Mainha, Ariano Suassuna e eu juntos na Paraíba
Por Paulo Galvão Júnior (*)
Estimados leitores lusófonos do Portal North News, a morte, quando se aproxima de nós pelos laços mais íntimos, deixa de ser uma abstração filosófica e passa a ser uma presença concreta, silenciosa e definitiva. A perda de minha mãe, Maria Verônica Paiva da Silva, aos 79 anos de idade, na capital paraibana, reorganizou o tempo, a memória e o sentido das coisas. Nesse contexto de dor, a lembrança de sua alegria de viver como outro paraibano.
Quase simultaneamente, a lembrança da morte de Ariano Vilar Suassuna, em Recife, aos 87 anos de idade, um dos maiores intérpretes da alma nordestina, reaparece como espelho coletivo de uma dor privada. Na Paraíba, território histórico onde tradição, afeto e identidade se entrelaçam, essas ausências se encontram e dialogam.
Este artigo nasce do encontro entre três experiências. Primeiro, a morte de uma linda e querida mãe. Segundo, a morte de um intelectual paraibano que ensinou o Brasil a rir de si mesmo sem perder a dignidade. Terceiro, as minhas próprias reflexões sobre o significado da morte na atualidade.
A morte da mãe não é apenas a perda de uma pessoa; é a ruptura do primeiro vínculo com o mundo. A mãe é o início da linguagem, do cuidado e da memória afetiva. Quando ela parte, parte também um pedaço da nossa própria origem. O luto, então, não é apenas tristeza, é reaprendizado. Aprende-se a viver sem aquele olhar que nos acompanhou desde sempre, sem a voz que nos chamava pelo nome com um sentido único, sem a presença que oferecia abraços, beijos e sorrisos.
Minha mãe nasceu em Pilar, terra de José Lins do Rego (1901-1957), o maior romancista paraibano de todos os tempos, em 6 de abril de 1946. Mainha morreu em 27 de junho de 2025 em João Pessoa, capital da Paraíba, terra natal de Ariano Vilar Suassuna (1927-2014), o maior dramaturgo brasileiro de todos os tempos. O seu velório ocorreu no dia 28 de junho, coincidindo com o aniversário do meu querido pai, o professor universitário aposentado e poliglota, Paulo Francisco Monteiro Galvão, que completava 78 anos.
Ariano Suassuna, por sua vez, foi um grande escritor, professor universitário, advogado, filósofo, poeta, diretor do Departamento de Extensão Cultural da UFPE, secretário estadual de Cultura em Pernambuco e guardião da cultura popular nordestina. Com rara inteligência e generosidade, ensinou que o riso não diminui o trágico, mas o humaniza. Em sua rica obra, o sertão dialoga com o universal; a fé convive com a crítica; e a finitude humana é enfrentada com coragem, humor e profundo amor pela cultura brasileira.
As suas aulas-espetáculo eram verdadeiras celebrações da vida. Ariano, quase sempre vestido de camisa vermelha, calça e casaco pretos, com sua voz rouca, baixa e inconfundível, ensinava rindo, encantando, filosofando e declamando versos memoráveis. Transformava a sala de aula em palco, ou o palco em sala de aula, fosse em pequenos, médios ou grandes municípios, convertendo o conhecimento em afeto compartilhado. Era impossível sair ileso diante do seu encantamento com o povo brasileiro. Com certeza, todos ríamos, aprendíamos e éramos profundamente tocados pela beleza das suas palavras e pela dignidade dos seus pensamentos.
Não é por acaso que a estátua de bronze, em tamanho natural, de Ariano Suassuna se tornou um dos pontos turísticos mais fotografados da Paraíba, sobretudo, em eventos. Raramente se vê tanto carinho e admiração por um poeta, dramaturgo e professor universitário paraibano. Mesmo em silêncio, imóvel, sem mentir, sem rir, sem ler, Ariano ainda brilha, talvez mais do que nunca, como símbolo vivo de uma cultura que resiste às transformações tecnológicas, às mudanças climáticas e às alterações do próprio comportamento humano.
Na Paraíba, espaço físico e simbólico deste inesquecível encontro, a presença da ausência torna-se ainda mais eloquente. Mainha é memória íntima; Ariano é memória coletiva e o idealizador do Movimento Armorial em 1970, ano em que nasci na capital paraibana. Ariano Suassuna surge claramente como um contraponto vital ao fenômeno da cultura americanizada no Brasil e na defesa da cultura popular nordestina. Ambos, porém, permanecem vivos naquilo que ensinaram, em formas e tempos distintos. Ela, pelo amor materno, cotidiano e incondicional. Ele, pelas palavras em suas obras e suas aulas-espetáculo. A morte, nesse sentido, não apaga, apenas transforma.
Na atualidade, vivemos uma relação paradoxal com a morte. Ao mesmo tempo em que ela é banalizada por números, estatísticas e manchetes, é negada no plano pessoal, como se fosse sempre um acontecimento distante. É muito triste o aumento do feminicídio na Paraíba e no Brasil.
A perda concreta de um ser humano rompe essa ilusão passageira e nos obriga a refletir sobre o tempo, sobre o que realmente importa e sobre a urgência de viver com sonhos. Em 1611, 415 anos atrás, William Shakespeare (1564-1616) escreveu: "Somos feitos da mesma substância dos sonhos". Em 1971, 360 anos depois, Ariano Suassuna escreveu: "Nós somos prisioneiros dos sonhos".
Mainha, Ariano Suassuna e eu juntos na Paraíba (foto), nos encontramos pela primeira e última vez no moderno Centro de Convenções, não por acaso, mas por passeio de carro nas férias na linda e secular capital paraibana em janeiro do ano de 2024. A morte desses queridos paraibanos ensina-me que a vida só se sustenta pela memória, pelo afeto e pela cultura. O que permanece não é o corpo, mas aquilo que foi compartilhado, entre lágrimas e sorrisos, como o cuidado, a palavra, o exemplo e o amor.
Refletir sobre a morte hoje é, paradoxalmente, reafirmar a vida. É reconhecer a finitude como condição para a responsabilidade, para o amor e para a construção de um país melhor. Minha mãe segue viva em mim; Ariano Suassuna segue vivo no Brasil. E eu sigo, entre essas duas heranças afetivas e culturais, tentando compreender, honrar e agradecer aquilo que recebi, direta e indiretamente, em território paraibano.
Saudades de Mainha. Já se passaram sete meses desde a sua partida na UTI do Hospital Memorial São Francisco, na Torre. Duzentos e quinze dias do seu inesquecível velório na Morada da Paz, em Jaguaribe, uma ausência que não diminui com o tempo. A saudade não se mede apenas em meses ou dias, mas no silêncio que ficou, nos abraços interrompidos, na memória da minha saudosa mãe que permanece viva.
Saudades das inesquecíveis aulas-espetáculo de Ariano Suassuna, na Paraíba, em Pernambuco e em todo o Brasil, sempre em defesa da Língua Portuguesa. Ariano Suassuna é o nosso Shakespeare brasileiro, e sua obra permanece viva, conquistando novos leitores no Brasil e no mundo.
As lágrimas caem, mas é preciso enxugá-las e, sobretudo, acreditar, aos 55 anos de idade. Acreditar que é possível realizar o meu sonho, como economista paraibano, professor de Economia e de Economia Brasileira, escritor de 19 e-books de Economia, e grande admirador e leitor de Celso Monteiro Furtado (1920-2004), o maior economista brasileiro de todos os tempos: ver o Brasil no seleto grupo dos países desenvolvidos e continentais, como Canadá, Estados Unidos da América e Austrália, em pleno século XXI. Não abro mão desse sonho, porque tudo é possível, só depende de nós. Vamos pensar o Brasil como uma economia avançada na América do Sul. O Brasil pode mais.
Antes de morrer, espero ver minhas duas filhas, Priscilla e Pamella, e seus jovens esposos, Gabriel e Humberto, morando, estudando e trabalhando em países desenvolvidos (Portugal e Canadá), e não apenas pelo WhatsApp, assim como poder ver meus futuros netos brincando, nas férias, com seu avô em uma nação desenvolvida, continental e de língua portuguesa. Levanta, por favor, João Novaes Galvão (rsrsrs), e senta, por favor, sit down, please, Adam Escorel Galvão (rsrsrs), que lá vem a história! (rsrsrs). Era uma vez uma linda menina que morava em João Pessoa na Paraíba. No dia ensolorado viu pela primeira vez o mar...
(*) Paulo Galvão Júnior é economista paraibano, graduado em Economia pela UFPB e especialista em Gestão de Recursos Humanos pela UNINTER. Autor de 19 e-books de Economia, autor e co-autor de mais de 400 artigos na área, foi professor de Economia e de Economia Brasileira no UNIESP, eleito Professor Destaque pela CPA nos períodos 2016.1, 2017.1, 2017.2, 2018.2 e 2021.2. É conselheiro efetivo do CORECON-PB, presidente da Comissão de Conjuntura Econômica do CORECON-PB, diretor-secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, membro do Instituto de Inteligência Econômica em São Paulo, escritor, palestrante, colunista em diversos portais no Brasil e no Canadá e apresentador do programa Economia em Alta, na rádio web Alta Potência, em João Pessoa. Foi eleito Economista do Ano 2019 e Professor de Economia do Ano 2023 pelo CORECON-PB. WhatsApp para entrevistas e palestras: +55 (83) 98122-7221.