11/02/2026 às 11h14min - Atualizada em 11/02/2026 às 12h59min

O papel do Brasil na economia global após a COP30

Paulo Galvão Júnior (*), Maria Eduarda (**) & Aderlânia Nunes (***)

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Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

Paulo Galvão Júnior - jornalnorthnews.com
Fonte: Rádio Alta Potência em João Pessoa.

O papel do Brasil na economia global após a COP30

Paulo Galvão Júnior (*), Maria Eduarda (**) & Aderlânia Nunes (***)

1. Considerações iniciais

Estimados leitores lusófonos do Portal North News, a realização da 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, ou seja, a COP30, em Belém, no estado do Pará, colocou o Brasil no centro das discussões globais sobre clima, sustentabilidade, mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável.

O maior país sul-americano, historicamente reconhecido por sua vasta biodiversidade, pela imensa floresta tropical, pelos rios, pela importância estratégica da Amazônia e pelo papel relevante nos mercados de commodities agrícolas, minerais e energéticas, encontra-se diante de uma oportunidade singular, reafirmar sua influência internacional ao articular agendas ambientais com interesses econômicos.

Nesse contexto, é fundamental compreender como o Brasil pode utilizar pós-COP30 para fortalecer sua posição na economia global, atraindo investimentos externos diretos (IEDs), promovendo inovação e consolidando-se como protagonista nas transições ecológicas em curso.

Em plena Quarta Revolução Industrial, o presente artigo propõe a seguinte questão central: de que forma o Brasil pode transformar seu protagonismo ambiental em ganhos econômicos concretos no contexto da economia global?

A COP30 surge, como uma oportunidade estratégica para reposicionar o país internacionalmente, conciliando crescimento econômico, sustentabilidade ambiental e inclusão social. Diante disso, o principal objetivo é analisar o papel do Brasil na economia global após a realização da COP30, destacando os principais eixos estratégicos que podem fortalecer sua liderança internacional.

2. O papel do Brasil na economia global após a COP30

A COP30 ocorreu de 10 a 21 de novembro de 2025, embora algumas negociações se estenderam formalmente até o dia 22 de novembro, devido a prazos e acordos finais dos 195 países participantes em Belém.

Ao ligar a televisão, é possível observar os impactos das mudanças climáticas em diversos países. No Canadá, por exemplo, nevascas rigorosas têm provocado temperaturas extremas, com os termômetros registrando –37,8°C na cidade de Montreal em 1 de janeiro de 2026. Em Toronto, em alguns bairros foram medidos 60 centímetros de neve, o maior acumulado diário desde 1937. As famosas e belíssimas Cataratas do Niágara ficaram completamente congeladas, um fenômeno que não ocorria com tal intensidade há cerca de 180 anos.

Outro exemplo, em Portugal, sucessivas depressões atmosféricas, como as tempestades Kristin, Leonardo e Marta, causaram diversos danos, feridos e mortes. Houve queda de árvores, destruição de telhados, postes de energia derrubados, automóveis danificados e inundações em várias cidades, vilas e aldeias. Em Alcácer do Sal, o nível das águas subiu significativamente, atingindo carros, casas, lojas e prédios. Na vila de Leiria, os ventos fortes de mais de 150 km/h também provocaram prejuízos, incluindo interrupções no fornecimento de energia elétrica, internet e abastecimento de água potável, além de causar severos danos a residências e estabelecimentos comerciais.

Duas calamidades que estamos vivenciando demonstram que não se tratam de meros episódios do acaso, mas de fortes indícios do que pode estar por vir. Portanto, torna-se urgente refletir criticamente sobre as mudanças climáticas e seus impactos econômicos, sociais e ambientais no planeta, tema amplamente debatido na COP30, realizada em Belém, no Brasil, a décima primeira maior economia do mundo e a sétima nação mais populosa do planeta.

2.1. A centralidade da Amazônia e a diplomacia climática

A principal vantagem estratégica do Brasil no cenário climático é a Amazônia, não apenas por seu papel nos ciclos de carbono e na regulação climática global, mas também pelo vasto potencial econômico ligado à bioeconomia e aos recursos naturais.

Com a COP30, realizada na região Norte, o Brasil teve a chance de liderar uma diplomacia climática baseada no desmatamento zero, na proteção dos povos originários e na criação de mecanismos internacionais de financiamento para conservação ambiental.

Na COP30, o Brasil reforçou a integração de agendas climáticas, biodiversidade e desertificação, com promessas de transição justa e "Mapa do Caminho" para zerar o desmatamento em todos os biomas até 2030. Além de acordos de transição justa para as comunidades locais, tendo isso em vista essa preservação do bioma fortalece a credibilidade internacional do Brasil e amplia sua capacidade de negociação de acordos comerciais e ambientais.

2.2. Transição energética e diversificação produtiva

A matriz energética brasileira, uma das mais limpas do mundo, favorece a posição do país na nova economia de baixo carbono. O crescimento de fontes de energias renováveis, como solar, eólica, biomassa, maremotriz e hidrogênio verde, amplia o potencial de atrair IEDs.

O Brasil pode se firmar como produtor e exportador mundial de energia limpa, provendo insumos essenciais para cadeias globais descarbonizadas, especialmente na indústria e nos transportes.

Além disso, o país já é um ator central no mercado de biocombustíveis, com destaque para etanol e biodiesel. A COP30 reforçou o papel do Brasil na discussão sobre combustíveis sustentáveis, particularmente em setores difíceis de descarbonizar, como aviação e transporte marítimo.

O Brasil desempenha papel relevante na redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE), sobretudo por meio da expansão das fontes de energia renovável, como a solar e a eólica. Na região Nordeste, observa-se um crescimento expressivo de usinas solares e parques eólicos, ampliando a capacidade de geração de energia elétrica e contribuindo para o abastecimento dos nove estados nordestinos.

A transição energética brasileira também gera vantagens econômicas relevantes, ao reduzir custos produtivos, aumentar a competitividade das exportações e facilitar a inserção do país em cadeias globais de valor orientadas por critérios ambientais, sociais e de governança.

A conferência mundial em Belém também impulsionou o debate sobre a transição justa, com iniciativas voltadas à cooperação técnica e à requalificação profissional no setor de energias renováveis até 2030. Nesse contexto, o Brasil vem ampliando sua capacidade instalada em fontes renováveis e avançando em estratégias para a produção e exportação de hidrogênio verde, especialmente para mercados da Europa e da Ásia, reforçando sua posição como pilar da descarbonização global.

Dessa forma o Brasil possui condições de se consolidar como fornecedor estratégico de energia limpa e combustíveis sustentáveis, contribuindo para o processo de descarbonização da economia global em pleno século XXI.

2.3. Agricultura sustentável e segurança alimentar

Como um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, o Brasil é peça-chave para a segurança alimentar global. Entretanto, enfrenta o desafio de alinhar expansão produtiva com sustentabilidade socioambiental. A COP30 foi um espaço crucial para apresentar avanços em agricultura de baixo carbono (ABC), tecnologias de rastreabilidade, manejo integrado de áreas produtivas e políticas contra o desmatamento ilegal.

Esse posicionamento pode ampliar o acesso do Brasil a mercados exigentes, como União Europeia (UE), Reino Unido (RU), Estados Unidos da América (EUA) e Canadá, e fortalecer cadeias exportadoras que dependem de comprovação de sustentabilidade. É preciso destacar que a primeira COP foi em Berlim, na Alemanha, no ano de 1995 e a próxima COP será em Antalya, na Turquia, entre os dias 9 a 20 de novembro de 2026, logo, as exigências com produtos verdes serão cada vez maiores.

Adotar práticas agrícolas sustentáveis deixa de ser apenas uma exigência ambiental e passa a configurar uma vantagem competitiva no comércio internacional. Nesse sentido o plano ABC+ e a proposta de “Agricultura Tropical Sustentável” desempenham papel fundamental na redução das mudanças climáticas e na valorização da agricultura brasileira no cenário global, conforme metas e diretrizes estabelecidas em relatórios e políticas oficiais até 2030.

2.4. Mercados de carbono e financiamento climático

A expectativa de regulamentação definitiva do mercado de carbono brasileiro após a COP30 traz impactos econômicos. Com regras claras, o país pode se tornar um dos maiores provedores de créditos de carbono globais, especialmente os baseados em florestas e conservação. Isso abre portas para novos fluxos de financiamento climático; parcerias público-privadas (PPP); inovação tecnológica e científica; e inclusão de comunidades tradicionais, como os indígenas, na economia da conservação.

Contudo, o alcance dessas metas climáticas não é algo simples, para atingir o objetivo proposto é necessário um alto volume de IEDs na matriz energética. Já foi constatado que a inação pode sair ainda mais caro, segundo dados do relatório da International Chamber of Commerce (ICC), entre 2014 a 2023 quase 4.000 eventos climáticos extremos em 6 continentes causaram um prejuízo econômico de US$ 2 trilhões.

O Brasil, com seu comprometimento em transição energética limpa, já saiu na frente quando alcançou o primeiro lugar no Programa de Descarbonização da Indústria (PID), recebendo apoio para o financiamento de R$ 1,3 bilhão para ampliação de tecnologias limpas, como hidrogênio e materiais de baixo carbono.

Atualmente, o setor industrial é um dos maiores poluentes do GEE e será também um dos setores mais difíceis de descarbonizar, porém o investimento em materiais de baixo carbono poderá ser um divisor de águas no que tange a ampliação de novas tecnologias, garantindo vantagens competitivas ao Brasil em plena Indústria 4.0.

Assim, o continental, emergente, populoso, tropical e desigual Brasil pode transitar de uma posição defensiva para uma posição de liderança na economia verde na economia global.

3. Considerações finais

Concluindo, a COP30 representou muito mais do que um evento internacional sediado pelo Brasil, foi um marco estratégico para redefinir o papel do país na economia global. Ao reunir compromissos ambientais, inovação tecnológica e oportunidades econômicas, o Brasil tem condições de demonstrar que desenvolvimento e sustentabilidade podem caminhar juntos.

Para isso, será fundamental consolidar políticas internas de combate ao desmatamento, promover a transição energética, fortalecer a agricultura sustentável e estruturar mercados de carbono robustos, e, sobretudo, incentivar as energias limpas.

Para o Brasil alcançar a prosperidade econômica nos próximos anos, pós-COP30 será atrelado à capacidade brasileira de pôr em prática políticas públicas eficazes e eficientes, com capacidade de gerar crescimento econômico, redução de desigualdade social, e inovação tecnológica.

Por fim, já terminou há 82 dias, a COP30, a “COP da Verdade”, portanto, ela poderá marcar o início de uma nova fase em que o Brasil se afirma como potência ambiental, territorial, populacional, agrícola e econômica, capaz de liderar agendas globais que conciliem clima, biodiversidade, justiça social e prosperidade econômica, porque as mudanças climáticas já são uma dura realidade para a humanidade.

Referências

BRASIL. Descarbonização da indústria: Brasil fica em 1º lugar em programa global e receberá mais de R$ 1 bilhão. Secretaria de Comunicação Social. Publicado em 16 jun. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/noticias/2025/06/descarbonizacao-da-industria-brasil-fica-em-1o-lugar-em-programa-global-e-recebera-mais-de-r-1-bilhao. Acesso em: 12 jan. 2026.

BRASIL AGRO. COP30: A proposta do agro do Brasil. 5 de novembro. 2025. Disponível em: https://www.brasilagro.com.br/conteudo/cop30-a-proposta-do-agro-do-brasil-ea-agricultura-tropical-sustentavel.html. Acesso em: 21 dez. 2025.

G1. COP30 aprova acordos com meta de financiamento triplicar. 21 de novembro. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/meio-ambiente/cop-30/noticia/2025/11/22/cop30-aprova-acordos-sem-mapa-do-caminho.ghtml. Acesso em: 21 dez. 2025.

INFOAMAZÔNIA. Na COP30, pesquisadores pedem ampliação da meta. 17 de novembro. 2025. Disponível em: https://infoamazonia.org/2025/11/17/na-cop30-pesquisadores-pedem-ampliacao-da-meta-brasileira-de-desmatamento-zero-ate-2030/. Acesso em: 21 dez. 2025.

INTERNATIONAL CHAMBER OF COMMERCE (ICC); OXERA. The economic cost of extreme weather events. 2024. Disponível em: https://iccwbo.org/wp-content/uploads/sites/3/2024/11/2024-ICC-Oxera-The-economic-cost-of-extreme-weather-events.pdf. Acesso em: 12 jan. 2026.

WCS Brasil. COP30 avança em Belém com foco nas sinergias. 12 de novembro. 2025. Disponível em: https://brasil.wcs.org/pt-br/WCS-Brasil/Noticias/ID/25588.aspx. Acesso em: 21 dez. 2025.

(*) Economista brasileiro, com graduação em Ciências Econômicas pela UFPB e com especialização em Gestão de RH pela FATEC Internacional. Atualmente, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor-secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, membro do Instituto de Inteligência Econômica em São Paulo e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência. WhatsApp para entrevistas e palestras: +55 (83) 98122-7221.

(**) Bacharela em Ciências Econômicas pela UFPB. WhatsApp: +55 (81) 99187-5633.

(***) Bacharela em Ciências Econômicas pela UFPB. WhatsApp: +55 (83) 98205-7550.

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