Estimados leitores lusófonos do Portal North News, neste 5 de maio, data em que se celebra o Dia Mundial da Língua Portuguesa, impõe-se uma reflexão que transcende a dimensão cultural e alcança questões estruturais do desenvolvimento sustentável. A língua portuguesa, falada por mais de 287 milhões de pessoas em quatro continentes, conecta não apenas povos, mas também desafios comuns, sobretudo em um contexto global marcado também pelas mudanças climáticas.
A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), composta por nove países lusófonos, constitui um espaço estratégico de cooperação diante de um cenário desafiador, os eventos climáticos extremos emergem como um dos maiores desafios contemporâneos, exigindo respostas coordenadas, integradas e sustentáveis.
No estado da Paraíba, conhecido por suas belezas naturais e relevância histórica no Brasil, enfrenta um dos episódios climáticos mais severos das últimas três décadas. As chuvas intensas, iniciadas no Dia Internacional do Trabalhador, provocaram cenas dramáticas amplamente difundidas nas mídias sociais, com ruas transformadas em rios, pessoas e animais arrastados pela correnteza, casas invadidas pela água e famílias inteiras em situação de desespero. Trata-se de uma tragédia humana e material de grandes proporções.
O município de Santa Rita, cortado pelos rios Paraíba e Preto, exemplifica a vulnerabilidade estrutural do estado. A ausência de sistemas eficazes de contenção de cheias, como barragens, canais e drenagem adequada, ampliou os impactos da inundação, evidenciando a fragilidade do planejamento urbano diante de eventos extremos.
As chuvas torrenciais, persistentes por vários dias, sobrecarregaram completamente a infraestrutura urbana. Houve queda de árvores, postes e pontes, interrupção de rodovias e comprometimento de serviços essenciais em mais de 30 municípios. Em áreas urbanas, residências e estabelecimentos comerciais foram invadidos pela água; nas zonas rurais, comunidades ficaram isoladas, com perdas relevantes na agropecuária.
O impacto social é profundo. Mais de 2.700 pessoas encontram-se desalojadas e mais de 800 desabrigadas, muitas tendo perdido moradia, bens e documentos. A insegurança alimentar se intensifica, enquanto escolas, unidades de saúde, ginásios esportivos e equipamentos públicos têm seu funcionamento comprometido. Trata-se de uma crise humanitária que atinge de forma desproporcional as populações mais vulneráveis, agravada por deslizamentos, transbordamento de rios e alagamentos generalizados.
No campo econômico, os prejuízos são expressivos. Pequenos negócios, atividades agropecuárias, comércio e turismo sofreram interrupções ou perdas diretas. Danos à infraestrutura logística, como buracos e enormes crateras nas rodovias, ampliam os efeitos negativos sobre a economia paraibana, dificultando a retomada das atividades produtivas.
Diante da gravidade da situação, o governador Lucas Ribeiro decretou estado de emergência por 180 dias em mais de 30 municípios paraibanos. A medida estadual evidencia não apenas a intensidade do evento climático, mas também problemas estruturais históricos, como a ocupação irregular de áreas de risco e a deficiência dos sistemas de drenagem urbana e rural.
Esse episódio não é isolado. No Brasil e no mundo, eventos extremos, como enchentes, secas, incêndios florestais, furacões e ciclones, têm se tornado mais frequentes e intensos. O caso do Rio Grande do Sul, com graves inundações; a intensificação de furacões em estados costeiros dos Estados Unidos; os incêndios florestais no Canadá; e os episódios de DANA na Espanha; elas reforçam a dimensão global da crise climática.
As mudanças climáticas, associadas ao aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e ao aquecimento global, alteram padrões atmosféricos e elevam a probabilidade de eventos extremos. Sem ações efetivas de mitigação e adaptação, tragédias como a observada na Paraíba tendem a se tornar cada vez mais recorrentes.
Vale destacar também que nos nove países da CPLP, os impactos assumem diferentes formas, com incêndios florestais e depressões atmosféricas em Portugal; elevação do nível do mar em países insulares, como Cabo Verde; e secas severas em nações africanas, como Angola e Moçambique, provocando perdas agrícolas, escassez de água e agravamento da vulnerabilidade socioeconômica.
No contexto nordestino, em especial paraibano, torna-se evidente a necessidade de superar um modelo centrado em respostas emergenciais, e avançar para uma abordagem preventiva e estruturante. Isso implica investimentos em infraestrutura resiliente, planejamento urbano sustentável, monitoramento climático e fortalecimento institucional.
Mais do que isso, impõe-se uma mudança de paradigma, a transição de uma economia marrom, baseada em combustíveis fósseis, para uma economia verde, alicerçado no crescimento econômico, com inclusão social e com preservação ambiental.
Nesse sentido, a elaboração de um Plano de Desenvolvimento Sustentável para a Paraíba (2027-2030) assume caráter estratégico. Um Plano de Metas Verdes, estruturado nas quatro mesorregiões do estado, poderá orientar investimentos em energias renováveis, reduzir vulnerabilidades sociais e gerar empregos verdes.
A tragédia recente deixa uma lição inequívoca, pois os custos da inação são elevados. Recursos públicos que poderiam ser destinados ao desenvolvimento sustentável acabam sendo redirecionados para ações emergenciais de reconstrução, perpetuando um ciclo de vulnerabilidade social.
Ao mesmo tempo, a resposta rápida da população paraibana revela a força da solidariedade. Voluntários, equipes de resgate, funcionários públicos e comunidades religiosas mobilizam-se para salvar vidas, apoiar desabrigados, desalojados e reconstruir o que foi perdido, mesmo diante de um cenário de dor, sofrimento e incerteza. É hora de doar cestas básicas, água mineral, roupas, colchões, cobertores, toalhas de banho, lençóis, brinquedos, calçados e material de limpeza e de higiene para as vítimas das piores chuvas da Paraíba nos últimos 30 anos.
Neste Dia Mundial da Língua Portuguesa, mais do que celebrar a cultura lusófona, recomendar a leitura de obras de grandes escritores paraibanos, como José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Ariano Suassuna e Celso Furtado, é fundamental ajudar as vítimas e reconhecer a responsabilidade socioambiental compartilhada entre os povos lusófonos que partilham esse idioma. A língua portuguesa nos une; as mudanças climáticas nos convocam à ação verde. Hoje, mais do que nunca, é tempo de plantar soluções verdes.