20/06/2026 às 09h14min - Atualizada em 20/06/2026 às 08h14min

O novo episódio da guerra comercial por parte dos EUA contra o Brasil nos 250 anos de A Riqueza das Nações

Paulo Galvão Júnior (*)

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Paulo Galvão Júnior

Paulo Galvão Júnior

Economista paraibano, autor de 18 e-Books de Economia, conselheiro do CORECON-PB e diretor secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da PB.

Paulo Galvão Júnior - jornalnorthnews.com

Recentemente, eu participei pelo YouTube do COFECON, do debate online "Tarifas, comércio e poder: o que está em jogo entre Brasil e EUA?", com o economista brasileiro Otaviano Canuto, uma das principais referências brasileiras em economia internacional, sendo ex-vice-presidente do Banco Mundial e do BID, ex-diretor do FMI, em Washington, nos EUA, e membro sênior do Policy Center for the New South, em Rabat, no Marrocos.

Em 2026, ano que celebramos os 250 anos da publicação do célebre livro A Riqueza das Nações, de 1776, de Adam Smith (1723-1790), o mundo assiste a mais um episódio de tensões comerciais protagonizado pelos EUA, o país mais rico do mundo em termos de PIB nominal.

A obra clássica, do Pai da Economia Moderna, sempre associada aos princípios do livre comércio e da redução de barreiras econômicas, contrasta com medidas protecionistas que continuam presentes nas relações internacionais dos EUA.

O presidente norte-americano Donald Trump adotou, em abril de 2025, tarifas recíprocas contra diversos países, incluindo os vizinhos Canadá e México, além de outras nações, como China, Índia, Japão, Alemanha, Peru, Itália, África do Sul e Brasil. A China foi o único país que retaliou as tarifas protecionistas dos EUA.

O tarifaço adotado por Trump impactou a economia brasileira, particularmente as empresas exportadoras da pauta comercial brasileira destinadas aos 50 estados dos EUA, provocando perda de competitividade, retração das exportações em determinados segmentos e maior instabilidade nas relações comerciais bilaterais.

Convém destacar que os EUA apresentam superávit comercial nas relações de comércio exterior com o Brasil, evidenciando que a economia norte-americana exporta mais produtos ao mercado brasileiro do que importa do Brasil. Esse fato relativiza argumentos protecionistas contra as exportações brasileiras, uma vez que a corrente de comércio bilateral já proporciona resultados favoráveis aos EUA.

Em 1º de junho de 2026, o USTR, com sede em Washington, por determinação do presidente americano Trump, concluiu uma investigação iniciada em 2025 e propôs a aplicação de tarifas de importação adicionais de 25% sobre diversos produtos brasileiros.

Segundo o governo norte-americano, a medida decorre de preocupações relacionadas ao comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, políticas anticorrupção e questões ambientais.

A iniciativa reacendeu o debate sobre o uso de tarifas como instrumento de pressão econômica e política. Embora os EUA defendam a medida como mecanismo de proteção de seus interesses estratégicos, economistas alertam para possíveis impactos sobre o comércio bilateral, que supera dezenas de bilhões de dólares americanos anuais.

Entre os segmentos econômicos potencialmente afetados estão à indústria química, o agronegócio, a indústria de calçados, a indústria siderúrgica (aço bruto) e a indústria de alumínio, com reflexos sobre investimentos, cadeias produtivas e competitividade das exportações brasileiras.

Ao mesmo tempo, a proposta prevê exceções relevantes. Produtos brasileiros como carne bovina, café, suco de laranja, frutas tropicais, medicamentos, minerais estratégicos e diversos itens da indústria aeronáutica ficaram fora da lista inicial, indicando a preocupação norte-americana em preservar cadeias produtivas consideradas essenciais para sua economia.

Atualmente, diversos produtos brasileiros exportados para os EUA estão sujeitos a uma tarifa de importação de 10%, vigente desde fevereiro de 2026. Caso o governo americano aprove uma sobretaxa adicional de 25 pontos percentuais, a carga tarifária total poderá alcançar 35%, reduzindo a competitividade dos produtos Made in Brazil e ampliando os desafios para as exportações brasileiras no mercado estadunidense.

O novo episódio da guerra comercial por parte dos EUA contra o Brasil nos 250 anos de A Riqueza das Nações evidencia uma das principais características da economia global do século XXI, sendo a coexistência entre discursos favoráveis à abertura dos mercados e práticas de defesa de interesses nacionais por meio de tarifas, subsídios e regulamentações.

Duzentos e cinquenta anos após as reflexões liberais do filósofo e economista escocês Adam Smith sobre os benefícios do livre comércio (free trade), todavia, o comércio internacional continua sendo um espaço de disputas geopolíticas, tecnológicas e estratégicas.

Adam Smith foi um defensor incansável do livre comércio no século XVIII. Suas ideias continuam surpreendentemente atuais diante de líderes protecionistas como Trump, que iniciou uma guerra comercial (trade war) amplamente criticada contra o Canadá e o México, além de impor tarifas a parceiros tradicionais e aliados históricos dos EUA, entre eles, a França e o Brasil, por exemplos.

Vale ressaltar que os EUA tenham uma forte ligação histórica com os pensamentos econômicos de Adam Smith, desde 1776. Porém, o primeiro país a colocar em prática e a adotar de forma oficial o liberalismo econômico clássico foi o Reino Unido, ao abolir práticas mercantilistas e adotar políticas de livre comércio, como a revogação das Leis dos Cereais (Corn Laws) e das Leis de Navegação no século XIX.

É preciso destacar também que as tarifas protecionistas foram propostas pelo USTR e ainda dependem da conclusão do processo para implementação em território norte-americano. O prazo para envio de manifestações escritas vai até o dia 1º de julho. Uma audiência pública será realizada no dia 6 de julho, e o prazo legal para que o governo norte-americano tome a decisão vai até o dia 15 de julho.

Concluindo, o desfecho da questão comercial ainda dependerá das próximas etapas do processo nos EUA, incluindo consultas públicas e análise das manifestações recebidas. Independentemente da decisão final, o caso reforça que a competição econômica entre nações permanece como um dos elementos centrais da nova ordem mundial.

(*) Paulo Galvão Júnior é economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, membro do Instituto de Inteligência Econômica (IIE), integrante do Grupo de Reforma Tributária da Paraíba (GRT-PB) e apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência em João Pessoa. WhatsApp para palestras e entrevistas: +55 (83) 92000-4420.

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