26/12/2025 às 07h26min - Atualizada em 26/12/2025 às 09h21min

O CAPITAL HUMANO, SEGUNDO THEODORE W. SCHULTZ

Paulo Galvão Júnior (*) & Daniel Aran (**)

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Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

Paulo Galvão Júnior - jornalnorthnews.com
Obra-prima de Theodore W. Schultz.

O CAPITAL HUMANO, SEGUNDO THEODORE W. SCHULTZ

Paulo Galvão Júnior (*) & Daniel Aran (**)

Resumo

O presente artigo analisa a contribuição teórica de Theodore W. Schultz e sua obra seminal O Capital Humano: Investimentos em Educação e Pesquisa, destacando seu impacto na compreensão do desenvolvimento econômico contemporâneo. Schultz demonstrou que gastos com educação, saúde, treinamento e pesquisa científica devem ser entendidos como investimentos produtivos, e não como simples consumo, pois elevam a produtividade, a renda e o bem-estar social. A partir de uma sólida base empírica e do diálogo com a tradição do pensamento econômico de Adam Smith a autores modernos como Robert Solow e Gary Becker, o autor reposicionou o capital humano como o principal fator de produção nas economias modernas. O texto enfatiza ainda a relevância do exemplo japonês no pós-guerra, evidenciando que o desenvolvimento econômico não depende da abundância de recursos naturais, mas da qualidade do investimento em pessoas. Por fim, discute-se a influência duradoura da obra de Schultz nas políticas públicas de educação, ciência, tecnologia e desenvolvimento rural, ressaltando sua atualidade diante dos desafios da economia do conhecimento, da inovação tecnológica e da competitividade global.

Palavras-chaves: Capital Humano, Investimentos em Educação, Investimentos em Saúde.

1. Considerações Iniciais

Em 1971, o economista agrícola americano Theodore William Schultz (1902-1998), com bacharelado e mestrado em Economia Agrícola pela Universidade do Estado da Dakota do Sul, e doutor em Economia Agrícola pela Universidade de Wisconsin, publicou sua obra-prima O Capital Humano: Investimentos em Educação e Pesquisa, pela Universidade de Chicago, marco intelectual que redefiniu a compreensão do desenvolvimento econômico no século XX.

Schultz dedicou-se a demonstrar que a educação, a saúde, o treinamento e a pesquisa científica não constituem despesas, mas sim, investimentos, capazes de elevar a produtividade, a renda e o bem-estar das nações.

Partindo de evidências empíricas e de uma ampla revisão da História do pensamento econômico, Schultz argumentou que o crescimento moderno não pode ser explicado apenas por capital físico ou recursos naturais. O motor essencial é o conhecimento incorporado nas pessoas.

2. A Tradição Intelectual que Precedeu Schultz

Ao construir sua teoria, Schultz dialogou com alguns dos principais nomes da economia clássica, neoclássica, keynesiana e neokeynesiana, entre eles, o economista escocês Adam Smith (1723-1790), que em A Riqueza das Nações, de 1776, já reconhecia o valor econômico da educação e da qualificação do trabalhador.

Johann Heinrich von Thünen (1783-1850), pioneiro ao considerar o capital humano como fator que aumenta o rendimento da mão de obra. Irving Fisher (1867-1947), importante por relacionar investimentos educacionais à teoria intertemporal do capital.

O economista inglês Alfred Marshall (1842-1924), cuja frase: “O conhecimento é o motor mais potente de produção, que nos permite dominar a natureza e satisfazer os nossos desejos”, tornou-se uma síntese visionária do tema. Já Frank Knight (1885-1972), professor de Schultz e referência central da Escola de Chicago, nos Estados Unidos da América (EUA).

Paul Samuelson (1915-2009) e Robert Solow (1924-2023), expoentes da macroeconomia moderna e do crescimento econômico. Gary Becker (1930-2014), que posteriormente aprofundaria e sistematizaria a Teoria do Capital Humano, recebendo o Prêmio Nobel de Economia em 1992.

Vários economistas como David Ricardo (1772-1823), John Stuart Mill (1806-1873), Karl Marx (1818-1883), John Bates Clark (1847-1938), Arthur Cecil Pigou (1877-1959), Simon Kuznets (1901-1985), Joan Robinson (1903-1983) e John Hicks (1904-1989) contribuíram de forma significativa ao entendimento de temas centrais da economia, incluindo trabalho, produtividade, tecnologia, distribuição de renda e desenvolvimento econômico.

Schultz, portanto, não inventou o conceito, mas sistematizou, quantificou e colocou o capital humano no centro das políticas públicas de desenvolvimento econômico. Schultz influenciou e continua influenciando gerações de economistas com seus pensamentos sobre o papel do capital humano no desenvolvimento econômico.

O economista norte-americano Theodore William Schultz foi laureado com o Prêmio Nobel de Economia de 1979, juntamente com William Arthur Lewis (1915-1991), “por suas pesquisas pioneiras sobre o desenvolvimento econômico, com especial consideração aos problemas dos países em desenvolvimento”.

3. A Tese Central de Schultz

Segundo Schultz, o então professor da disciplina Economia da Educação, no Departamento de Economia da Universidade de Chicago, a educação torna as pessoas produtivas e a boa atenção à saúde aumenta o retorno social do investimento em educação. A argumentação principal de Schultz pode ser sintetizada em quatro pontos.

Educação é investimento, não consumo. Para Schultz a instrução formal, o treinamento técnico, a capacitação agrícola, as pesquisas científicas e o aprendizado no trabalho aumentam a produtividade dos indivíduos e ampliam o crescimento econômico.

O retorno econômico da educação é mensurável. Schultz demonstrou, com evidências, que trabalhadores mais qualificados geram maior renda ao longo da vida, e que países que investem em educação elevam sua taxa de crescimento econômico sustentado.

Conhecimento é o principal fator de produção em economias modernas. Schultz em oposição à visão clássica dos recursos naturais, ele enfatizou o capital humano como elemento decisivo da competitividade.

A pobreza é, em grande medida, resultado da subutilização do capital humano. Para Schultz, combater a pobreza passa necessariamente por elevar o nível educacional, científico e tecnológico da população.

4. A Importante Observação de Schultz sobre o Japão

O laureado com o Nobel de Economia de 1979 e precursor da Teoria do Capital Humano, Schultz desenvolveu pesquisas voltadas à economia agrícola, motivado pela preocupação em compreender a dinâmica econômica associada à condição de pobreza.

Theodore Schultz, filho de agricultores no estado de Dakota do Sul, foi um dos pioneiros na formulação da Teoria do Capital Humano. Em seus estudos, demonstrou que investimentos em educação, saúde e qualificação profissional são fundamentais para elevar a produtividade do trabalhador. Ao defender que o desenvolvimento econômico depende da capacidade de formar e valorizar pessoas, Schultz evidenciou que o fortalecimento do capital humano é uma estratégia central para reduzir a pobreza e promover o crescimento econômico.

Na Universidade de Chicago, Schultz começou a trabalhar na Teoria do Capital Humano, tentando explicar a rápida recuperação econômica da Alemanha e do Japão do pós-guerra. Em um dos trechos mais citados de O Capital Humano, Schultz afirma: “O Japão demonstrou, além de qualquer dúvida, que uma rica provisão de recursos naturais não é um fator necessário para o desenvolvimento de uma economia moderna” (SCHULTZ, 1971, p. 12).

Este exemplo é decisivo na Teoria do Capital Humano, pois o Japão, um país asiático, pobre em recursos naturais, mas rico em investimento educacional, tornou-se, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), um dos países mais avançados do mundo, em especial, a segunda maior economia do mundo de 1968 até 2010.

A educação, a disciplina e o investimento em pesquisa transformaram radicalmente a estrutura produtiva japonesa e o surgimento de empresas como Honda, Toyota, Yamaha, Sony e Nikon.

5. Principais Impactos da Obra-prima de Schultz na Economia Contemporânea

A obra-prima de Schultz gerou efeitos profundos, como fundamentou políticas de educação como estratégia de desenvolvimento. Países asiáticos como Coreia do Sul e Cingapura seguiram essa orientação e obtiveram crescimento econômico acelerado.

Para Schultz (1971, p. 31-32), “Muito daquilo a que damos o nome de consumo constitui investimento em capital humano. Os gastos diretos com a educação, com a saúde e com a migração interna para a consecução de vantagens oferecidas por melhores empregos são exemplos claros. Os rendimentos auferidos, por destinação prévia, por estudantes amadurecidos que vão à escola e por trabalhadores que se propõem a adquirir um treinamento no local de trabalho são igualmente claros exemplos”.

Influenciou o cálculo de retorno educacional. Modelos de capital humano passaram a embasar políticas governamentais e pesquisas acadêmicas. Reforçou a centralidade da ciência e tecnologia. A partir de Schultz, universidades e centros de pesquisa passaram a ser vistos como motores do crescimento econômico de uma nação.

Transformou a compreensão de desenvolvimento rural. Schultz estudou a agricultura e mostrou como a adoção de novas tecnologias, fertilizantes, sementes e práticas gerenciais dependem de capacitação humana, e não apenas de capital físico.

Conforme Schultz (1971, p. 32), “Os economistas sempre souberam que as pessoas são parte importante da riqueza das nações”. Por isso, ele estudou os pensamentos econômicos de Smith, Ricardo, Mill, Marx, Marshall, Kuznets, Hicks, entre outros grandes economistas.

De acordo com o economista escocês Adam Smith (1996, p. 249, v. II) sobre a educação na Escócia no Século das Luzes, “Ainda que o Estado não aufira nenhuma vantagem da instrução das camadas inferiores do povo, mesmo assim deveria procurar evitar que elas permaneçam totalmente sem instrução. Acontece, porém, que o Estado aufere certa considerável vantagem da instrução do povo. Quanto mais instruído ele for, tanto menos estará sujeito às ilusões do entusiasmo e da superstição que, entre nações ignorantes, muitas vezes dão origem às mais temíveis desordens. Além disso, um povo instruído e inteligente sempre é mais decente e ordeiro do que um povo ignorante e obtuso”.

Smith elogia o sistema escocês de escolas paroquiais, defendendo que o Estado deveria garantir uma educação básica para o povo, em pleno século XVIII, pois a instrução evita o “embrutecimento” causado pela divisão do trabalho; os cidadãos educados são mais capazes de julgar, participar da vida civil e manter a ordem social; e a educação elementar é um bem público, ainda que financiada parcialmente pelos próprios alunos. Em A Riqueza das Nações, Adam Smith diz em essência que o Estado pode e deve facilitar a educação do povo para evitar a ignorância generalizada causada pelo trabalho repetitivo nas indústrias britânicas no início da Revolução Industrial.

6. Considerações Finais

Concluindo, Theodore W. Schultz escreveu mais de 20 livros, foi presidente da American Economic Association, em 1960, e elevou o conceito de capital humano a um novo patamar, integrando educação, saúde, pesquisa científica e capacidade produtiva como elementos-chave do desenvolvimento econômico.

Ao receber o Prêmio Nobel de Economia em 1979, ano emblemático da Segunda Crise do Petróleo, Schultz evidenciou que o capital humano se revela mais valioso do que os recursos naturais, como o petróleo, na medida em que a educação, a saúde e a qualificação da força de trabalho permitem a inovação tecnológica e o crescimento econômico de longo prazo.

O investimento em capital humano é o pressuposto do desenvolvimento econômico. Sua contribuição continua fundamental para países que, como o Brasil, Uruguai, África do Sul e México, enfrentam desafios estruturais em educação, produtividade e inovação.

Ao destacar que o conhecimento é o motor mais poderoso de produção, seguindo Marshall, e ao observar o exemplo do Japão no pós-guerra, Schultz demonstrou que nações não se tornam ricas por seus recursos naturais, mas pela qualidade de sua educação e pela capacidade criativa de seu povo.

Por fim, sua obra-prima permanece atual e necessária, especialmente em tempos de transição tecnológica, transição energética, economia do conhecimento, economia criativa, economia verde e desafios globais de competitividade, além de mudanças climáticas em plena Quarta Revolução Industrial. Com certeza, o ouro do século XXI é o conhecimento.

Referências

MARSHALL, Alfred. Princípios de economia. Trad. Rômulo Almeida. São Paulo: Nova Cultural, 1996. Vol. I.

SCHULTZ, Theodore W.. O capital humano: investimentos em educação e pesquisa. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.

SMITH, Adam. A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. Trad. Luiz João Baraúna. São Paulo: Nova Cultural, 1996. Vol. II.

(*) Economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor-secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência.

(**) Economista uruguaio, professor de Desenvolvimento Econômico, História do Pensamento Econômico, e Economia de Saúde e sócio do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba.

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