09/05/2026 às 10h10min - Atualizada em 09/05/2026 às 10h10min

"Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria" e a anatomia da maternidade sobrecarregada

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Luana Saturnino

Luana Saturnino

Coluna 'Sob a lente da crítica', com Luana Saturnino: Photographer | Journalist | Visual artist -- siga no Instagram @saturnino.ph

Rose Byrne em “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” (Foto: Reprodução)

Body horror e realismo fantástico são gêneros narrativos perfeitos para os dilemas contemporâneos. O horror corporal (body horror) por exemplo tem sido aplicado para as narrativas femininas no cinema como questionamento e metáfora da desromantização de vários assuntos ligados ao que é ser mulher. Já o realismo fantástico ou realismo mágico, é um estilo perfeito para metaforizar desafios mentais e sociais.

A ficção atual flerta bastante com ambos, mas poucos projetos recentes parecem abraçar o caos existencial como o filme "Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria” de Mary Bronstein. O longa-metragem transita entre o niilismo e a comédia ácida, entregando uma experiência que é tanto um exercício de estilo quanto um manifesto contra a passividade social.

O enredo segue Linda, uma mulher extremamente sobrecarregada como tantas, sobretudo no que diz respeito à maternidade e trabalho. Linda é mãe de uma criança cronicamente doente, psicóloga de clientes que invadem sua vida pessoal, esposa de um marido ausente e inquilina de um proprietário negligente.

Até o hospital que atende a filha de Linda terceiriza a ela o cuidado médico e impõe metas inalcançáveis a fim de recusar uma cirurgia que traria alívio a situação. Quando o teto da casa onde ela mora desaba e o imovel inunda parece um sintoma de que o mundo está caindo sobre a sua cabeça.

O texto é o grande protagonista. As linhas de diálogo são carregadas de um cinismo que lembra o teatro do absurdo, mas adaptado para as ansiedades urbanas de 2026. O título, por si só, já estabelece o tom: uma declaração de intenções sobre a imobilidade. O título claramente expressa toda a raiva que a personagem sente de um mundo que demanda muito dela ao ponto de paralisá-la e levar à exaustão. Uma sociedade moldada para lhe tirar as pernas e não oferecer alguma mão.

A atuação de Rose Byrne como Linda apresenta um corpo tão cansado e expressões tão frustradas que é impossível não sentir raiva e tensão junto. Não é à toa que ela foi indicada ao prêmio de melhor atriz do Oscar em 2026. A estreia de Asap Rocky no cinema é uma ótima escolha.

O rapper, marido de Rihanna, tem sim talento e adiciona um frescor gentil muito bem vindo em meio a todas as micro agressões e passivo-agressividade de quase todos os personagens. Até o famoso apresentador Conan O’Brien faz uma figura nada carismática e entrega uma ótima performance como o terapeuta e colega de trabalho que não contribui em nada na vida de Linda.

A produção se destaca pela curadoria estética apurada tão característica da agência produtora badalada A24. É perceptível que o orçamento modesto da A24 prioriza de forma prática uma direção de arte que transforma o cotidiano em algo levemente distorcido, quase onírico.

O uso de cores saturadas em ambientes estéreis reforça o isolamento dos personagens. O realismo mágico transforma um buraco no teto em um portal que nos traz ao caos e à transformação. Até a sonda alimentar da filha de Linda ganha muitos simbolismos aqui.

O filme questiona a incapacidade de agir diante das injustiças e dos próprios desejos, usando a metáfora física para discutir a paralisia emocional. “Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria” provoca reflexões reais sobre a apatia moderna, exaustão materna e a sobrecarga feminina. Ser mãe é padecer no paraíso, mas em uma sociedade que empurra demandas extraordinárias o padecimento é enlouquecedor e o paraíso é inalcançável.

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