18/01/2026 às 05h29min - Atualizada em 18/01/2026 às 07h06min

AS NOVAS RELAÇÕES ENTRE O CANADÁ E A CHINA NA NOVA ORDEM MUNDIAL

Paulo Galvão Júnior (*)

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Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

Paulo Galvão Júnior - jornalnorthnews.com
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, com o presidente da China, Xi Jinping, em Beijing. Fonte: Sean Kilpatrick - Reuters.

AS NOVAS RELAÇÕES ENTRE O CANADÁ E A CHINA

NA NOVA ORDEM MUNDIAL

Paulo Galvão Júnior (*)

1. Considerações Iniciais

Estimados leitores lusófonos do Portal North News, inicio este artigo com uma relevante reflexão do economista e atual primeiro-ministro canadense, Mark Carney, proferida durante sua primeira visita oficial à República Popular da China: “(...) é a primeira visita de um primeiro-ministro canadense à China em quase uma década. O mundo mudou muito desde aquela última visita. Eu acredito o progresso que fizemos na parceria nos prepara bem para a Nova Ordem Mundial”.

A recente visita oficial do Canadá à China, após oito anos, constitui um movimento estratégico de grande relevância em um cenário internacional marcado por tensões comerciais persistentes, fragmentação geopolítica e reconfiguração estrutural das cadeias globais de valor. Em um mundo cada vez mais multipolar, as decisões de política externa e comercial passaram a ser orientadas menos por alinhamentos ideológicos rígidos e mais por um pragmatismo econômico, voltado à preservação da competitividade, da segurança econômica e da autonomia estratégica das nações.

Nesse contexto multipolar, a aproximação entre Canadá e China, entre Ottawa e Beijing, entre Mark Carney e Xi Jinping, adquire especial destaque, não apenas pelo peso relativo de ambas as economias, mas também pelo momento histórico em que ocorre, no início de 2026 e nas comemorações alusivas aos 250 anos da obra prima de Adam Smith, A Riqueza das Nações, de 1776.

O filósofo e economista escocês Adam Smith (1723-1790) foi um grande defensor do livre comércio (free trade) e forte opositor ao protecionismo comercial no século XVIII. Hoje, vivemos uma fase atual marcada pelo questionamento do modelo clássico de livre comércio, intensificado, sobretudo após a adoção de políticas protecionistas pelos Estados Unidos da América (EUA), o país mais rico do mundo em termos de Produto Interno Bruto (PIB) nominal e a terceira nação mais populosa do planeta.

A guerra comercial (war trade) iniciada pelo presidente norte-americano Donald Trump teve como primeiros alvos o Canadá e o México, marcando uma inflexão significativa na política comercial dos EUA e sinalizando a adoção de uma postura mais protecionista e unilateral nas relações econômicas internacionais com os países vizinhos e membros do USMCA (United States-Mexico-Canada Agreement), chamado de CUSMA no Canadá e T-MEC no México, em vigor desde 1º de julho de 2020.

2. As 20 Maiores Economias do Mundo no PIB PPC em 2026

O PIB medido em Paridade de Poder de Compra (PPC) é um indicador econômico essencial para a análise da hierarquia econômica global, pois ajusta o valor da produção nacional às diferenças de custo de vida e níveis de preços entre os países. Dessa forma, o PIB PPC oferece uma visão mais realista da capacidade econômica efetiva das nações, especialmente quando se comparam economias desenvolvidas e emergentes.

Por essa razão, o PIB PPC é amplamente utilizado por instituições multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial em análises comparativas globais. O Quadro 1 apresenta as vinte maiores economias do mundo no PIB PPC em 2026, de acordo as estimativas do FMI:

Quadro 1. As 20 Maiores Economias do Mundo no PIB PPC em 2026

Ranking

País

PIB PPC

($ trilhões internacionais)

China

43,49

EUA

31,82

Índia

19,14

Rússia

7,34

Japão

6,92

Alemanha

6,32

Indonésia

5,36

Brasil

5,16

França

4,66

10˚

Reino Unido

4,59

11˚

Turquia

3,98

12˚

Itália

3,82

13˚

México

3,55

14˚

Coreia do Sul

3,49

15˚

Espanha

2,94

16˚

Arábia Saudita

2,85

17˚

Canadá

2,81

18˚

Egito

2,53

19˚

Nigéria

2,39

20˚

Polônia

2,12

Fonte: FMI.

As estimativas mais recentes do FMI confirmam a consolidação da China como a maior economia do mundo em termos de PIB PPC no ano de 2026, a frente dos EUA. A China é o terceiro maior país do planeta, atrás da Rússia e do Canadá, e o segundo mais populoso do mundo, atrás apenas da Índia.

A China lidera de forma absoluta o ranking do PIB PPC, sustentada por um vasto mercado interno, elevada capacidade industrial e crescente sofisticação tecnológica. Detentora da maior reserva de terras raras do planeta, a China permanece como a principal plataforma manufatureira global e o maior exportador de bens do mundo.

China, Índia, Rússia, Indonésia e Brasil figuram entre as cinco principais economias emergentes do Sul Global. Por sua vez, EUA, Japão, Alemanha, França e Reino Unido (RU) estão entre as dez maiores economias do mundo e compõem o grupo das cinco economias avançadas mais relevantes da economia global.

O Brasil figura entre as maiores economias emergentes, com forte integração comercial com a China, sobretudo nos setores de commodities agrícolas, minerais e energéticas. Em 2025, o país sul-americano destacou-se como líder global nas exportações de suco de laranja (74%), de soja (59%), de açúcar (56%), de café (32%), de carne bovina (27%) e de milho (24%), além de possuir a segunda maior reserva mundial de terras raras.

O Canadá é a segunda maior nação do mundo, por sua vez, é uma economia aberta e fortemente dependente do comércio exterior, com elevada concentração de suas exportações no mercado norte-americano. Atualmente, o Canadá figura também como uma economia avançada e na décima sétima posição entre as vinte maiores economias do planeta no PIB PPC em 2026, segundo o FMI.

3. A Visita Comercial do Canadá à China

A visita de quatro dias do primeiro-ministro Carney a Beijing simboliza uma tentativa clara de reposicionamento estratégico do Canadá na economia global. A China é o segundo maior parceiro comercial canadense, atrás apenas dos EUA, e ignorar essa realidade significaria renunciar a oportunidades em um dos mercados mais dinâmicos do planeta.

Durante a visita, destacaram-se negociações e diálogos com o presidente chinês Xi Jinping voltados à ampliação do comércio bilateral; redução de barreiras tarifárias e não tarifárias; cooperação em energia limpa, agricultura, piscicultura, aquicultura, silvicultura, tecnologia avançada e veículos elétricos; atração de investimento estrangeiro direto (IED); e maior integração às cadeias globais de valor.

Mais do que os acordos específicos, a visita teve forte simbolismo político e econômico, sinalizando a busca canadense por diversificação comercial diante das crescentes incertezas nas relações econômicas e políticas com o vizinho, os EUA. O comércio bilateral entre o secular Canadá e a milenar China ultrapassou US$ 82 bilhões em 2025. A nova fase da parceria sino-canadense tende a ser decisiva para a evolução das relações econômicas entre os dois países continentais ao longo da próxima década.

4. O Pensamento Estratégico do Primeiro-Ministro Mark Carney

As declarações do presidente Donald Trump acerca da possível anexação do Canadá como o “51º estado” dos EUA, ainda que de natureza retórica, suscitaram tensões políticas e comerciais relevantes, sobretudo à luz da lógica nacionalista do Make America Great Again (MAGA). Ademais, a guerra comercial desencadeada por Washington contra Ottawa produziu impactos significativos sobre empresários e trabalhadores canadenses, aprofundando incertezas econômicas e fragilizando uma relação historicamente marcada pela cooperação bilateral.

De acordo com a Statistics Canada, a taxa de desemprego no Canadá atingiu 6,8% em dezembro de 2025, registrando um aumento de 0,3 ponto percentual em relação a novembro, em decorrência também dos impactos da guerra comercial iniciada por Trump.

Nesse contexto preocupante do segundo mandato do presidente Trump, a visão estratégica de Mark Carney sobre a China foi sintetizada na seguinte afirmação: “Juntos, podemos aproveitar o melhor que essa relação representou no passado para construir uma nova, adaptada às novas realidades globais”. Proferida em Beijing, a declaração do líder do Partido Liberal canadense explicita três pilares centrais de sua abordagem: o pragmatismo econômico, a diversificação de mercados e o reconhecimento da China como um parceiro comercial de grande relevância.

4.1 Pragmatismo Econômico

O Canadá passa a lidar com o sistema internacional tal como ele se apresenta, priorizando interesses nacionais concretos em detrimento de posturas ideológicas rígidas. Exemplo disso é a redução, pela China, das tarifas de importação sobre a canola canadense, de 84% para 15%, a partir de 1 de março.

Cabe destacar, ainda, que o Canadá possui um agronegócio robusto, moderno e altamente competitivo, realizando exportações agropecuárias superiores a US$ 7 bilhões anuais para a populosa China ao longo das últimas seis décadas.

4.2 Diversificação de Mercados

Reduzir a dependência excessiva do mercado norte-americano, responsável por mais de 75% das exportações canadenses, tornou-se uma questão central de segurança econômica. Apesar de ser o segundo maior parceiro comercial, a China ainda absorve apenas cerca de 4% das exportações canadenses, o que indica amplo espaço para expansão nos próximos anos.

A celebração de um acordo comercial preliminar com a China deverá promover a expansão do acesso dos produtos canadenses ao mercado chinês, sobretudo em decorrência da diminuição das tarifas de importação aplicadas. Por exemplo, sugirão novas rotas comerciais no Oceano Pacífico entre as empresas canadenses instaladas em British Columbia (BC) e as empresas chinesas sediadas em Shangai, Shenzhen e Guangzhou.

4.3 Reconhecimento da China como Grande Parceiro Comercial

Independentemente das divergências políticas, a China é uma superpotência econômica, especialmente sob a ótica do PIB PPC. Nesse sentido, o Canadá sinalizou abertura à importação de até 49 mil veículos elétricos chineses, com tarifa reduzida de 100% para 6,1%.

Já a China passou a permitir a entrada de turistas canadenses sem a exigência de visto, facilitando o acesso aos seus principais atrativos culturais, urbanos e tecnológicos. A medida diplomática possibilita que turistas das dez províncias e dos três territórios do Canadá conheçam a Grande Muralha da China, a Cidade Proibida em Beijing, os arranha-céus de Shangai, os polos de tecnologia avançada em Shenzhen e os trens de alta velocidade que integram as 23 províncias chinesas e as duas Regiões Administrativas Especiais, Hong Kong e Macau, fortalecendo a conectividade territorial, econômica, cultural e logística do país.

A China e o Canadá são países membros do Grupo dos Vinte (G20), da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização Mundial do Comércio (OMC). Portanto, tratam-se de nações que exercem papel relevante na governança econômica global, no comércio internacional e na formulação de estratégias voltadas ao desenvolvimento sustentável, a estabilidade financeira global e a paz mundial.

5. Considerações Finais

Concluindo, a visita oficial do Canadá à China representa um ponto de inflexão na política econômica externa. Em um ambiente internacional cada vez mais fragmentado, o fortalecimento de laços com a maior economia do mundo em termos de PIB PPC configura-se como uma decisão racional, pragmática e estrategicamente consistente.

Com a China consolidada como liderança econômica global e o Canadá buscando diversificação e maior autonomia comercial, o eixo Ottawa-Beijing ganha relevância não apenas no plano bilateral, mas também como símbolo de uma nova ordem econômica internacional, menos dependente dos EUA.

Por fim, ao inaugurar essa nova fase de cooperação comercial, Canadá e China sinalizam a intenção de construir uma economia mais próspera e sustentável, alinhada às exigências do mundo multipolar. As relações bilaterais são estratégicas para a promoção de melhores condições de vida tanto para os 41,5 milhões de canadenses quanto para os 1,4 bilhão de chineses.

Nesse sentido, estamos registrando as novas relações entre o Canadá e a China na Nova Ordem Mundial, com a expectativa de que o Canadá venha a ingressar no grupo econômico BRICS nos próximos anos e, no menor prazo possível, celebre um acordo de livre comércio com o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), seguindo o bom exemplo da União Europeia (UE).

(*) Economista brasileiro. WhatsApp para entrevistas e palestras: +55 (83) 98122-7221.

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