15/01/2026 às 05h00min - Atualizada em 15/01/2026 às 06h53min

O Canadá e a China na Resistência ao Protecionismo Comercial

Paulo Galvão Júnior

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Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

Paulo Galvão Júnior - jornalnorthnews.com
Fonte: CTCNEWS.CA.

O Canadá e a China na Resistência ao Protecionismo Comercial

Paulo Galvão Júnior

Estimados leitores lusófonos do Portal North News, a estúpida guerra comercial iniciada por Donald Trump, somada ao discurso absurdo sobre a eventual anexação do Canadá como o “51º estado” dos Estados Unidos da América (EUA), revelam não apenas profunda ignorância geopolítica, mas também um ataque direto aos princípios do livre comércio (free trade), da soberania nacional e da ordem econômica internacional construída após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Diante desse ambiente de incertezas, pressões e provocações, o Canadá tem respondido com diplomacia econômica, pragmatismo e diversificação estratégica. Nesse contexto, ganha relevo a recente visita comercial do primeiro-ministro canadense, Mark Carney à República Popular da China, reforçando a busca por novos mercados, maior estabilidade comercial e oportunidades de investimento de longo prazo.

A aproximação com a China não representa ruptura com parceiros tradicionais, mas sim uma afirmação clara da autonomia estratégica canadense em um mundo cada vez mais multipolar. Trata-se de uma relação entre duas potências com pesos distintos, porém complementares. O Canadá figura atualmente como a décima maior economia do planeta, enquanto a China ocupa a segunda posição no ranking global do Produto Interno Bruto (PIB) nominal.

No campo geográfico, a parceria comercial também chama atenção. O Canadá é o segundo maior país do mundo em extensão territorial, atrás apenas da Rússia, enquanto a China ocupa a terceira posição, consolidando-se ambas como grandes potências territoriais.

Do ponto de vista demográfico, a assimetria é evidente e estratégica. A China é a segunda nação mais populosa do mundo, com mais de 1,4 bilhão de habitantes, ao passo que o Canadá possui cerca de 41,5 milhões de habitantes, situando-se na 40ª posição no ranking populacional global. Esse contraste reforça a relevância do comércio exterior para a economia canadense, altamente dependente de mercados internacionais.

A visita oficial de Mark Carney à China, em 14 de janeiro de 2026, a primeira de um primeiro-ministro canadense ao país asiático desde 2017, marca uma tentativa deliberada de reconstrução e reequilíbrio de relações comerciais que se tornaram tensas ao longo da última década.

O foco da iniciativa canadense é claro, reduzir a dependência econômica quase exclusiva dos EUA, que ainda absorvem mais de 75% das exportações canadenses, e ampliar não apenas o volume, mas a qualidade e a profundidade das relações econômicas com a Ásia, tendo a China como parceiro central nesse processo comercial.

Atualmente, a China é o segundo maior parceiro comercial do Canadá, embora muito distante dos EUA em termos de volume. Em 2024, o comércio bilateral totalizou cerca de US$ 118,7 bilhões, com exportações canadenses da ordem de US$ 29,9 bilhões e importações de produtos chineses em US$ 88,8 bilhões.

É igualmente relevante destacar que a China encerrou o ano de 2025 com um superávit comercial histórico de US$ 1,2 trilhão, resultado de exportações para o resto do mundo que alcançaram US$ 3,8 trilhões, enquanto as importações totalizaram US$ 2,6 trilhões.

Essa relação bilateral Canadá e China adquire ainda mais importância estratégica em um contexto no qual o protecionismo comercial norte-americano tem penalizado setores-chave da economia canadense, como aço, alumínio, veículos e madeira, levando Ottawa a buscar alternativas comerciais sólidas, previsíveis e de longo prazo.

As relações comerciais entre Canadá e China, contudo, não são isentas de conflitos. Em dezembro de 2018, a prisão de uma executiva da Huawei, a segunda maior fabricante de smartphones do mundo, por espionagem e fraude a pedido das autoridades norte-americanas, e a subsequente detenção de dois cidadãos canadenses por parte de Pequim, acusados de espionagem, ambas deterioraram gravemente a confiança mútua.

Mais recentemente, em outubro de 2024, o Canadá impôs tarifas elevadas sobre veículos elétricos chineses (100%) e aço e alumínio (25%), em alinhamento com medidas adotadas pelos EUA. A China respondeu com tarifas retaliatórias sobre a canola canadense, frutos do mar e carne suína.

Esses episódios contribuíram para uma retração do comércio bilateral em 2025, quando a China passou a importar 10,4% menos produtos canadenses em relação ao ano anterior.

A visita de Carney, acompanhado pela ministra das Relações Exteriores Anita Anand, foi concebida para restabelecer canais de diálogo, reconstruir confiança e promover cooperação em áreas menos vulneráveis ao protecionismo comercial, como energia, agricultura, tecnologia e investimentos estrangeiros diretos (IEDs).

Um dos pontos centrais da agenda foi o encontro do primeiro-ministro canadense Mark Carney com o presidente chinês Xi Jinping, em Pequim. Após a reunião, ambos os líderes manifestaram a intenção de retomar a cooperação bilateral em bases pragmáticas e mutuamente benéficas, respeitando a soberania nacional de cada país e as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Essa tentativa de novas negociações não implica alinhamento automático com Pequim, mas reflete uma postura de autonomia estratégica canadense, na qual a diversificação de parceiros comerciais funciona como mecanismo de proteção contra políticas protecionistas.

A aproximação com a China tampouco significa ruptura com parceiros como a União Europeia (UE) ou mesmo os EUA, mas reafirma o compromisso do Canadá com o livre comércio baseado em regras, o multilateralismo e o desenvolvimento compartilhado, princípios centrais da ordem econômica internacional que hoje enfrentam crescente erosão em meio a rivalidades geopolíticas intensificadas.

Além do aspecto econômico, vital para uma economia fortemente dependente de exportações, essa postura reforça o papel do Canadá, um país continental, rico em recursos naturais e de uma economia avançada, como ator global equilibrado, capaz de defender sua soberania e seus interesses nacionais sem se submeter a agendas protecionistas ou unilateralistas, especialmente aquelas associadas ao MAGA.

Em tempos de protecionismo comercial agressivo e retrógrado e retórica imperial ultrapassada, o multicultural e bilíngue Canadá com uma visita oficial de Carney à China de 14 a 17 de janeiro reafirma seu compromisso com o comércio internacional baseado em regras da OMC, respeito mútuo, desenvolvimento compartilhado e a defesa permanente do free trade, o melhor caminho para alcançar a prosperidade econômica.

(*) Paulo Galvão Júnior é economista brasileiro. WhatsApp para entrevistas e palestras: +55 (83) 98122-7221.

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