Estimados leitores lusófonos do Portal North News, percorrer o Canadá, o segundo maior país em extensão territorial do mundo, atrás apenas da Rússia, por meio de suas bibliotecas, é compreender, em profundidade, a própria formação social, econômica e cultural do país.
Em uma nação de dimensões continentais, bilíngue (inglês e francês), multicultural, de clima frio e marcada por assimetrias geográficas e econômicas entre suas dez províncias, as bibliotecas assumem um papel estratégico, pois constituem centros estruturantes de difusão do conhecimento, inclusão social, formação de capital humano e preservação da memória coletiva.
Esta viagem imaginária e literária parte da costa do Oceano Pacífico, em Vancouver, na província de Colúmbia Britânica, e atravessa o país até alcançar as províncias do Oceano Atlântico, revelando a maior biblioteca de cada província como expressão de sua densidade populacional, estrutura econômica e prioridades institucionais. Não percorremos os três territórios canadenses: Yukon, Territórios do Noroeste e Nunavut.
Na Costa Oeste, na Colúmbia Britânica, a Vancouver Public Library (VPL) simboliza a força urbana e multicultural da província. Com um acervo de aproximadamente 10,4 milhões de itens (livros, e-books, audiobooks, CDs, DVDs, games, discos de vinil, jornais e revistas), a instituição pública reflete o dinamismo de Vancouver como porta de entrada do Pacífico e polo de inovação tecnológica. VPL é uma biblioteca contemporânea, de arquitetura icônica e inspirada no Coliseu de Roma, atuando como espaço de convivência, inclusão digital e integração social em nove andares, com escadas rolantes e elevadores. Com uma linda vista na cobertura da VPL agora no outono.
Avançando para vizinha Alberta, a Calgary Public Library evidencia a centralidade da produção científica e tecnológica. Com cerca de 10,0 milhões de itens, apoiando pesquisas estratégicas nas áreas de energia, engenharia e ciências aplicadas, segmentos econômicos fundamentais para a economia provincial, fortemente vinculada à indústria de petróleo e gás.
Em Saskatchewan, a Saskatoon Public Library (SPL) representa o papel das bibliotecas como instrumentos de coesão social. Embora menor em escala, com aproximadamente 1,0 milhão de itens, sua relevância está na capilaridade dos serviços e no forte atendimento comunitário, essenciais em uma província de baixa densidade populacional, mas altamente competitiva no agronegócio canadense.
Na província de Manitoba, a Winnipeg Public Library (WPL) destaca-se como um importante polo cultural e histórico. Com cerca de 4,0 milhões de itens, a biblioteca reflete a diversidade étnica de Winnipeg e sua relevância como centro logístico e econômico da região central do país, além de desempenhar papel ativo na preservação da memória local.
Ao chegar à província de Ontário, destaca-se o maior sistema público de bibliotecas do país, a Toronto Public Library (TPL). Com um acervo de aproximadamente 10,6 milhões de itens, localizado em Toronto, principal centro econômico canadense, esse sistema reflete a elevada concentração de população, renda e infraestrutura da cidade. Tais fatores contribuem diretamente para a robustez, a diversidade de serviços e o elevado grau de sofisticação de sua rede bibliotecária.
Em Quebec, a Bibliothèque et Archives nationales du Québec (BAnQ) sintetiza a identidade cultural francófona. Com cerca de 10,0 milhões de itens, com cinco andares, a instituição ultrapassa a função tradicional de biblioteca, atuando também como arquivo nacional da província, preservando documentos históricos da língua francesa na América do Norte.
A transição para as quatro províncias canadenses do Atlântico revela outra realidade. Em New Brunswick, o New Brunswick Public Library Service (NBPLS) demonstra a importância de sistemas descentralizados, com aproximadamente 2,0 milhões de itens distribuídos em diversas comunidades. O bilinguismo oficial da província reforça o papel integrador dessa rede.
Na Nova Scotia, a Halifax Public Libraries, com cerca de 1,1 milhão de itens, atua como eixo intelectual da região atlântica. Halifax, historicamente um importante porto, encontra na moderna biblioteca um ponto de convergência entre tradição e modernidade, com forte atuação em programas culturais, educacionais e de inclusão social.
Na Ilha do Príncipe Eduardo, o Prince Edward Island (PEI) Public Library Service evidencia o papel das bibliotecas em pequenas comunidades. Com aproximadamente 500 mil itens, sua relevância está menos na escala e mais na proximidade com a população, promovendo acesso equitativo à informação, alfabetização e fortalecimento do tecido social.
Por fim, na Costa Leste, em Terra Nova e Labrador, a Newfoundland and Labrador Public Libraries (NLPL), com cerca de 1,5 milhão de itens, cumpre uma função estratégica em províncias geograficamente isoladas, garantindo acesso ao conhecimento em um território marcado por desafios logísticos, dispersão populacional e condições climáticas adversas.
As bibliotecas canadenses estão abertas aos próprios canadenses, imigrantes legais e turistas internacionais. São instituições públicas altamente relevantes, tanto para o fortalecimento da economia, em um país da América do Norte que figura entre as dez maiores do mundo em termos de PIB nominal, quanto para a sustentação de um IDH muito elevado.
Como afirmou o poeta T. S. Eliot, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1948: “A própria existência de bibliotecas oferece a melhor evidência de que ainda podemos ter esperança para o futuro do homem”. Na Tabela 1 podemos visualizar a maior biblioteca pública de cada província canadense da Costa Oeste até a Costa Leste:
| Tabela 1: A maior biblioteca pública de cada província canadense (2026) | |||
|---|---|---|---|
| Província | Maior Biblioteca | Cidade | Nº de itens |
| Colúmbia Britânica | VPL | Vancouver | 10,4 milhões |
| Alberta | Calgary Public Library | Calgary | 10,0 milhões |
| Saskatchewan | SPL | Saskatoon | 1,0 milhão |
| Manitoba | WPL | Winnipeg | 4,0 milhões |
| Ontário | TPL | Toronto | 10,6 milhões |
| Quebec | BAnQ | Montreal | 10,0 milhões |
| New Brunswick | NBPLS | Fredericton | 2,0 milhões |
| Nova Scotia | Halifax Public Libraries | Halifax | 1,1 milhão |
| Ilha do Príncipe Eduardo | PEI Public Library Service | Charlottetown | 0,5 milhão |
| Terra Nova e Labrador | NLPL | St. John's | 1,5 milhão |
| Fonte: Elaborado pelo próprio autor. | |||
A Tabela 1 revela claramente que as províncias mais ricas e populosas, especialmente Ontário e Quebec, concentram os maiores acervos, refletindo sua posição como núcleos econômicos e culturais do país e como polos de formação de capital humano qualificado.
Os dados apresentados na Tabela 1 são estimativas aproximadas dos principais sistemas públicos de bibliotecas por província canadense, podendo variar conforme a metodologia de contagem de acervo, o ano de referência e a natureza institucional de cada fonte.
A Toronto Public Library, por exemplo, destaca-se não apenas pelo volume de itens, com cinco andares, por dois elevadores panorâmicos, com internet gratuita e de alta velocidade, mas pela magnitude de sua estrutura administrativa e diversidade de serviços, evidenciando elevada demanda por serviços públicos de informação em uma economia intensiva em conhecimento.
Cabe destacar que cada um dos 140 bairros de Toronto conta com sua própria unidade de biblioteca pública. Os usuários da TPL recebem gratuitamente o TPL card que permitem passes gratuitos em diversas atrações e eventos culturais na mais populosa cidade do Canadá.
Na pradaria canadense, observa-se a moderna Calgary Public Library, que está aberta durante o dia, à noite e aos fins de semana, demonstra como províncias economicamente dinâmicas investem fortemente em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e inovação tecnológica, utilizando bibliotecas como infraestrutura essencial ao avanço tecnológico e científico, com acesso a dezenas de computadores e notebooks para os usurários cadastrados na biblioteca.
Já nas quatro províncias do Atlântico, a análise indica um número reduzido de itens não representa fragilidade institucional, mas sim adaptação à realidade demográfica. Nessas províncias, as bibliotecas desempenham papel crucial na inclusão social, na redução de desigualdades provinciais e na integração territorial.
Outro ponto relevante é a diversidade de modelos institucionais, com sistemas públicos urbanos altamente centralizados, como em Toronto, contrastam com redes provinciais descentralizadas, como em New Brunswick e na Ilha do Príncipe Eduardo. Essa heterogeneidade evidencia a capacidade do Canadá de ajustar políticas públicas às especificidades provinciais.
A geografia das bibliotecas canadenses revela muito mais do que números, ela expõe um país que equilibra eficiência econômica com inclusão social, tendo a leitura e o acesso universal à informação como pilares estruturantes do desenvolvimento do Canadá em pleno século XXI.
Vale à pena destacar que o ato de ler constitui uma forma singular de imaginação. Ler é sonhar acordado, viajar sem sair do lugar e expandir horizontes por meio do conhecimento. Pela leitura, torna-se possível explorar culturas, compreender realidades distintas e vivenciar experiências que transcendem limites geográficos, como o prazer de conhecer o Canadá por meio das suas bibliotecas públicas, por exemplo.
Concordando com o físico alemão Albert Einstein, Prêmio Nobel da Física em 1921, “A única coisa que você absolutamente precisa saber, é a localização da biblioteca”. Essa viagem imaginária pelas bibliotecas púbicas de Vancouver a St. John's, hoje, demonstra que a verdadeira riqueza do Canadá não está apenas em seus imensos recursos naturais (petróleo, gás natural, ouro, níquel, zinco, cobre, florestas, lagos, rios, montanhas, etc.), mas, sobretudo, em sua capacidade de formar capital humano por meio da educação de qualidade e da leitura.
Os canadenses e os imigrantes legais vivem em um país onde ler é fácil, incentivado e valorizado e isso faz toda a diferença para conquistar 63% de adultos de 25 a 64 anos de idade com ensino superior completo no ano de 2025, conforme a OCDE.
O Canadá tem o melhor IDH do continente americano, com IDH de 0,939 em 2023, segundo o PNUD, pois compartilha exatamente essa característica, com investimento contínuo em conhecimento, cultura e acesso à informação. Nesse contexto, as bibliotecas canadenses consolidam-se como instituições estratégicas para a cidadania, a inovação tecnológica e a construção de uma economia avançada e baseada no conhecimento, o ouro do século XXI.
(*) Paulo Galvão Júnior é economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, membro do Instituto de Inteligência Econômica (IIE) em São Paulo, integrante do Grupo de Reforma Tributária da Paraíba (GRT-PB) em João Pessoa, apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência na capital paraibana, escritor, palestrante e colunista do Portal North News (Toronto), da SAM Consultoria (São Paulo), do Portal Valentina (João Pessoa), do NotíciaExtra.com (João Pessoa) e da Revista Nordeste (João Pessoa). WhatsApp para palestras e entrevistas: +55 (83) 92000-4420.