Por Paulo Galvão Júnior (*)
Estimados leitores lusófonos do Portal North News, a Guerra no Oriente Médio reposicionou o petróleo no epicentro da economia global. O barril de petróleo do tipo Brent avançou de US$ 73,21 em 27 de fevereiro para US$ 84,49 em 5 de março de 2026, registrando alta de US$ 11,28 (15,41%) em apenas oito dias. Mais do que uma oscilação conjuntural, essa valorização incorpora um expressivo prêmio de risco geopolítico aos preços internacionais da energia.
O aumento do barril de petróleo decorrente de conflitos armados configura um típico choque negativo de oferta, com efeitos sistêmicos. Embora países exportadores de petróleo, como o Canadá, e empresas exportadoras, como a Petrobras, possam observar ganhos de receita no curto prazo, a valorização causada por instabilidade militar eleva riscos macroeconômicos e financeiros, afetando toda a cadeia produtiva do setor energético.
No epicentro do conflito armado está o Irã, a terceira maior reserva de petróleo do mundo, que detém cerca de 209 bilhões de barris, aproximadamente 12% das reservas globais. O Irã é também o nono maior produtor mundial de petróleo, com produção diária estimada em 3,5 milhões de barris, de acordo com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).
As exportações iranianas de petróleo sofrem sanções econômicas dos EUA desde 1979, após a Revolução Iraniana, logo, a República Islâmica do Irã não está entre os dez maiores exportadores de petróleo, liderados por Arábia Saudita, com 7,3 milhões de barris por dia, e a Rússia, com 4,7 milhões de barris por dia, de acordo com a OPEP. O Irã exporta US$ 47 bilhões de petróleo para o mundo e muito petróleo para a China e a Índia, os três são países asiáticos e membros do grupo econômico BRICS.
Soma-se a isso a importância estratégica do Estreito de Ormuz, localizado entre o Irã e o Omã, o estreito que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, e por onde circula cerca de 20% do petróleo transportado por via marítima. O Irã declarou exercer controle total sobre o Estreito de Ormuz, podendo restringir ou impedir a passagem de navios petroleiros e outras embarcações comerciais. Essa postura já reduz significativamente o tráfego marítimo internacional, gera aumento dos prêmios de seguro e eleva custos logísticos globais.
A insegurança na região é agravada por ataques iranianos a embarcações marítimas, incluindo navios petroleiros da Saudi Aramco, a maior empresa produtora de petróleo da Arábia Saudita e do mundo. Esses incidentes aumentam a volatilidade dos preços e impactam diretamente a regularidade do fornecimento global.
Os principais efeitos macroeconômicos do aumento do barril de petróleo incluem: i) Pressão inflacionária global; ii) Elevação dos custos industriais e logísticos; iii) Encargos sobre a cadeia de alimentos, dada a dependência de insumos energéticos; iv) Postura mais cautelosa dos bancos centrais; e v) Risco de desaceleração do crescimento econômico.
O petróleo é um insumo que tem caráter transversal na economia mundial. Seu encarecimento afeta transporte, indústria, agricultura e geração de energia, reduz margens empresariais e compromete decisões de investimento. Países importadores de petróleo, como China, Índia e Japão, sofrem deterioração nos termos de troca, com impacto sobre câmbio e contas externas.
Caso o conflito armado envolvendo Israel e Estados Unidos da América (EUA) contra o Irã se prolongue, o cenário pode evoluir para estagflação, fenômeno historicamente associado a choques de petróleo como os de 1973 e 1979. A persistência das tensões aumenta prêmios de risco, dificulta o planejamento financeiro de empresas, compromete fluxos de investimento externo direto (IED) e amplia a volatilidade nos mercados futuros de commodities.
Para empresas petrolíferas, como a Petrobras, o contexto impõe o dilema entre alinhar-se aos preços internacionais ou proteger o mercado interno. Embora a valorização do petróleo aumente receitas no curto prazo, e a valorização das ações ordinárias (ON) e ações preferenciais (PN) da Petrobras atraia novos investidores arrojados, o ambiente é marcado por incerteza.
Preços elevados também reforçam incentivos à transição energética. Investimentos em energias solar e eólica, e em biocombustíveis, especialmente etanol, no qual o Brasil possui vantagem comparativa, poderá reduzir a dependência global de combustíveis fósseis e fortalecer a matriz energética nacional no médio e longo prazo.
No plano microeconômico, as famílias enfrentam pressão direta sobre o orçamento em decorrência do encarecimento dos combustíveis. No Canadá, o preço da gasolina registrou aumento de 6 centavos, elevando o preço médio para CAD$ 1,439 por litro em Toronto. Nos EUA, a alta foi de 11 centavos, alcançando cerca de US$ 3,11 por galão em Nova York. Em Campina Grande, o preço da gasolina subiu 20 centavos com os reflexos das tensões no Oriente Médio.
Esses reajustes, ainda que aparentemente modestos em termos absolutos, produzem impacto acumulativo relevante sobre as despesas mensais das famílias, especialmente em economias com elevada dependência do transporte individual. Em contextos de instabilidade energética global, alternativas como mobilidade cicloviária, transporte público mais eficiente e geração distribuída de energia solar tornam-se decisões economicamente racionais, ao reduzir a exposição doméstica à volatilidade internacional dos preços do petróleo e fortalecer a resiliência financeira das famílias.
Os impactos econômicos com a escalada militar no Oriente Médio se estendem também ao turismo internacional. Cancelamentos de milhares de voos para os aeroportos do Oriente Médio provocaram prejuízos em companhias aéreas, hotéis, resorts, restaurantes, agências de viagem e casas de câmbio. O receio dos turistas internacionais ainda hospedados em cidades como Dubai, Abu Dhabi, Doha, Petra e Jerusalém intensifica-se diante da incerteza sobre o retorno aos seus países de origem.
O turismo internacional registrou crescimento em 2025, com 1,523 bilhão de chegadas de turistas internacionais, conforme dados da ONU Turismo. Entretanto, em 2026, o turismo tende a figurar entre os mais impactados pela Guerra no Oriente Médio, diante da instabilidade geopolítica, do aumento do risco percebido pelos turistas estrangeiros e dos cancelamentos de voos e pacotes turísticos para esta milenar região da Ásia.
As exportações do agronegócio brasileiro, como carne de frango, madeira, açúcar, milho e soja, também sofrem efeitos negativos. O aumento dos custos logísticos, a volatilidade cambial e possíveis restrições operacionais nas rotas comerciais reduzem a previsibilidade dos embarques, pressionam margens de lucro e elevam o risco comercial para exportadores do agro brasileiro.
O aumento do barril de petróleo impulsionado por conflitos armados funciona como termômetro da instabilidade internacional. Até que haja cessar-fogo e restauração da confiança internacional, o equilíbrio entre energia, geopolítica e crescimento econômico permanecerá frágil. A paz é o melhor caminho para as nações. É muito triste os gritos de dor na guerra.
Infelizmente, após sete dias de Guerra no Oriente Médio, o número de vítimas fatais já atingiu 1.230 pessoas no Irã, de acordo com Human Rights Activists News Agency (HRANA). Além disso, registram-se 102 mortos no Líbano, 13 no Iraque, 10 em Israel, 4 na Síria, 3 nos Emirados Árabes Unidos (EAU), 3 no Kuwait, 1 no Omã e 1 no Bahrein, além de 6 militares dos EUA. No total, o conflito já contabiliza 1.373 mortes na região e, lamentavelmente, irá crescer em progressão geométrica, evidenciando a rápida escalada militar em 16 países (no Azerbaijão duas pessoas morreram por ataques de drones iranianos) e seu elevado custo humanitário, sobretudo entre civis.
Esse cenário preocupante amplia o risco de intensificação regional e de agravamento da instabilidade geopolítica em escala global. Após a morte do aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo da República Islâmica do Irã, um país persa na Ásia, ainda é prematuro estabelecer uma previsão precisa para o término do atual conflito armado no Oriente Médio, dada a complexidade geopolítica envolvida na região. Conflitos dessa natureza costumam apresentar dinâmica imprevisível, dependendo de fatores diplomáticos, militares, energéticos, políticos, religiosos e econômicos.
Sob a perspectiva econômica, é amplamente reconhecido que crise econômica, especialmente aquelas associadas a choques de oferta, como no mercado de petróleo, tendem a seguir um comportamento cíclico, com fases de intensificação, acomodação e eventual estabilização. Nesse contexto, as projeções de elevação do preço do barril de petróleo tipo Brent para patamares próximos a US$ 100 refletem o aumento do prêmio de risco geopolítico incorporado aos mercados internacionais.
É necessário evidenciar também os relevantes impactos econômicos sobre os preços internacionais do gás natural, ressaltando que o Catar é o maior produtor de gás liquefeito de petróleo (GLP) do Oriente Médio e o terceiro maior exportador mundial do mundo, um importante exportador de gás natural liquefeito (GNL) para a China, a Índia e a Europa, o que pode provocar volatilidade nos mercados internacionais de energia.
Outro impacto econômico significativo refere-se à volatilidade dos preços internacionais dos fertilizantes. A intensificação de conflitos no Oriente Médio tende a pressionar o mercado global desses insumos, elevando os preços globais e gerando efeitos diretos sobre os custos de produção no setor agrícola, e, consequentemente, nos preços dos alimentos.
Com tantos impactos econômicos, abre-se uma janela estratégica para países exportadores de energia limpa e biocombustíveis. A ampliação da produção e da exportação de etanol poderá representar uma oportunidade econômica relevante, sobretudo como alternativa renovável aos combustíveis fósseis, contribuindo para diversificação da matriz energética e mitigação de impactos inflacionários internos, além de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE).
Portanto, momentos de instabilidade internacional, embora desafiadores, também podem gerar oportunidades estratégicas para economias com capacidade produtiva e inserção competitiva no setor energético. É muito preocupante os mísseis, foguetes e drones da Guarda Revolucionária iraniana atingindo o Porto de Haifa (Israel) ou Aeroporto Internacional de Dubai (EAU). É impressionante ver as lindas piscinas dos hotéis de Dubai sem a presença de turistas internacionais para aproveitá-las.
Diante desse cenário incerto, o conflito armado no Oriente Médio estende-se, até o momento, por cerca de uma semana. Considerando como marco inicial da guerra o dia 28 de fevereiro, o presidente americano Donald Trump mencionou a possibilidade de o conflito armado se prolongar entre quatro e cinco semanas.
No entanto, o período de intensa destruição na região poderá ultrapassar dois meses. Esse quadro preocupante é agravado por ações do Hezbollah e dos Houthis, além das decisões do novo líder supremo do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei, que assume o poder após 47 anos de regime islâmico. Soma-se ainda a possibilidade de uma incursão terrestre de forças curdas no Irã, com forte apoio militar dos EUA.
Finalizando, é hora de ampliar investimentos em energias renováveis, fortalecer a produção de biocombustíveis e reduzir a dependência de importações de petróleo e derivados, elas se constituem uma agenda ambiental, uma estratégia econômica de médio e longo prazo. É hora de pensar no Plano Nacional de Metas Verdes para o Brasil entre 2027 e 2030.
Diante de tudo isso, resta-nos apenas de joelhos rezar pela paz no mundo. Shalom!
(*) Paulo Galvão Júnior é economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, membro do Instituto de Inteligência Econômica em São Paulo, apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência, colunista do Portal North News, escritor e palestrante. WhatsApp para entrevistas e palestras: +55 (83) 98122-7221.
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