13/01/2026 às 04h13min - Atualizada em 13/01/2026 às 05h51min

ACORDO MERCOSUL-UNIÃO EUROPEIA: UM MARCO HISTÓRICO PARA A INTEGRAÇÃO ECONÔMICA E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Paulo Galvão Júnior (1) & Daniel Aran (2)

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Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

Paulo Galvão Júnior - jornalnorthnews.com

ACORDO MERCOSUL-UNIÃO EUROPEIA:

UM MARCO HISTÓRICO PARA A INTEGRAÇÃO ECONÔMICA E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Paulo Galvão Júnior (1) & Daniel Aran (2)

Resumo

O Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a União Europeia representa um dos mais relevantes entendimentos comerciais da História recente das relações econômicas internacionais. Após mais de duas décadas de negociações complexas, sua assinatura simbolizará um avanço estratégico rumo à ampliação da integração inter-regional, à redução de barreiras tarifárias e não tarifárias e ao fortalecimento do multilateralismo em um contexto global marcado por crescentes tensões geopolíticas e práticas protecionistas. O Acordo cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo cerca de 735 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto combinado superior a US$ 22 trilhões. Para o Mercosul, constitui uma oportunidade histórica de diversificação de mercados, aumento da competitividade externa e maior inserção nas cadeias globais de valor. Para a União Europeia, reforça a estratégia de diversificação de parceiros comerciais e consolida sua presença econômica na América do Sul. Embora existam assimetrias estruturais significativas entre os dois blocos, essas diferenças revelam elevado grau de complementaridade produtiva. O sucesso do Acordo, contudo, dependerá da implementação de políticas públicas adequadas, da capacidade de adaptação dos setores produtivos e do compromisso com padrões ambientais, sanitários e trabalhistas elevados. Mais do que um tratado comercial, o Acordo Mercosul-UE configura-se como uma decisão estratégica em favor da cooperação internacional, da previsibilidade econômica e do desenvolvimento sustentável de longo prazo.

Palavras-chave: Mercosul, União Europeia, Livre Mercado, Protecionismo.

1. Considerações iniciais

O Acordo prevê eliminar tarifas de importação e representa um dos mais relevantes entendimentos comerciais da História recente das relações econômicas internacionais. Após mais de duas décadas de negociações complexas, prolongadas e intermitentes, o anúncio de sua assinatura na cidade de Assunção, a capital do Paraguai, e na presidência rotativa e temporária do Mercosul, constitui um marco simbólico e estratégico para os países sul-americanos e europeus envolvidos.

O Acordo sinaliza um avanço decisivo rumo à ampliação da integração econômica, à redução de barreiras tarifárias e não tarifárias e ao fortalecimento do multilateralismo, em um cenário global cada vez mais marcado por tensões geopolíticas, disputas comerciais e recrudescimento de práticas protecionistas.

Trata-se, ademais, da constituição de uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, tanto em termos populacionais, com 735 milhões de habitantes, quanto em Produto Interno Bruto (PIB) nominal, com aproximadamente US$ 22,4 trilhões, ou seja, corresponde a quase 25% do PIB mundial.

Para o Mercosul, atualmente composto por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, o Acordo representa uma oportunidade histórica de inserção mais competitiva nas cadeias globais de valor, de diversificação de mercados.

Em breve, a Bolívia concluirá oficialmente seu ingresso como Estado Parte do Mercosul, após a ratificação e promulgação do Protocolo de Adesão, processo que dará ao país sul-americano um prazo de até quatro anos para incorporar integralmente o acervo normativo do bloco e consolidar a integração comercial plena.

Por outro lado, a Venezuela permanece com sua participação suspensa desde 2016, em decorrência do descumprimento da cláusula democrática prevista no Protocolo de Ushuaia, o que impede sua participação plena nas decisões e órgãos do bloco. Embora o tratado constitutivo não preveja um mecanismo de expulsão permanente, a suspensão só poderá ser revertida caso o país sul-americano restabeleça os critérios democráticos exigidos pelos Estados-Partes do Mercosul.

Para a UE, formada por 27 países europeus, Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Países Baixos, Polônia, Portugal, República Tcheca, Romênia e Suécia, o Acordo reforça sua estratégia de diversificação de parcerias comerciais, ampliação do acesso a mercados emergentes e consolidação de sua presença econômica na América do Sul.

O Acordo prevê a redução gradual e, em diversos casos, a eliminação de tarifas alfandegárias sobre bens industriais e agrícolas, além do estabelecimento de regras comuns em áreas sensíveis como serviços, compras governamentais, propriedade intelectual, defesa comercial, padrões sanitários e fitossanitários, meio ambiente e desenvolvimento sustentável.

2. Principais indicadores econômicos e estruturais do Mercosul e da UE

Nas comemorações alusivas aos 250 anos da publicação de A Riqueza das Nações (1776), obra-prima do economista escocês Adam Smith (1723-1790) e marco da Economia Moderna, na qual o filósofo do liberalismo econômico defende de forma contundente os benefícios do livre comércio (free trade), e, simultaneamente, em um contexto internacional marcado pela mais intensa escalada de tensões comerciais das últimas décadas, iniciada durante a segunda administração do presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, torna-se particularmente oportuno analisar os principais indicadores econômicos e estruturais de dois grandes blocos econômicos que buscam consolidar um acordo de livre comércio de alcance inter-regional:

Quadro 1. Comparação estrutural entre o Mercosul e a União Europeia na atualidade

Indicador

Mercosul

União Europeia

Países membros

4

27

População

285 milhões de hab.

450 milhões de hab.

PIB nominal

US$ 4,1 trilhões

US$ 18,3 trilhões

PIB per capita

US$ 9.824

US$ 43.555

Exportações de bens para o resto do mundo

US$ 391,0 bilhões

US$ 2,56 trilhões

Exportações de bens para o bloco parceiro

€ 57,0 bilhões

€ 53,3 bilhões

Estrutura produtiva predominante

Agropecuária, mineração, energia e indústria de base

Indústria de alta tecnologia, serviços avançados e inovação

Perfil exportador

Commodities agrícolas, minerais e energéticas

Bens manufaturados, tecnologia e serviços

Grau de integração econômica

União aduaneira em consolidação

Mercado comum e união econômica

Moeda

Moedas nacionais

(guarani, peso argentino, peso uruguaio e real)

Euro (21 países) e 6 países com moedas nacionais (Dinamarca, Suécia, Polônia, Hungria, República Tcheca e Romênia)

Padrões regulatórios e ambientais

Em processo de harmonização

Elevados e rigorosos

Fonte: Elaboração própria dos autores.

O Quadro 1 evidencia uma assimetria estrutural significativa entre os dois blocos econômicos, especialmente em termos de renda per capita, sofisticação produtiva, grau de integração econômica e participação no comércio internacional. A UE apresenta uma economia avançada, altamente integrada e orientada para produtos de maior valor agregado, tecnologia e serviços intensivos em conhecimento. O Mercosul, por sua vez, possui uma estrutura produtiva mais concentrada em setores primários e industriais de menor intensidade tecnológica.

Essa assimetria, contudo, não deve ser interpretada exclusivamente como desvantagem, mas como expressão de complementaridade econômica. O Mercosul detém claras vantagens comparativas na produção de alimentos, energia e biocombustíveis, setores fundamentais para a segurança alimentar e energética europeia. A UE, por sua vez, destaca-se pela elevada capacidade de inovação, financiamento, transferência tecnológica e organização de cadeias produtivas complexas.

A diferença no grau de integração econômica entre os blocos também é central para a análise. Enquanto a UE opera como um mercado comum plenamente consolidado, com políticas monetária, regulatória e concorrencial avançadas, o Mercosul ainda enfrenta desafios institucionais, assimetrias internas e limitações logísticas.

Nesse contexto, o Acordo pode atuar como um vetor externo de modernização, incentivando reformas regulatórias, ganhos de eficiência produtiva e maior previsibilidade institucional no bloco sul-americano.

Por outro lado, os impactos do Acordo não serão homogêneos. Setores industriais menos competitivos do Mercosul tendem a enfrentar maior concorrência de produtos europeus, o que exigirá políticas públicas ativas voltadas à inovação, à qualificação da mão de obra, ao fortalecimento da infraestrutura logística e ao apoio à reestruturação produtiva. A ausência dessas políticas pode aprofundar desequilíbrios regionais e setoriais.

Questões ambientais, sanitárias e trabalhistas assumem papel central na implementação do Acordo. Os elevados padrões regulatórios europeus impõem desafios adicionais aos exportadores do Mercosul, mas também criam incentivos relevantes para a adoção de práticas produtivas mais sustentáveis, alinhadas às exigências contemporâneas de responsabilidade socioambiental e governança corporativa.

3. Dimensão política e estratégia comercial

Em 17 de janeiro de 2026, uma data histórica, com a escolha de Assunção como sede da assinatura do acordo de livre comércio, reforça o papel do Paraguai no contexto diplomático regional e simboliza o esforço do Mercosul, criado em 1991, em recuperar protagonismo internacional, coesão interna e relevância geopolítica.

Em um ambiente internacional cada vez mais fragmentado, devido à estúpida guerra comercial iniciada por Donald Trump, o acordo de livre comércio reafirma a importância dos acordos inter-regionais como instrumentos de estabilidade econômica, cooperação e previsibilidade de longo prazo.

A presidência rotativa e temporária da UE é exercida pelo Chipre e o Acordo ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu em Bruxelas, na Bélgica, para entrar em vigor nas 27 nações integrantes a UE. A presidente da Comissão Europeia, alemã Ursula von der Leyen, celebrou o Acordo e viajará para o Paraguai para assinatura oficial do Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a UE.

Em Bruxelas, Ursula von der Leyen ressaltou o pensamento econômico correto, de que a parceria cria prosperidade e a abertura impulsiona o progresso: “E este Acordo marcante proporcionará crescimento, oportunidades e maior prosperidade para os cidadãos e empresas europeias”.

A redução tarifária abrangerá US$ 4,66 bilhões em exportações do Mercosul para a UE. Atualmente, incidem tarifas de importação de 35% sobre autopeças, 28% sobre laticínios e 27% sobre vinhos, por exemplos. Com a entrada em vigor do Acordo, esse cenário tarifário será progressivamente alterado, com redução gradual das alíquotas até sua eliminação total, convergindo para tarifa zero ao final do período de transição.

4. Principais benefícios do Acordo Mercosul-União Europeia

Em 2024, os principais produtos exportados pelo Mercosul para a UE foram os produtos agrícolas (42,7%), os minerais (30,5%) e papel e celulose (6,8%). No sentido inverso, as exportações da UE para o Mercosul concentraram-se em máquinas e equipamentos (28,1%), produtos químicos e farmacêuticos (25,0%) e equipamentos de transporte (12,1%), conforme dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A implementação do Acordo tende a gerar benefícios significativos para ambos os blocos, ao ampliar o comércio de bens a preços mais competitivos, com maior qualidade e maior diversidade, fortalecendo a integração econômica e a eficiência das cadeias produtivas entre os blocos parceiros.

Cabe destacar, ainda, que o Mercosul eliminará as tarifas sobre 91% das exportações da UE, incluindo automóveis, cuja alíquota atual é de 35%, ao longo de um período de 15 anos. Por sua vez, a UE eliminará de forma progressiva as tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul, em um prazo de até dez anos.

4.1. Ampliação do comércio e acesso a mercados

• Eliminação gradual de tarifas sobre bens industriais e agrícolas, reduzindo custos e aumentando a competitividade das exportações;

• Acesso preferencial do Mercosul a um dos maiores e mais sofisticados mercados consumidores do mundo;

• Ampliação das exportações do Mercosul para a UE, estimadas em US$ 4,66 bilhões, especialmente em setores atualmente altamente tarifados.

4.2. Inserção mais qualificada nas cadeias globais de valor

• Estímulo à integração produtiva entre empresas sul-americanas e europeias;

• Atração de investimento estrangeiro direto (IED), sobretudo em infraestrutura, indústria, energia, tecnologia e serviços;

• Maior previsibilidade regulatória, favorecendo decisões de longo prazo por parte do setor privado.

4.3. Modernização produtiva e institucional do Mercosul

• Incentivo à adoção de padrões regulatórios, ambientais e sanitários mais elevados;

• Estímulo à inovação, à transferência tecnológica e à qualificação da mão de obra;

• Atuação do Acordo como vetor externo de reformas estruturais e aumento da eficiência econômica.

4.4. Complementaridade econômica estratégica

• Aproveitamento das vantagens comparativas do Mercosul em alimentos, energia, biocombustíveis e recursos naturais;

• Atendimento às demandas europeias por segurança alimentar, energética e sustentabilidade;

• Fortalecimento das cadeias produtivas europeias com acesso a insumos estratégicos.

4.5. Fortalecimento do multilateralismo e da previsibilidade internacional

Reafirmação do comércio internacional como instrumento de cooperação e crescimento econômico;

• Resposta coordenada ao avanço de políticas protecionistas e guerras comerciais;

• Consolidação de um acordo inter-regional de grande escala em um ambiente global fragmentado.

4.6. Impactos positivos de longo prazo

Estimula a geração de empregos mais qualificados;

• Diversificação das estruturas produtivas do Mercosul;

• Maior estabilidade econômica e integração geopolítica entre América do Sul e Europa.

5. Considerações finais

Após 26 anos de negociação, a assinatura do Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a UE constituirá um marco histórico, com potencial para redefinir o posicionamento econômico e geopolítico dos 31 países envolvidos. Seus benefícios, contudo, não serão automáticos. Eles dependerão da capacidade dos governos e das empresas de transformar a abertura comercial em desenvolvimento sustentável, inovação produtiva, inserção qualificada nas cadeias globais de valor e geração de empregos de maior qualidade.

Finalizando, mais do que um acordo comercial, trata-se de uma decisão estratégica em favor da integração, da previsibilidade econômica e do multilateralismo. Em um cenário internacional marcado por incertezas, disputas comerciais e tarifas protecionistas, o entendimento entre Mercosul e UE reafirma o papel do comércio internacional como instrumento de cooperação, crescimento e estabilidade de longo prazo na maior zona de livre comércio do planeta.

Referências

COMISSÃO EUROPEIA. EU-Mercosur Agreement. Bruxelas: European Commission. Disponível em: https://policy.trade.ec.europa.eu/eu-trade-relationships-country-and-region/countries-and-regions/mercosur/eu-mercosur-agreement_en. Acesso em: 10 jan. 2026.

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI). World Economic Outlook Database. Washington, DC: IMF. Disponível em: https://www.imf.org/en/Data. Acesso em: 10 jan. 2026.

MERCOSUL. O Acordo MERCOSUL-União Europeia será assinado no dia 17 de janeiro no Paraguai. Disponível em: https://www.mercosur.int/pt-br/o-acordo-mercosul-uniao-europeia-sera-assinado-no-dia-17-de-janeiro-no-paraguai/. Acesso em: 9 jan. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO (OMC). World Trade Statistical Review. Genebra: WTO. Disponível em: https://www.wto.org/english/res_e/statis_e/wts_e.htm. Acesso em: 10 jan. 2026.

SMITH, Adam. A Riqueza das Nações. 1776. Disponível em: https://www.econlib.org/library/Smith/smWN.html. Acesso em: 10 jan. 2026.

UNIÃO EUROPEIA. EU-Mercosur: Text of the agreement. Bruxelas: Conselho da União Europeia e Parlamento Europeu. Disponível em: https://policy.trade.ec.europa.eu/eu-trade-relationships-country-and-region/countries-and-regions/mercosur/eu-mercosur-agreement/text-agreement_en. Acesso em: 10 jan. 2026.

WORLD BANK. World Development Indicators. Washington, DC: World Bank. Disponível em: https://databank.worldbank.org/source/world-development-indicators. Acesso em: 10 jan. 2026.

(1) Paulo Galvão Júnior é economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência.

(2) Daniel Aran é economista uruguaio, professor de Desenvolvimento Econômico, História do Pensamento Econômico, e Economia de Saúde e sócio do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba.

 

ACUERDO MERCOSUR-UNIÓN EUROPEA:

UN HITO HISTÓRICO PARA LA INTEGRACIÓN ECONÓMICA Y EL DESARROLLO SOSTENIBLE

Paulo Galvão Júnior (1) & Daniel Aran (2)

Resumen

El Acuerdo de Libre Comercio entre el Mercosur y la Unión Europea representa uno de los entendimientos comerciales más relevantes de la Historia reciente de las relaciones económicas internacionales. Tras más de dos décadas de negociaciones complejas, su firma simboliza un avance estratégico hacia la ampliación de la integración interregional, la reducción de barreras arancelarias y no arancelarias y el fortalecimiento del multilateralismo en un contexto global marcado por crecientes tensiones geopolíticas y prácticas proteccionistas. El Acuerdo crea una de las mayores áreas de libre comercio del mundo, reuniendo cerca de 735 millones de habitantes y un Producto Interno Bruto combinado superior a 22 billones de dólares estadounidenses. Para el Mercosur, constituye una oportunidad histórica de diversificación de mercados, aumento de la competitividad externa y mayor inserción en las cadenas globales de valor. Para la Unión Europea, refuerza la estrategia de diversificación de socios comerciales y consolida su presencia económica en América del Sur. Aunque existen asimetrías estructurales significativas entre los dos bloques, estas diferencias revelan un elevado grado de complementariedad productiva. El éxito del Acuerdo, no obstante, dependerá de la implementación de políticas públicas adecuadas, de la capacidad de adaptación de los sectores productivos y del compromiso con estándares ambientales, sanitarios y laborales elevados. Más que un tratado comercial, el Acuerdo Mercosur-UE se configura como una decisión estratégica a favor de la cooperación internacional, la previsibilidad económica y el desarrollo sostenible de largo plazo.

Palabras clave: Mercosur, Unión Europea, Libre mercado, Proteccionismo.

1.         Consideraciones iniciales

El Acuerdo prevé eliminar aranceles de importación y representa uno de los entendimientos comerciales más relevantes de la historia reciente de las relaciones económicas internacionales. Tras más de dos décadas de negociaciones complejas, prolongadas e intermitentes, el anuncio de su firma en la ciudad de Asunción, (Paraguay) y bajo la presidencia rotativa y temporal del Mercosur, constituye un hito simbólico y estratégico para los países sudamericanos y europeos involucrados.

El Acuerdo señala un avance decisivo hacia la ampliación de la integración económica, la reducción de barreras arancelarias y no arancelarias y el fortalecimiento del multilateralismo, en un escenario global cada vez más marcado por tensiones geopolíticas, disputas comerciales y recrudecimiento de prácticas proteccionistas.

Se trata, además, de la constitución de una de las mayores áreas de libre comercio del mundo, tanto en términos poblacionales, con 735 millones de habitantes, como en Producto Interno Bruto (PIB) nominal, con aproximadamente 22,4 billones de dólares estadounidenses, es decir, corresponde a casi el 25% del PIB mundial.

Para el Mercosur, actualmente compuesto por, Argentina, Brasil, Paraguay y Uruguay, el Acuerdo representa una oportunidad histórica de inserción más competitiva en las cadenas globales de valor y de diversificación de mercados.

En breve, Bolivia concluirá oficialmente su ingreso como Estado Parte del Mercosur, tras la ratificación y promulgación del Protocolo de Adhesión, proceso que otorgará al país sudamericano un plazo de hasta cuatro años para incorporar íntegramente el acervo normativo del bloque y consolidar la integración comercial plena.

Por otro lado, Venezuela permanece con su participación suspendida desde 2016, debido al incumplimiento de la cláusula democrática prevista en el Protocolo de Ushuaia, lo que impide su participación plena en las decisiones y órganos del bloque. Aunque el tratado constitutivo no prevé un mecanismo de expulsión permanente, la suspensión solo podrá revertirse si el país sudamericano restablece los criterios democráticos exigidos por los Estados Parte del Mercosur.

Para la UE, formada por 27 países europeos, Alemania, Austria, Bélgica, Bulgaria, Chipre, Croacia, Dinamarca, Eslovaquia, Eslovenia, España, Estonia, Finlandia, Francia, Grecia, Hungría, Irlanda, Italia, Letonia, Lituania, Luxemburgo, Malta, Países Bajos, Polonia, Portugal, República Checa, Rumanía y Suecia, el Acuerdo refuerza su estrategia de diversificación de asociaciones comerciales, ampliación del acceso a mercados emergentes y consolidación de su presencia económica en América del Sur.

El Acuerdo prevé la reducción gradual y, en muchos casos, la eliminación de aranceles aduaneros sobre bienes industriales y agrícolas, además del establecimiento de reglas comunes en áreas sensibles como servicios, compras gubernamentales, propiedad intelectual, defensa comercial, normas sanitarias y fitosanitarias, medio ambiente y desarrollo sostenible.

2.         Principales indicadores económicos y estructurales del Mercosul y UE

En las conmemoraciones alusivas a los 250 años de la publicación de La riqueza de las naciones (1776), obra maestra del economista escocés Adam Smith (1723-1790) y hito de la Economía Moderna, en la que el filósofo del liberalismo económico defiende de forma contundente los beneficios del libre comercio (free trade), y, simultáneamente, en un contexto internacional marcado por la más intensa escalada de tensiones comerciales de las últimas décadas, iniciada durante la segunda administración del presidente de los Estados Unidos de América (EE. UU.), Donald Trump, resulta particularmente oportuno analizar los principales indicadores económicos y estructurales de dos grandes bloques económicos que buscan consolidar un acuerdo de libre comercio de alcance interregional:

Cuadro 1. Comparación estructural entre el Mercosur y la Unión Europea en la actualidad

Indicador

Mercosur

Unión Europea

Países miembros

4

27

Población

285 millones de hab.

450 millones de hab.

PIB nominal

4,1 billones de US$

18,3 billones de US$

PIB per capita

US$ 9.824

US$ 43.555

Exportaciones de bienes al resto del mundo

391,0 mil millones de US$

2,56 billones de US$

Exportaciones de bienes al bloque socio

57,0 mil millones de €

53,3 mil millones de €

Estructura productiva predominante

Agropecuaria, minería, energía e industria de base

Industria de alta tecnología, servicios avanzados e innovación

Perfil exportador

Commodities agrícolas, minerales y energéticos

Bienes manufacturados, tecnología y servicios

Grado de integración económica

Unión aduanera en consolidación

Mercado común y unión económica

Moneda

Monedas nacionales

(guaraní, peso argentino, peso uruguayo y real)

Euro (21 países) y 6 países con monedas nacionales (Dinamarca, Suecia, Polonia, Hungría, República Checa y Rumanía)

Estándares regulatorios y ambientales

En proceso de armonización

Elevados y rigurosos

Fuente: Elaboración propia des los autores.

El Cuadro 1 evidencia una asimetría estructural significativa entre los dos bloques económicos, especialmente en términos de renta per cápita, sofisticación productiva, grado de integración económica y participación en el comercio internacional. La UE presenta una economía avanzada, altamente integrada y orientada a productos de mayor valor agregado, tecnología y servicios intensivos en conocimiento. El Mercosur, por su parte, posee una estructura productiva más concentrada en sectores primarios e industriales de menor intensidad tecnológica.

Esta asimetría, sin embargo, no debe interpretarse exclusivamente como desventaja, sino como expresión de complementariedad económica. El Mercosur posee claras ventajas comparativas en la producción de alimentos, energía y biocombustibles, sectores fundamentales para la seguridad alimentaria y energética europea. La UE, a su vez, se destaca por su elevada capacidad de innovación, financiamiento, transferencia tecnológica y organización de cadenas productivas complejas.

La diferencia en el grado de integración económica entre los bloques también es central para el análisis. Mientras la UE opera como un mercado común plenamente consolidado, con políticas monetaria, regulatoria y de competencia avanzadas, el Mercosur aún enfrenta desafíos institucionales, asimetrías internas y limitaciones logísticas.

En este contexto, el Acuerdo puede actuar como un vector externo de modernización, incentivando reformas regulatorias, ganancias de eficiencia productiva y mayor previsibilidad institucional en el bloque sudamericano.

Por otro lado, los impactos del Acuerdo no serán homogéneos. Sectores industriales menos competitivos del Mercosur tenderán a enfrentar mayor competencia de productos europeos, lo que exigirá políticas públicas activas orientadas a la innovación, la calificación de la mano de obra, el fortalecimiento de la infraestructura logística y el apoyo a la reestructuración productiva. La ausencia de estas políticas puede profundizar desequilibrios regionales y sectoriales.

Las cuestiones ambientales, sanitarias y laborales asumen un papel central en la implementación del Acuerdo. Los elevados estándares regulatorios europeos imponen desafíos adicionales a los exportadores del Mercosur, pero también crean incentivos relevantes para la adopción de prácticas productivas más sostenibles, alineadas con las exigencias contemporáneas de responsabilidad socioambiental y gobernanza corporativa.

3.         Dimensión política y estrategia comercial

El 17 de enero de 2026, será una fecha histórica, con la elección de Asunción como sede de la firma del acuerdo de libre comercio, refuerza el papel del Paraguay en el contexto diplomático regional y simboliza el esfuerzo del Mercosur, creado en 1991, por recuperar protagonismo internacional, cohesión interna y relevancia geopolítica.

En un entorno internacional cada vez más fragmentado, debido a la falta de inteligencia de la guerra comercial iniciada por Donald Trump, el Acuerdo de libre comercio reafirma la importancia de los acuerdos interregionales como instrumentos de estabilidad económica, cooperación y previsibilidad de largo plazo.

La presidencia rotativa y temporal de la UE es ejercida por Chipre y el Acuerdo aún debe ser aprobado por el Parlamento Europeo en Bruselas, Bélgica, para entrar en vigor en las 27 naciones integrantes de la UE. La presidenta de la Comisión Europea, la alemana Ursula von der Leyen, celebró el Acuerdo y viajará a Paraguay para la firma oficial del Acuerdo de Libre Comercio entre el Mercosur y la UE.

En Bruselas, Ursula von der Leyen subrayó el pensamiento económico correcto de que la asociación crea prosperidad y la apertura impulsa el progreso: “Y este Acuerdo emblemático proporcionará crecimiento, oportunidades y mayor prosperidad para los ciudadanos y empresas europeas”.

La reducción arancelaria abarcará 4,66 mil millones de dólares en exportaciones del Mercosur hacia la UE. Actualmente se aplican aranceles de importación del 35% sobre autopartes, 28% sobre lácteos y 27% sobre vinos, por ejemplos. Con la entrada en vigor del Acuerdo, este escenario arancelario se modificará progresivamente, con reducción gradual de las alícuotas hasta su eliminación total, convergiendo hacia arancel cero al final del período de transición.

4.         Principales beneficios del Acuerdo Mercosur-Unión Europea

En 2024, los principales productos exportados por el Mercosur a la UE fueron los productos agrícolas (42,7%), los minerales (30,5%) y papel y celulosa (6,8%). En sentido inverso, las exportaciones de la UE al Mercosur se concentraron en maquinaria y equipos (28,1%), productos químicos y farmacéuticos (25,0%) y equipos de transporte (12,1%), según datos del Fondo Monetario Internacional (FMI).

La implementación del Acuerdo tiende a generar beneficios significativos para ambos bloques, al ampliar el comercio de bienes a precios más competitivos, con mayor calidad y mayor diversidad, fortaleciendo la integración económica y la eficiencia de las cadenas productivas entre los bloques socios.

Cabe destacar, además, que el Mercosur eliminará los aranceles sobre el 91 % de las exportaciones de la UE, incluidos los automóviles, cuya alícuota actual es del 35 %, a lo largo de un período de 15 años. Por su parte, la UE eliminará de forma progresiva los aranceles sobre el 92 % de las exportaciones del Mercosur, en un plazo de hasta diez años.

4.1. Ampliación del comercio y acceso a mercados

Eliminación gradual de aranceles sobre bienes industriales y agrícolas, reduciendo costos y aumentando la competitividad de las exportaciones;

• Acceso preferencial del Mercosur a uno de los mayores y más sofisticados mercados de consumo del mundo;

• Ampliación de las exportaciones del Mercosur hacia la UE, estimadas en 4,66 mil millones de dólares, en especial en sectores actualmente altamente gravados.

4.2. Inserción más calificada en las cadenas globales de valor

Estímulo a la integración productiva entre empresas sudamericanas y europeas;

• Atracción de inversión extranjera directa (IED), especialmente en infraestructura, industria, energía, tecnología y servicios;

• Mayor previsibilidad regulatoria, favoreciendo decisiones de largo plazo por parte del sector privado.

4.3. Modernización productiva e institucional del Mercosur

Incentivo a la adopción de estándares regulatorios, ambientales y sanitarios más elevados;

• Estímulo a la innovación, la transferencia tecnológica y la calificación de la mano de obra;

• Actuación del Acuerdo como vector externo de reformas estructurales y aumento de la eficiencia económica.

4.4. Complementariedad económica estratégica

Aprovechamiento de las ventajas comparativas del Mercosur en alimentos, energía, biocombustibles y recursos naturales;

• Atención a las demandas europeas de seguridad alimentaria, energética y sostenibilidad;

• Fortalecimiento de las cadenas productivas europeas con acceso a insumos estratégicos.

4.5. Fortalecimiento del multilateralismo y la previsibilidad internacional

Reafirmación del comercio internacional como instrumento de cooperación y crecimiento económico;

• Respuesta coordinada al avance de políticas proteccionistas y guerras comerciales;

• Consolidación de un acuerdo interregional de gran escala en un entorno global fragmentado.

4.6. Impactos positivos de largo plazo

• Estimula la generación de empleos más calificados;

• Diversificación de las estructuras productivas del Mercosur;

• Mayor estabilidad económica e integración geopolítica entre América del Sur y Europa.

5.         Consideraciones finales

Después de 26 años de negociación, la firma del Acuerdo de Libre Comercio entre el Mercosur y la UE constituirá un hito histórico, con potencial para redefinir el posicionamiento económico y geopolítico de los 31 países involucrados. Sin embargo, sus beneficios no serán automáticos. Dependerán de la capacidad de los gobiernos y las empresas para transformar la apertura comercial en desarrollo sostenible, innovación productiva, inserción calificada en las cadenas globales de valor y generación de empleos de mayor calidad.

En conclusión, más que un acuerdo comercial, se trata de una decisión estratégica a favor de la integración, la previsibilidad económica y el multilateralismo. En un escenario internacional marcado por incertidumbres, disputas comerciales y aranceles proteccionistas, el entendimiento entre Mercosur y UE reafirma el papel del comercio internacional como instrumento de cooperación, crecimiento y estabilidad de largo plazo en la mayor zona de libre comercio del planeta.

Referencias

COMISIÓN EUROPEA. EU-Mercosur Trade Agreement. Bruselas: European Commission. Disponible en: https://policy.trade.ec.europa.eu/eu-trade-relationships-country-and-region/countries-and-regions/mercosur/eu-mercosur-agreement_en. Acceso en: 10 ene. 2026.

FONDO MONETARIO INTERNACIONAL (FMI). World Economic Outlook Database. Washington, DC: IMF. Disponible en: https://www.imf.org/en/Data. Acceso en: 10 ene. 2026.

MERCOSUR. O Acordo MERCOSUL-União Europeia será assinado no dia 17 de janeiro no Paraguai. Disponível em: https://www.mercosur.int/pt-br/o-acordo-mercosul-uniao-europeia-sera-assinado-no-dia-17-de-janeiro-no-paraguai/. Acesso em: 9 jan. 2026.

ORGANIZACIÓN MUNDIAL DEL COMERCIO (OMC). World Trade Statistical Review. Ginebra: WTO. Disponible en: https://www.wto.org/english/res_e/statis_e/wts_e.htm. Acceso en: 10 ene. 2026.

SMITH, Adam. La riqueza de las naciones. 1776. Disponible en: https://www.econlib.org/library/Smith/smWN.html. Acceso en: 10 ene. 2026.

UNIÓN EUROPEA. EU–Mercosur: Text of the agreement. Bruselas: Consejo de la Unión Europea y Parlamento Europeo. Disponible en: https://policy.trade.ec.europa.eu/eu-trade-relationships-country-and-region/countries-and-regions/mercosur/eu-mercosur-agreement/text-agreement_en. Acceso en: 10 ene. 2026.

WORLD BANK. World Development Indicators. Washington, DC: World Bank. Disponible en: https://databank.worldbank.org/source/world-development-indicators. Acceso en: 10 ene. 2026.

(1) Paulo Galvão Júnior es un economista brasileño, consejero titular del CORECON-PB, director secretario del Foro Celso Furtado de Desarrollo de Paraíba y presentador del programa Economía en Alta en la radio web Alta Potência.

(2) Daniel Aran es un economista uruguayo, profesor de Desarrollo Económico, Historia del Pensamiento Económico y Economía de la Salud y socio del Foro Celso Furtado de Desarrollo de Paraíba.

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