Por Paulo Galvão Júnior (*)
Estimados leitores lusófonos do Portal North News, hoje, 9 de março de 2026, celebramos os 250 anos da publicação da obra-prima do economista escocês Adam Smith (1723-1790), “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”. Publicado em 9 de março de 1776, em Londres, a capital do Reino Unido (RU), o livro tornou-se um marco fundamental na História do pensamento econômico e consolidou seu autor como o pai da economia moderna e do liberalismo econômico.
Ao longo de dois séculos e meio, A Riqueza das Nações influenciou profundamente a forma como empresas, trabalhadores e governos compreendem a produção de riqueza, o comércio e o funcionamento dos mercados. Em um contexto internacional marcado por tensões comerciais e disputas tarifárias entre países desenvolvidos e emergentes, o debate sobre livre comércio (free trade) e protecionismo comercial volta a ganhar relevância, tornando as reflexões de Smith ainda mais atuais.
A chamada guerra comercial (trade war) teve início em 1º de fevereiro de 2025, quando, em Washington, o presidente Donald Trump, que ocupou o cargo de 45º e atualmente exerce o de 47º presidente dos Estados Unidos da América (EUA), assinou uma ordem executiva impondo tarifas sobre importações provenientes do Canadá, México e China. As tarifas protecionistas foram de 10% sobre todas as importações chinesas e de 25% sobre produtos do Canadá e do México. No caso do petróleo e do gás natural provenientes desses dois países vizinhos, a taxação foi fixada em 10%, passando a vigorar em 4 de fevereiro daquele ano.
Posteriormente, em 2 de abril de 2025, Trump apresentou, nos jardins da Casa Branca, em Washington, uma tabela detalhando tarifas protecionistas aplicáveis a mais de 100 países, estabelecendo alíquotas diferenciadas sobre produtos importados como parte de sua estratégia para conter a perda de empregos industriais nos EUA, o país mais rico do mundo em termos de Produto Interno Bruto (PIB) nominal.
Nesse contexto, torna-se ainda mais instigante refletir sobre a relevância contemporânea do pensamento econômico de Adam Smith no século XXI. Em outra medida protecionista, Trump assinou um decreto que dobrou as tarifas de importação de aço e alumínio, elevando-as de 25% para 50%. A decisão afetou diretamente países como Canadá, México e Brasil, importantes fornecedores desses produtos para o mercado norte-americano. Tal cenário contrasta com a defesa do livre comércio formulada por Smith no final do século XVIII.
É importante ressaltar que o economista austríaco Joseph Schumpeter considerava Smith “o mais famoso de todos os economistas”. Segundo Schumpeter, A Riqueza das Nações seria “o mais bem-sucedido dos livros não apenas de economia, mas, possivelmente — com exceção de On the Origin of Species de Charles Darwin — de todos os livros científicos publicados até então”.
Uma das ideias mais conhecidas de Adam Smith é a de que o interesse individual pode gerar benefícios coletivos. Em uma passagem célebre do Livro I, Capítulo II, ele escreveu: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse” (SMITH, 1983, p. 50).
Para Smith, quando indivíduos buscam melhorar sua própria condição de vida, produzindo, comerciando e inovando, acabam contribuindo, ainda que indiretamente, para o desenvolvimento da sociedade como um todo.
Esse mecanismo foi posteriormente sintetizado na famosa metáfora da mão invisível (invisible hand), expressão que descreve como as ações individuais, coordenadas pelo mercado, podem levar à alocação eficiente de recursos escassos.
O pensamento econômico de Adam Smith representou uma ruptura com duas correntes dominantes de sua época. O mercantilismo, predominante entre os séculos XV e XVIII, defendia que a riqueza de uma nação estava associada ao acúmulo de metais preciosos, especialmente ouro e prata, obtidos por meio de uma balança comercial superavitária. Já a fisiocracia, desenvolvida por economistas franceses e liderados pelo economista François Quesnay no século XVIII, sustentava que a agricultura seria a única fonte real de riqueza de uma nação.
Smith criticou ambas as visões e propôs uma nova interpretação em pleno Século das Luzes. Para Smith, a riqueza das nações resulta da produtividade do trabalhador, da divisão do trabalho, da acumulação de capital e da liberdade econômica.
Logo no início de A Riqueza das Nações, Smith destaca o papel central da divisão do trabalho para o aumento da produtividade. Ele afirma: “O maior aprimoramento das forças produtivas do trabalho, e a maior parte da habilidade, destreza e bom senso com os quais o trabalho é em toda parte dirigido ou executado, parecem ter sido resultados da divisão do trabalho” (SMITH, 1983, p. 17).
A produtividade do trabalhador foi analisada por Adam Smith no célebre exemplo da fábrica de alfinetes apresentado em A Riqueza das Nações. Ao descrever a divisão das tarefas no processo produtivo, Smith demonstrou que a especialização do trabalho aumenta significativamente a eficiência e a produtividade, constituindo um dos principais fatores de geração de riqueza de uma nação.
Na fabrica de Kirkcaldy eram 10 trabalhadores e aproximadamente 18 operações distintas para a produção com máquinas de um simples alfinete. Ao especializar tarefas e funções, trabalhadores tornam-se mais eficientes, elevando a produção e impulsionando o crescimento econômico. Esse princípio tornou-se uma base fundamental para a organização da indústria moderna e para o desenvolvimento do capitalismo industrial vigente no século XVIII até chegar ao capitalismo informacional vigente no século XXI.
Smith também apresentou o conceito de vantagens absolutas, defendendo que os países deveriam se especializar na produção de bens em que possuem maior eficiência, favorecendo o comércio internacional e a prosperidade global.
Adam Smith foi um grande defensor do livre comércio, pois argumentava que a ampliação das trocas internacionais de mercadorias não constitui um jogo de soma zero entre nações. Ao contrário, o comércio internacional funciona como um mecanismo de geração de riqueza compartilhada, no qual todos os países envolvidos podem se beneficiar, configurando uma relação de ganhos mútuos, ou seja, ganha-ganha.
É preciso destacar que Adam Smith nasceu em 5 de junho de 1723, na cidade portuária de Kirkcaldy, no Condado de Fife, no sul da Escócia. Filho único de um funcionário da alfândega, foi criado por sua mãe, Margaret Douglas, após a morte prematura de seu pai, Adam Smith. A querida mãe do economista Adam Smith e segunda esposa de Adam Smith, descendia de proprietários de terras do Condado de Fife.
Smith teve uma trajetória acadêmica brilhante na University of Glasgow, fundada em 1451, onde foi estudante, professor e posteriormente reitor. Durante sua carreira intelectual, manteve contato com importantes pensadores do Iluminismo europeu, entre eles, os filósofos Voltaire, Denis Diderot e Jean-Jacques Rousseau, além do economista francês Anne Robert Jacques Turgot.
Foi também amigo do engenheiro escocês James Watt, ao reinventar a máquina a vapor de Thomas Newcomen, e um dos símbolos tecnológicos da Revolução Industrial que mudou os rumos das fábricas britânicas.
Smith começou a escrever A Riqueza das Nações enquanto atuava como tutor do jovem aristocrata Henry Scott, futuro 3º Duque de Buccleuch, durante uma estadia em Toulouse, na França.
A obra é composta por dois volumes em cinco livros que abordam diferentes aspectos da economia política: Livro Primeiro: As Causas do Aprimoramento das Forças Produtivas do Trabalho e a Ordem Segundo a qual sua Produção é Naturalmente Distribuída Entre as Diversas Categorias do Povo; Livro Segundo: A Natureza, o Acúmulo e o Emprego do Capital; Livro Terceiro: A Diversidade do Progresso da Riqueza nas Diferentes Nações; Livro Quarto: Sistemas de Economia Política; Livro Quinto: A Receita do Soberano ou do Estado.
Embora Smith defendesse a liberdade econômica, ele não propunha a ausência total do Estado. Em sua visão, caberia ao Estado garantir segurança, justiça, infraestrutura e educação, criando as condições institucionais necessárias para o funcionamento eficiente do mercado.
Adam Smith nunca casou e não teve filhos no RU. Nos últimos anos de sua vida, Adam Smith atuou como administrador aduaneiro no Porto de Edimburgo. Após enfrentar uma grave doença, faleceu em 17 de julho de 1790, aos 67 anos de idade.
Foi sepultado no cemitério da Igreja de Canongate, em Edimburgo, a capital da Escócia, onde uma inscrição simples recorda um gênio: “Aqui estão depositados os restos mortais de Adam Smith, autor da A Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações”. Smith morreu um ano e três dias após o início da Revolução Francesa (1789), um dos grandes acontecimentos políticos do século XVIII.
Duzentos e cinquenta anos após sua publicação, A Riqueza das Nações continua sendo uma das obras mais influentes da História das Ciências Econômicas. Seus princípios, como liberdade econômica, divisão do trabalho, livre comércio, lei da oferta e da demanda, e eficiência produtiva, moldaram o desenvolvimento do capitalismo e do comércio global.
A gaita de fole, o kilt e o whisky são símbolos da Escócia conhecidos mundialmente. A Escócia é um dos quatro países integrantes do RU e está localizada ao norte da Inglaterra. A Riqueza das Nações é um dos livros mais importantes da humanidade e foi publicada em Londres em 9 de março de 1776. Aos 53 anos de idade, o filósofo iluminista Adam Smith torna-se o primeiro economista do mundo. E posteriormente, um dos símbolos da Escócia.
Adam Smith discutiu a riqueza e a pobreza na Escócia e na Europa e no mundo. Na Revolução Industrial, ele enfatizou que: “Onde quer que haja grande propriedade, há grande desigualdade. Para cada pessoa muito rica deve haver no mínimo quinhentos pobres, e a riqueza de poucos supõe a indigência de muitos” (SMITH, 1983, p. 164).
Adam Smith foi um grande professor de Filosofia Moral na University of Glasgow, na cidade mais populosa da Escócia. Em uma de suas reflexões mais humanistas, afirmou: “Nenhuma sociedade pode florescer e ser feliz se a maioria de seus membros é pobre e miserável” (SMITH, 1983, p. 101). Essa célebre frase revela que, para Adam Smith, o verdadeiro objetivo da economia não era apenas produzir riqueza, mas promover prosperidade e bem-estar para toda a sociedade.
Logo, com lucidez econômica defendemos, em 9 de março de 2026, o Acordo de Livre Comércio entre o Canadá e o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). Free Trade Forever! Vamos ler, reler e ler de novo "A Riqueza das Nações" de Adam Smith!
(*) Paulo Galvão Júnior é economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba em João Pessoa, membro do Instituto de Inteligência Econômica (IIE) em São Paulo, apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência em João Pessoa, escritor, palestrante e colunista do Portal North News em Toronto. WhatsApp para entrevistas e palestras: +55 (83) 98122-7221.