11/12/2025 às 06h15min - Atualizada em 11/12/2025 às 08h02min

Juros que sangram o Brasil

Por Paulo Francisco Monteiro Galvão Júnior (*)

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Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

Paulo Galvão Júnior - jornalnorthnews.com
Celso Monteiro Furtado (1920-2004).

Considerações iniciais

Estimados leitores lusófonos do Portal North News, ontem, em Brasília, o Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central do Brasil (BACEN) manteve a taxa Selic em 15,00% ao ano. Em geral, quando a taxa básica de juros se mantém elevada, a atividade econômica desacelera, a inflação tende a cair e o desemprego pode aumentar.

Entendo que o Brasil se caracteriza por um ambiente favorável ao rentismo, pois a persistência de uma política monetária contracionista penaliza o setor produtivo e pressiona severamente o orçamento das famílias.

Nesse contexto econômico, é oportuno revisitar a célebre crítica do economista paraibano Celso Monteiro Furtado (1920-2004). No documentário O Longo Amanhecer – Cinebiografia de Celso Furtado (2004), dirigido por José Mariani, nele Furtado inicia com uma frase que sintetiza sua visão sobre os entraves estruturais do desenvolvimento nacional:

“Eu me pergunto: Quem manda nesse país? Por que se concebem essas taxas de juros de fantasia, que sangram o país? Que deixa margem para um crescimento pequena. É difícil dirigir um país como esse”.

Este artigo busca interpretar essa frase crítica de Celso Furtado, um dos principais pensadores da economia brasileira, analisando seus elementos centrais e sua atualidade para a economia brasileira contemporânea.

“Eu me pergunto: Quem manda nesse país?”

Ao formular essa indagação, Furtado evidencia que as decisões econômicas não decorrem apenas do governo formal, mas de estruturas de poder que se sobrepõem ao interesse público. Trata-se da influência de elites econômicas, grupos financeiros, interesses externos e segmentos do próprio Estado, que moldam políticas essenciais sem representarem necessariamente a maioria da população brasileira.

Esse questionamento revela o diagnóstico furtadiano clássico, ou seja, o Estado brasileiro, frequentemente capturado, opera dentro de uma lógica de subdesenvolvimento na qual decisões estratégicas respondem a interesses restritos. Assim, juros, gastos, investimentos e orientações macroeconômicas são muitas vezes determinados por agentes econômicos que priorizam estabilidade financeira de curto prazo em detrimento do desenvolvimento nacional de longo prazo.

“Por que se concebem essas taxas de juros de fantasia, que sangram o país?”

Furtado critica a tradição brasileira de operar com juros reais muito acima dos padrões internacionais. São “de fantasia” porque não se justificam pelas condições produtivas nem pelas necessidades de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país; tratam-se de juros construídos politicamente, não por imperativos econômicos objetivos.

Seu efeito é profundo, porque drenam recursos públicos via dívida pública interna, encarecem o crédito, sufocam o investimento, reduzem o consumo e limitam a competitividade das empresas. A economia real perde dinamismo enquanto o capital financeiro se beneficia, ampliando desigualdades sociais e reforçando a lógica rentista que marca a estrutura econômica brasileira.

Ao dizer que os juros “sangram o país”, Celso Furtado, um dos principais intérpretes do Brasil, denuncia a transferência contínua de renda da sociedade para o setor financeiro, bloqueando projetos nacionais de industrialização, inovação e inclusão social.

“Que deixa margem para um crescimento pequena”

Para Furtado, juros excessivamente altos criam um encadeamento perverso, com juros altos ocorrem menor investimento, menor produtividade, baixo crescimento e mais desigualdade social.

Assim, o Brasil renuncia sistematicamente ao seu potencial, fica aprisionado em uma trajetória de baixo dinamismo, incapaz de gerar empregos de qualidade e ampliar oportunidades nas cinco regiões do país.

Essa não é uma fatalidade técnica, mas uma escolha política. A economia brasileira, ao priorizar a estabilidade financeira, mantém-se dependente, pouco industrializada e estruturalmente desigual. O baixo crescimento não decorre de limitações naturais, mas de uma arquitetura institucional que restringe o futuro da nação.

“É difícil dirigir um país como esse”

A frase final expressa à frustração de Furtado frente a um Estado constantemente limitado por interesses que se sobrepõem ao bem coletivo. Governar se torna difícil quando políticas monetárias contracionistas prevalecem sobre projetos de desenvolvimento; quando a produção perde espaço para o rentismo; quando a lógica financeira domina o horizonte das decisões públicas.

O problema, para Celso Furtado, um dos maiores economistas brasileiros de todos os tempos, não é técnico, mas político e estrutural, logo, a economia brasileira é organizada de modo a restringir sua própria capacidade de crescer.

Atualidade da frase crítica de Celso Furtado

Décadas após a gravação do relevante documentário do cineasta Mariani, a análise de Celso Furtado permanece impressionantemente atual. O Brasil ainda convive com forte influência de grupos econômicos sobre o Estado; juros nominais e reais entre os mais altos do mundo; prioridade da estabilidade financeira sobre o investimento produtivo; baixa taxa de crescimento e manutenção de desigualdades sociais e regionais.

Hoje, a taxa Selic está em 15,00% ao ano, o que representa seu nível mais alto desde julho de 2006, quando atingiu 15,25% ao ano. Ao manter os juros básicos elevados, o COPOM encarece o crédito, desestimula o investimento produtivo, desincentiva o consumo e desacelera a expansão econômica, porém continua com a sua principal ferramenta para conter a inflação no país e adequada para assegurar a convergência da inflação à meta de 3% em 12 meses, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

Atualmente, com a taxa Selic fixada em 15,00% ao ano, o Brasil possui a quarta maior taxa nominal de juros do mundo, atrás de Turquia (39,50%), Argentina (29,00%) e Rússia (16,50%), segundo levantamento da MoneYou. No ranking de juros reais, ocupa a segunda posição global, com 9,44% (descontado a inflação esperada), ficando atrás apenas da Turquia, com 10,33%.

Os juros elevados produzem efeitos diretos sobre famílias, empresas, cooperativas e demais agentes econômicos. Encarecem todas as modalidades de crédito, restringem investimentos, limitam consumo de bens e serviços e se consolidam como um dos principais entraves ao crescimento do PIB e do PIB per capita, além de desviar recursos públicos para pagamento da dívida pública interna (foram cerca de R$ 840 bilhões em 2024, equivalente a quase 8% do PIB brasileiro).

Os dados recentes dos juros que sangram o Brasil são contundentes: 80,4 milhões de brasileiros negativados (SERASA, outubro/2025); 79,5% das famílias endividadas (CNC, outubro/2025); e 8 milhões de empresas com restrições de crédito (SERASA, setembro/2025).

Portanto, Celso Furtado, um dos maiores economistas latino-americanos de todos os tempos, não criticava apenas uma política monetária restritiva, mas um sistema de decisões econômicas que favorece poucos e sacrifica o desenvolvimento nacional. Sua reflexão revela a contradição fundamental do Brasil, um país latino-americano que almeja crescer, mas adota políticas que bloqueiam esse crescimento econômico robusto.

A taxa de crescimento do PIB brasileiro foi de apenas 0,1% no terceiro trimestre de 2025, segundo o IBGE. A desaceleração da economia brasileira é preocupante. O próximo ano será muito díficil por diversos motivos, entre eles, destacam-se, os juros elevados, a demanda agregada interna fraca, a incerteza no cenário internacional, as eleições presidenciais polarizadas, as mudanças climáticas, e o consumo de bens e serviços das famílias permanecerá reduzido, sobretudo entre aquelas que se encontram endividadas e em situação de inadimplência.

Considerações finais

Finalizando, a célebre frase de Celso Monteiro Furtado no documentário de José Mariani, sintetiza a crítica estruturalista ao modelo econômico brasileiro, pois o poder real frequentemente se sobrepõe ao interesse público; os juros artificialmente elevados drenam recursos públicos e impedem o crescimento econômico; o rentismo ganha prioridade sobre a produção e sobre o bem-estar social; e o país cresce menos do que poderia devido às escolhas econômicas.

Ao interpretar suas palavras, percebe-se que Furtado não apenas descrevia o passado, ele antecipava desafios que ainda persistem no Brasil do século XXI. Sua reflexão continua a iluminar debates essenciais para um país continental e populoso que, embora seja a 11ª maior economia do mundo, insiste em uma política monetária contracionista que limita seu potencial e reforça a lógica do subdesenvolvimento.

Com certeza, os juros sangram o Brasil. Quando a taxa básica de juros permanece excessivamente elevada, poucos se beneficiam e a sociedade como um todo sofre. É hora de defender a redução da taxa Selic, atualmente em 15,00% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas. Juros tão altos impõem consequências negativas amplas, eles encarecem o custo de vida da população, enfraquecem o setor produtivo, dificultam a geração de empregos formais, ampliam a inadimplência e o endividamento das famílias e das empresas e ainda agravam o crescimento da dívida pública federal.

Portanto, trata-se de um remédio muito amargo que compromete o crescimento econômico e a estabilidade social de um país tão rico ao mesmo tempo tão desigual. O Brasil é o quinto mais desigual do mundo, atrás da África do Sul, Colômbia, México e Chile. Os 10% mais ricos detêm 59,1% da renda nacional e ganham 63,5 vezes mais que os 50% mais pobres no Brasil, que ficam com apenas 9,3% da renda nacional, segundo o novo estudo liderado pelo renomado economista francês Thomas Piketty e intitulado Relatório da Desigualdade Global 2026, que analisa a desigualdade de renda em 216 países e territórios em cinco continentes.

É preciso conscientizar que o Brasil tem enorme potencial para ingressar na seleta lista de países desenvolvidos e continentais, como Canadá, Estados Unidos e Austrália. Recentemente, o Banco do Canadá (BoC) manteve sua taxa básica de juros em cerca de 2,25% ao ano, um taxa substancialmente inferior a da brasileira. O Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, reduziu sua taxa de juros para uma faixa de 3,50% a 3,75% ao ano, buscando apoiar a atividade econômica diante de pressões internas e externas, e sobretudo, do enfranquecimento do mercado de trabalho. Já na Austrália, o Reserve Bank of Australia (RBA) manteve a taxa básica de juros em 3,60% ao ano, refletindo um equilíbrio entre inflação e crescimento econômico. Por fim, esses três exemplos internacionais evidenciam que políticas monetárias expansionistas podem coexistir com estabilidade de preços, ao passo que o Brasil, com a taxa Selic em 15,00% ao ano, enfrenta o desafio de compatibilizar controle da inflação com estímulo ao crescimento econômico.

(*) Economista paraibano (CORECON-PB 1392), conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência no bairro da Torre na capital paraibana. WhatsApp para entrevistas e palestras: +55 (83) 98122-7221.

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