23/05/2026 às 12h13min - Atualizada em 23/05/2026 às 12h57min

O crescimento do PIB do Canadá provavelmente voltou a ser positivo no primeiro trimestre de 2026 após a contração no quarto trimestre de 2025

Paulo Galvão Júnior (*)

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Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

Paulo Galvão Júnior - jornalnorthnews.com

Considerações iniciais

Estimados leitores lusófonos do Portal North News, o Canadá atravessa atualmente um período de recuperação econômica fraca, marcado por desafios estruturais, desaceleração demográfica e sinais graduais de fortalecimento da atividade econômica.

Com população estimada em aproximadamente 41,4 milhões de habitantes em janeiro de 2026, o Canadá registrou inflação anual de 2,8% em abril de 2026 e taxa de desemprego de 6,9% no mesmo mês, segundo dados da agência oficial de estatísticas do Canadá, a Statistics Canada.

Após a desaceleração observada no final de 2025, a economia canadense começa a emitir sinais consistentes de retomada econômica. O Produto Interno Bruto (PIB) recuou 0,2% no quarto trimestre de 2025, refletindo principalmente a forte redução dos estoques empresariais e a persistente fragilidade do mercado imobiliário residencial. Embora o desempenho negativo tenha surpreendido parte dos economistas, os fundamentos econômicos por trás da retração econômica mostraram-se menos preocupantes do que sugeriam as manchetes iniciais.

Entretanto, os indicadores disponíveis para o início de 2026 apontam para uma gradual mudança de trajetória. Estimativas da Royal Bank of Canada (RBC) Economics Research indicam que o PIB canadense provavelmente voltou a crescer no primeiro trimestre de 2026, em ritmo anualizado próximo de 1,7%, impulsionado, sobretudo, pela recuperação da demanda doméstica.

Ao contrário de uma deterioração generalizada da economia canadense, a contração observada no fim de 2025 decorreu majoritariamente de fatores específicos e temporários. O consumo das famílias, os gastos governamentais e parte dos investimentos empresariais continuaram apresentando expansão, enquanto o principal fator negativo esteve associado à redução dos estoques acumulados anteriormente e à continuidade da queda do investimento residencial.

Mercado imobiliário continua sendo um ponto vulnerável

O Canadá, segundo maior país do mundo em extensão territorial, atrás apenas da Rússia, continua apresentando no setor habitacional uma de suas principais fragilidades econômicas. A desaceleração das revendas de imóveis e o elevado custo do crédito seguem limitando novos investimentos residenciais, cenário ainda influenciado pelas condições monetárias restritivas.

Segundo o Banco do Canadá, a taxa básica de juros encontrava-se em 2,25% ao ano, em abril de 2026, patamar inferior aos picos recentes, como 5,00% ao em abril de 2024, mas ainda suficientemente elevado para restringir parte do dinamismo imobiliário.

Apesar dessa debilidade, o crescimento dos gastos das famílias e do setor público tem compensado parcialmente a fraqueza do mercado habitacional, evitando desaceleração mais acentuada da atividade econômica.

Outro aspecto relevante refere-se ao comércio exterior. O aumento das importações no primeiro trimestre de 2026 tende a reduzir a contribuição líquida do setor externo para o PIB, podendo retirar pontos percentuais do crescimento agregado. Todavia, esse movimento também pode ser interpretado como sinal de fortalecimento da economia canadense, já que importações maiores frequentemente refletem expansão do consumo e da aquisição de máquinas, equipamentos e insumos produtivos pelas empresas distribuídas nas dez províncias e três territórios canadenses.

Fatores temporários também influenciaram a dinâmica econômica recente. Greves relevantes nos setores de educação e transporte prejudicaram o desempenho do quarto trimestre de 2025, mas o retorno gradual das atividades econômicas e dos trabalhadores aos seus postos ajudou a impulsionar a economia canadense nos primeiros meses de 2026.

Desaceleração demográfica e avanço do PIB per capita

Um dos aspectos mais acompanhados pelos economistas atualmente é a desaceleração do crescimento populacional canadense. Nos últimos anos, o Canadá experimentou forte expansão demográfica impulsionada pela imigração, especialmente pela entrada de residentes temporários e não permanentes. Contudo, esse processo perdeu intensidade recentemente nas dez províncias e nos três territórios do país.

Segundo análises da RBC Economics Research, a redução do contingente de residentes temporários sugere crescimento populacional bastante limitado no primeiro trimestre de 2026, fenômeno que pode favorecer avanço mais expressivo do PIB per capita, indicador econômico que oferece retrato mais preciso da evolução do padrão de vida da população.

O PIB per capita do Canadá em 2025 ficou em torno de US$ 55.765, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Esse cenário reforça a expectativa de melhora gradual das condições econômicas per capita ao longo de 2026, após o avanço registrado em 2025, considerado o primeiro crescimento desse indicador em três anos consecutivos.

Todavia, essa trajetória permanece condicionada a fatores externos relevantes, sobretudo à estabilização dos preços internacionais do petróleo e à ausência de nova escalada das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos, que continua representando fonte potencial de incerteza para a economia canadense.

PIB indica expansão no primeiro trimestre de 2026

Os indicadores reforçam a percepção de continuidade da recuperação econômica, ainda que em ritmo moderado e desigual entre os diferentes setores produtivos. As estimativas econômicas da RBC Economics Research sugerem crescimento real de aproximadamente 1,7% no primeiro trimestre de 2026.

O avanço foi sustentado principalmente pelo desempenho do setor atacadista, especialmente nos segmentos de máquinas, equipamentos e suprimentos, refletindo maior volume de entregas e expansão da demanda institucional. A produção industrial, com destaque para a cadeia automotiva, também manteve trajetória de recuperação após interrupções observadas anteriormente.

Por outro lado, parte desses ganhos foi compensada pela desaceleração dos setores de mineração, petróleo e gás, além do enfraquecimento da atividade varejista em março, demonstrando que a retomada canadense continua ocorrendo de forma heterogênea entre os diversos segmentos produtivos.

Economia canadense em recuperação, mas cercada de incertezas

O bilíngue e multicultural Canadá não enfrenta atualmente um quadro de recessão profunda, mas sim uma fase de crescimento econômico baixo, sustentado principalmente pelo mercado interno e pelos gastos governamentais.

A combinação de inflação relativamente controlada, recuperação gradual do PIB e melhora do desempenho econômico per capita oferece sinais encorajadores para 2026. Entretanto, persistem desafios relevantes, como o desemprego relativamente elevado, a fragilidade do setor imobiliário, a desaceleração demográfica e as incertezas ligadas ao comércio internacional e aos preços da energia, especialmente do barril de petróleo tipo Brent.

Esses fatores continuam limitando uma retomada mais robusta da economia canadense, embora o país permaneça como uma das economias mais desenvolvidas do planeta, caracterizada por elevada renda per capita, forte capacidade institucional, diversificada base produtiva e muito elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

O Canadá é um país rico e integrante do Grupo dos Sete (G7), do Grupo dos Vinte (G20), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) e do Acordo Canadá-Estados Unidos-México (CUSMA), condição que reforça sua inserção estratégica na economia global e sua relevância geopolítica e comercial no século XXI.

Segundo estimativas do FMI, o PIB nominal canadense alcançou US$ 2,32 trilhões em 2025, consolidando o país como a décima maior economia do mundo em valores correntes e a segunda maior da América do Norte, atrás apenas dos Estados Unidos.

Perspectivas econômicas para o Canadá no ano da Copa do Mundo de 2026

No ano em que sediará, juntamente com Estados Unidos e México, partidas da Copa do Mundo FIFA de 2026, as perspectivas econômicas canadenses permanecem moderadamente positivas, embora acompanhadas de cautela.

A realização do megaevento esportivo poderá produzir impactos favoráveis sobre segmentos econômicos como hotelaria, gastronomia, transporte, entretenimento e comércio, sobretudo em cidades-sede como Toronto e Vancouver. Ademais, investimentos em infraestrutura e serviços associados tendem a gerar efeitos multiplicadores localizados sobre o emprego e a atividade econômica.

Contudo, os efeitos macroeconômicos da Copa do Mundo não devem ser superestimados. O desempenho da economia canadense continuará dependendo fundamentalmente do comportamento do mercado imobiliário, da política monetária do Banco do Canadá, da evolução dos preços energéticos diante dos sérios impactos da Guerra na Ucrânia e da Guerra no Oriente Médio e da estabilidade das relações comerciais com os Estados Unidos, além das primeiras medidas emergenciais em aeroportos e portos após a explosão de casos de ebola na África, especialmente na República Democrática do Congo, de Ruanda e de Uganda.

Assim, o cenário mais provável para 2026 é de crescimento econômico relativamente baixo, em linha com as projeções do Banco do Canadá, que estimam expansão do PIB em torno de 1,2% neste ano, enquanto da RBC Economics Reserach é de 1,5% no quarto trimestre de 2026. A perspectiva de inflação relativamente controlada e de avanço gradual do PIB per capita aponta para uma recuperação econômica cautelosa, porém consistente, em uma das economias mais avançadas, diversificadas e integradas do mundo.

(*) Paulo Galvão Júnior é economista brasileiro e colunista do Portal North News em Toronto. WhatsApp: +55 (83) 92000-4420.

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