Estimados leitores lusófonos do Portal North News, o Brasil é um país continental, é o quinto maior país do mundo, atrás da Rússia, Canadá, China e Estados Unidos. O Brasil é tradicionalmente descrito pela expressão geográfica “Do Oiapoque ao Chuí”, que simboliza sua vasta extensão territorial.
No entanto, na atualidade, o país sul-americano enfrenta hoje um novo marco simbólico. “Do Amapá a Santa Catarina”, expressão que revela o profundo abismo da elevada inadimplência entre os 26 estados e o Distrito Federal (DF).
A inadimplência é o não pagamento de uma obrigação financeira até a data de vencimento, caracterizando descumprimento contratual. Ela gera juros, multas e restrições do Cadastro de Pessoa Física (CPF) em órgãos como a Serasa Experian.
A expressão “Do Oiapoque ao Chuí” representa a imensidão do território brasileiro, o maior país da América do Sul, do extremo norte ao extremo sul. O município de Oiapoque, no Amapá, faz fronteira com a Guiana Francesa, uma coletividade territorial única da França, enquanto Chuí, no Rio Grande do Sul, limita-se com o Uruguai.
Curiosamente, embora amplamente difundida, essa expressão não é geograficamente precisa, pois o ponto mais ao norte do Brasil é o Monte Caburaí, em Roraima, na fronteira com a Guiana. Ainda assim, a frase permanece como símbolo cultural da diversidade e abrangência nacional.
Segundo dados do Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas no Brasil, da Serasa Experian, de dezembro de 2025, 81,2 milhões de brasileiros estão inadimplentes, o que corresponde a 49,77% da população adulta. Essa média nacional, no entanto, oculta disparidades regionais alarmantes. Na região Norte, o Amapá lidera o ranking brasileiro, com 66,02% da população adulta inadimplente. Na região Sul, Santa Catarina apresenta a menor taxa, com 39,44%.
Essa discrepância do Amapá a Santa Catarina de 26,58% evidencia que a inadimplência no Brasil não é apenas um fenômeno econômico, mas também um reflexo das desigualdades estruturais entre as regiões e os estados brasileiros e o DF.
É importante evidenciar também que o deslocamento rodoviário da capital do Amapá até a capital de Santa Catarina pode ultrapassar três dias ininterruptos de viagem de ônibus, ao longo de um percurso aproximado de 4.000 quilômetros, o que ilustra de forma concreta as dimensões territoriais e os desafios logísticos do país.
Do mesmo modo, destacar que as crises financeiras possuem caráter essencialmente cíclico, elas apresentam fases de início, aprofundamento e superação. Nesse contexto, a inadimplência não deve ser compreendida como uma condição permanente. O consumidor inadimplente pode, dentro de um horizonte temporal determinado, tanto ingressar quanto sair dos cadastros de restrição ao crédito, como o mantido pela Serasa Experian, à medida que ocorre a regularização de suas obrigações financeiras no Amapá ou em Santa Catarina, como também, na Paraíba ou no Paraná.
Estados com menor dinamismo econômico, alta informalidade no mercado de trabalho e acesso limitado à Educação Financeira tendem a registrar índices mais elevados de inadimplência. Em contrapartida, unidades federativas com maior renda per capita, melhores indicadores de empregabilidade e acesso ao crédito responsável apresentam taxas significativamente menores.
O Brasil, apesar de figurar como a décima primeira maior economia do mundo, em termos de Produto Interno Bruto (PIB) nominal, vive um paradoxo. Enquanto se destaca mundialmente na produção e exportação de commodities do agronegócio, milhões de brasileiros enfrentam sérias dificuldades para manter suas contas em dia. O ano de 2025 será lembrado como um dos mais críticos em termos de inadimplência, exigindo respostas urgentes e coordenadas por parte do poder público e da sociedade civil.
A transição de inadimplente para adimplente e, futuramente, para investidor no Brasil, deve ser encarada como um processo viável e estratégico. Isso requer programas acessíveis de renegociação de dívidas, incentivo à Educação Financeira e, sobretudo, a redução da taxa Selic pelo Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central do Brasil (BACEN) e dos juros cobrados nos cartões de crédito, empréstimos pessoais e financiamentos.
Cerca de 26,1% das principais dívidas por segmento estão concentradas nos bancos e cartão de crédito. Esse dado da Serasa Experian evidencia que o endividamento das famílias brasileiras está fortemente associado às operações de crédito bancário, especialmente às modalidades de curto prazo e elevado custo financeiro. Nesse contexto, cresce a preocupação dos brasileiros com as dívidas no cartão de crédito, instrumento amplamente utilizado no consumo cotidiano, mas que, quando mal administrado, tende a gerar ciclos persistentes de inadimplência e comprometimento da renda.
Às vésperas do Carnaval em Pernambuco, ecoa o verso “Me segura senão eu caio”. É nesse cair simbólico, embalado pelo frevo pernambucano, que o país avança em passos desincronizados sobre uma linha tênue entre a euforia da festa e o desequilíbrio financeiro. Em meio à folia, entre confetes e serpentinas, o Brasil convive com a segunda maior taxa de juro real do mundo (9,44% ao ano) e com o quarto maior juro nominal do planeta (15,00% ao ano).
Diante desse cenário preocupante, impõe-se uma reflexão crítica: Como construir um futuro mais próspero para os milhões de brasileiros inadimplentes, “do Amapá a Santa Catarina”, quando o elevado custo do crédito corrói a renda, restringe o consumo e compromete a capacidade de investimento das famílias?
É urgente que, já na próxima reunião do COPOM, em Brasília, se inicie uma inflexão na política monetária, abrindo caminho para um ciclo gradual e responsável de flexibilização. A redução da taxa Selic a partir de março configura uma decisão economicamente racional diante do arrefecimento da inflação, da elevada taxa de juros reais e do peso excessivo do crédito sobre famílias e empresas.
No passo sincronizado do frevo pernambucano e da euforia carnavalesca, a economia brasileira pede fôlego, clama por fôlego para voltar a crescer com vigor. Uma política monetária expansionista estimulará o investimento produtivo, aliviará a inadimplência e reativará o consumo de bens e serviços, sem comprometer o equilíbrio macroeconômico. A queda dos juros, bem calibrada, como diz o povo que ama o Carnaval em Olinda e Recife, “Bom demais”.
Referência
SERASA EXPERIAN. Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas no Brasil: Dezembro/2025. Disponível em: https://cdn.builder.io/o/assets%2Fb212bb18f00a40869a6cd42f77cbeefc%2F31941d8fc68e421fa8793d1da45d8cd4?alt=media&token=d2726fd0-d040-45e0-9063-e7c5254a248a&apiKey=b212bb18f00a40869a6cd42f77cbeefc. Acesso em: 06 fev. 2026.
(*) Economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, membro do Instituto de Inteligência Econômica em São Paulo e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência na capital paraibana. WhatsApp para entrevistas e palestras: +55 (83) 98122-7221.