor

Por Paulo Galvão Júnior (*)

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Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

Paulo Galvão Júnior - jornalnorthnews.com
Fonte: Ariana Ellens da S. Bezerra, aluna de Economia da UFCG.

Considerações iniciais

Algumas datas permanecem gravadas na memória não apenas pela sua relevância histórica, mas pela forma como atravessam nossas vidas. Em 9 de novembro de 1989, quando o Muro de Berlim caiu, o mundo inaugurou uma nova era. Naquela mesma data, eu estava em Campina Grande, iniciando meus primeiros passos no Curso de Graduação em Ciências Econômicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), no Campus II.

Hoje, 26 de novembro de 2025, 36 anos depois daquele marco global, retorno ao mesmo curso, agora, no Campus I, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), para participar da Recepção aos Feras, na sala BZ 104, durante a V Mostra Acadêmica, desta vez como conselheiro efetivo do Conselho Regional de Economia da Paraíba (CORECON-PB).

Entre aquela matrícula cheia de sonhos na UFPB e este reencontro na UFCG, existe outra data que jamais esquecerei em minha vida. Sim, 15 de março de 1990, quando o Plano Collor foi anunciado e colidiu frontalmente com a vida de milhões de brasileiros. Trinta e cinco anos se passaram desde o pior plano econômico do Brasil, que interrompeu minha trajetória universitária em Campina Grande e redesenhou caminhos que eu jamais havia imaginado trilhar. Voltar agora, depois de três décadas e cinco anos, é mais do que um gesto de memória, é um testemunho de resiliência.

A primeira matrícula no Campus II da UFPB em plena Queda do Muro de Berlim

Minha matrícula no Curso de Graduação em Economia, diurno, representava uma promessa concreta. Nos corredores do então Campus II da UFPB, debates fervilhavam; inquietações se misturavam a projetos arrojados. Havia entusiasmo, mas também uma sensação clara de que estávamos estudando num mundo em plena transformação socioeconômica e política.

Na época estavámos nos afastando do fantasma da Guerra Fria. A Queda do Muro de Berlim estava presente nas salas de aula, nos jornais e nas conversas após as aulas de Introdução à Economia à tarde. Estudar Economia, naquele momento, era quase um privilégio histórico.

Jamais esquecerei a Perestroika, de Mikhail Gorbachev (1931-2022), último líder da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que inspirou o nome da chapa nas eleições do Centro Acadêmico (CA) do curso. Nossa chapa usava como símbolo um bonequinho careca e sorridente (tipo “Cebolinha”), com uma picareta derrubando um muro, e o slogan: “Perestroika – Chapa 2 – Vote!” no Centro Acadêmico de Economia (CAECO). Eu me candidatei a secretário de esportes, porque adorava jogar basquete e voleibol no ginásio do Campus II.

Fomos derrotados pela Chapa 1, vinculada a temas mais ligados à teoria marxista. A URSS (1917-1991) só viria a se dissolver em 25 de dezembro de 1991, quando eu já estava de volta à capital paraibana, ao Campus I da UFPB.

Hoje, temos o CAECO Celso Furtado, da UFCG, cujo presidente atual é o aluno Jessé Gomes Araújo, da chapa Inovação e Desenvolvimento. E atual vice-presidente, é a aluna Hortência de Lima Frazão. O presidente Jessé Gomes foi um dos primeiros a usar a palavra e na sua fala ressaltou as parcerias com o CORECON-PB.

Recentemente, a monografia da UFCG conquistou o 1º lugar no Prêmio Paraíba de Economia Professor Celso Furtado 2025, do CORECON-PB, com a monografia de Lucas Vitor Andrade, que analisa "A cadeia de valor do algodão sustentável na Paraíba", cujo orientador foi o Professor Dr. Vinícius Rodrigues Vieira Fernandes. Neste momento foi muito aplaudido pelos quase 40 participantes, entre alunos iniciantes, alunos do P2 ao P8 presentes, como também, pelo professores presentes da UFCG, liderados pela coordenadora Allyne de Almeida Ferreira.

O presidente Celso Mangueira, do CORECON-PB, realizou uma relevante apresentação com mais de 90 slides para uma platéia composta em sua maioria, por alunos novatos, estudantes iniciantes do Curso de Graduação em Economia da UFCG. Além de destacar a  apresentação do ex-aluno da UFCG e conselheiro eleito pelo CORECON-PB, o economista Marcílio Sousa.

O impacto devastador do Plano Collor depois de 35 anos

Se 1989 foi o ano da abertura, 1990 acabou sendo para mim um ano de fechamento. O Plano Collor, uma das medidas econômicas mais drásticas já adotadas no Brasil, confiscou poupanças, reduziu a renda familiar, paralisou negócios, mudou a moeda de cruzado novo para cruzeiro e desorganizou a vida de muitas empresas, de muitas famílias. A minha família também foi profundamente atingida. As condições financeiras para permanecer na universidade, em Campina Grande, desapareceram rapidamente.

Deixar o curso não foi uma opção voluntária; tornou-se uma necessidade. Tive que retornar para casa, em Manaíra, João Pessoa, no Campus I da UFPB. A dor de ver um sonho acadêmico interrompido por um choque econômico nacional é algo difícil de transmitir em palavras. Naquele momento, senti que se erguia sobre mim um muro invisível, não de concreto, como o de Berlim, mas de ordem econômica, igualmente impiedoso.

O retorno à UFCG como conselheiro efetivo do CORECON-PB

Todos nós já fomos um dia um aluno iniciante. Agora, 35 anos depois do Plano Collor, como também, do Plano Collor II, em janeiro de 1991, retorno à UFCG para a Recepção aos Feras do Curso de Ciências Econômicas, desta vez como conselheiro do CORECON-PB. Trago comigo a maturidade que o tempo proporcionou, a serenidade que as crises econômicas ensinaram e a emoção tranquila de quem reconhece a importância decisiva da renomada instituição de ensino superior em sua formação intelectual e humana.

Falar e conhecer os novos estudantes de Economia, no Campus I, no dia 26 de novembro de 2025, representa um privilégio simbólico, é reencontrar o jovem que fui e oferecer a ele, e a cada fera da UFCG de hoje, a certeza de que o conhecimento é o ouro do século XXI, é a ferramenta mais poderosa para atravessar momentos de turbulência, de crises econômicas.

No Brasil, em 26 de novembro de 1930, o então presidente Getúlio Vargas (1882-1954) assinou o decreto que instituiu o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. Esse marco político-econômico é significativo porque integrou o amplo processo de reorganização institucional promovido pelo novo governo após a Revolução de 1930. A criação do ministério representou um passo decisivo na estruturação das políticas trabalhistas e sociais no país, muitas das quais influenciam a legislação e a proteção ao trabalhador até hoje.

Ao mesmo tempo, ao incorporar a área de Indústria, o novo ministério passou a desempenhar papel estratégico na formulação e coordenação de políticas voltadas à industrialização brasileira, contribuindo para a consolidação do modelo de desenvolvimento nacional que se estenderia pelas décadas seguintes, sobretudo até 1985, com o início da desindustrialização da economia brasileira.

O que é Economia?

Segundo o economista inglês Alfred Marshall, “a Economia é um estudo da humanidade nos negócios comuns da vida” (Apud KRUGMAN; WELLS, 2007, p. 1). Ao viajarmos metaforicamente pelo tempo, podemos observar diferentes formas de organização econômica, como a economia de mercado, a economia centralizada, a economia mista, e a economia socialista de mercado, bem como identificar as quatro fases clássicas do ciclo econômico, como a prosperidade, a recessão, a depressão e a recuperação.

De acordo com os economistas norte-americanos Paul Krugman e Robin Wells, “durante uma recessão grave, milhões de trabalhadores perdem o emprego” (KRUGMAN; WELLS, 2007, p. 3). Esse fenômeno se torna ainda mais relevante quando analisado no contexto atual da Quarta Revolução Industrial (a partir de 2011 até o presente momento), que sucede a Primeira Revolução Industrial (1760-1840), a Segunda Revolução Industrial (1870-1914), e a Terceira Revolução Industrial (1950-2000).

Hoje vivemos em um ambiente marcado pela elevada integração entre tecnologia digital, automação, robótica e inteligência artificial (IA), com características fundamentais da Quarta Revolução Industrial, com o termo popularizado no Fórum Econômico Mundial de 2016, em Davos, na Suíça.

Da mesma forma, a evolução histórica do capitalismo revela transformações profundas, que nos conduziram ao Capitalismo Mercantil (1500-1776), o Capitalismo Industrial (1776-1945), o Capitalismo Financeiro (1945-1990), e culminando no Capitalismo Informacional (a partir de 1990 até os dias atuais), marcado pela centralidade da informação, das redes digitais e do conhecimento como principal força produtiva.

Portanto, a Economia é a ciência social que estuda como indivíduos, empresas e governos tomam decisões diante da escassez de recursos, buscando alocar esses recursos escassos de forma eficiente para atender às necessidades ilimitadas e os desejos infinitos da sociedade.

Os quatro maiores desafios da economia mundial na atualidade

Agora, muita atenção os feras do Campus I, da UFCG, especialmente de Economia, no Centro de Humanidades (CH), noturno. Com base nas mais recentes tendências e projeções econômicas, destaco quatro desafios para a economia global na atualidade.

Crescimento global lento. O Banco Mundial revisou para 2,3% a previsão de crescimento global para 2025. Essa desaceleração reflete tensões comerciais, incerteza regulatória e maiores riscos para o padrão de vida global. A média de crescimento projetada nos primeiros anos da década de 2020 é a mais baixa desde a década de 1960.

Tensões geopolíticas provocam disputas tecnológicas, barreiras comerciais e reconfiguração das cadeias produtivas globais, criando incertezas para comércio internacional e investimento externo direto (IED). A competição entre as economias avançadas e as economias emergentes pode aumentar o custo de produção global.

A crise climática já provoca choques de oferta em várias nações, afetando produção agrícola, energia e infraestrutura. A transição para fontes limpas exige grandes investimentos, o que pressiona as contas públicas e privadas, especialmente em países com recursos limitados.

Desigualdade tecnológica e a rápida adoção da IA podem aprofundar as diferenças entre países que têm infraestrutura tecnológica sofisticada e aqueles que não têm. Há riscos geopolíticos na soberania digital, com nações que dominam tecnologias avançadas podem reforçar posições de poder, enquanto outras ficam marginalizadas.

Os quatro maiores desafios da economia brasileira na atualidade

Os feras da Unidade Acadêmica de Economia e Finanças (UAEF), no CH, noturno, com dez períodos para o Brasil, os quatro maiores desafios, são estruturais tradicionais que combinam com tensões emergentes nos dias atuais.

Crescimento econômico fraco. O Banco Mundial projeta que o PIB brasileiro crescerá 2,4% em 2025. Já o Relatório Focus do Banco Central do Brasil (BACEN) as projeções não são otimistas para 2026, com taxa de crescimento econômico de 1,78%, muita baixa para sustentar grandes saltos em emprego formal ou investimentos produtivos sem reformas profundas.

Instabilidade fiscal. O Brasil enfrenta grande desafio para equilibrar suas contas, porque precisa manter políticas sociais e, ao mesmo tempo, garantir a sustentabilidade da dívida pública. A elevação da dívida pública bruta aumenta o risco de subida de juros e torna a gestão orçamentária mais complexa.

Desigualdade social e regional persistente. A disparidade de renda entre as cinco regiões do Brasil continua alta, dificultando a coesão social e a mobilidade social. Isso limita o crescimento econômico e continua não ser igualmente distribuído. Lembrando que o Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, com 21,0 milhões de toneladas métricas.

Vulnerabilidade climática. Eventos climáticos extremos, como secas prolongadas, enchentes, tornados, chuvas de granizo, incêndios florestais, já pressionam a produção agropecuária, setor-chave para a economia brasileira. A adaptação climática exige investimentos elevados tanto públicos quanto privados para proteger as safras, garantir infraestrutura e mitigar riscos.

Considerações finais

Concluindo, retornar à UFCG, 36 anos após a Queda do Muro de Berlim e 35 anos depois do Plano Collor, representa para mim uma síntese de memória, gratidão e alegria. Se minha trajetória acadêmica foi interrompida bruscamente, hoje posso reencontrar a instituição de ensino superior com renovada maturidade, propósito e esperança por dias melhores.

Que os feras da UFCG que chegam agora possam vivenciar integralmente aquilo que, por circunstâncias adversas, minha geração não conseguiu completar. Que estudem com ousadia, questionem com profundidade e sonhem com o Brasil ingressando na seleta lista dos países desenvolvidos e continentais, como o Canadá, os Estados Unidos e a Austrália.

Que os feras da UFCG compreendam, desde cedo, que a Economia é antes de tudo uma ciência social a serviço das pessoas, das famílias, das empresas, das cooperativas, dos governos e dos investidores. Portanto, a UFPB, com seus 70 anos de fundação, com atual reitora Terezinha Domiciano, e a UFCG, com seus 23 anos, com o atual reitor Camilo Farias, representam marcos da universidade pública federal na Paraíba, terra de Celso Monteiro Furtado (1920-2004), o maior economista brasileiro de todos os tempos.

Recentemente, o reitor da UFCG, professor Camilo Farias, participou como palestrante do Fórum de Reitores do BRICS+, realizado de 5 a 7 de junho de 2025, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. O evento reuniu lideranças acadêmicas para discutir estratégias de integração educacional, inovação e desenvolvimento científico entre as dez nações integrantes do grupo econômico do Sul Global.

Por fim, para os futuros profissionais formados pela UFCG, em especial da área de Economia, ampliam-se as perspectivas de atuação internacional, especialmente nos dez países membros plenos do BRICS, como Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos (EAU) e Indonésia.

Enfim, desejar boas vindas aos alunos iniciantes do Curso de Graduação em Ciências Econômicas na UFCG. Foi uma noite inesquecível! Parabéns a UFCG! Parabéns ao CAECO Celso Furtado! Parabéns a Empresa Jr. Balaio 512! Parabéns ao CORECON-PB!

(*) Economista paraibano (CORECON-PB 1392), conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor-secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, apresentador do programa Economia em Alta (rádio web Alta Potência), autor de 18 e-books de Economia e autor e co-autor de 400 artigos. Ex-aluno iniciante na UFPB (hoje, UFCG) em Campina Grande. WhatsApp para entrevistas e palestras: +55 (83) 98122-7221.

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