Considerações Iniciais
Estimados leitores lusófonos do Portal North News, o documento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), intitulado "Construindo o Brasil 2050: A Indústria na Agenda dos Presidenciáveis", composto por 297 páginas ilustradas, 21 gráficos, 4 tabelas e 2 figuras, foi entregue aos pré-candidatos à Presidência da República nas eleições 2026 durante evento realizado no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, no Distrito Federal (DF), Brasil.
Como economista paraibano, conselheiro efetivo do Conselho Regional de Economia da Paraíba (CORECON-PB), agente de política industrial pela Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba, e, sobretudo, como bisneto do empresário industrial Francisco Olegário de Vasconcellos Galvão, proprietário da fábrica de sucos de frutas F. Galvão & Cia., que iniciou suas atividades em 1951, na Rua da Areia, no secular Varadouro, dedicada à produção de sucos de maracujá, abacaxi, caju e jenipapo e encerrando suas operações fabris nesse endereço em 1969, na capital paraibana, e tendo como vizinho a renomada empresa Dore Refrigerantes do empresário inglês Sidney Clement Dore, que utilizava o espaço fabril para produzir o Guaraná Dore desde 1911 e o refrigerante Grapette (franquia americana) desde 1948, hoje, apresento, a seguir, onze comentários técnicos sobre esse relevante estudo da CNI, que propõe prioridades, uma agenda estratégica voltada a elevar a competitividade da economia brasileira e impulsionar o desenvolvimento industrial nos próximos vinte e quatro anos.
1. Endividamento Público Elevado
Um dos desafios estruturais destacados pela CNI, com sede em Brasília e cujo atual presidente é o empresário industrial baiano Antonio Ricardo Alvarez Alban, para o crescimento econômico do Brasil é a elevada dívida pública. Em 2025, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) atingiu 78,6 % do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, de acordo com o Banco Central do Brasil (BACEN), um patamar elevado para uma economia emergente.
Esse nível de endividamento reduz a capacidade de investimento do setor público, amplia os gastos governamentais com juros e limita a margem de atuação das políticas fiscais voltadas ao crescimento sustentado, dinâmico e inovador.
2. Processo de Desindustrialização Precoce da Economia Brasileira
A participação da indústria de transformação no PIB brasileiro recuou de 35,9% em 1985 para 13,7% em 2025, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso representa uma redução de 61,84% em sua participação relativa ao longo dos últimos 40 anos.
O dado do IBGE evidencia um intenso processo de desindustrialização precoce, com impactos relevantes sobre a produtividade por hora trabalhada, a inovação tecnológica, a geração de empregos qualificados e a competitividade internacional da economia brasileira.
3. O Desconhecimento sobre o Papel da Indústria na Economia Brasileira
Apesar de sua importância estratégica para o desenvolvimento nacional, o papel da indústria na economia brasileira muitas vezes é subestimado no debate público. Existe a percepção de que o setor industrial perdeu relevância diante da expansão das atividades de serviços e do avanço da economia digital. No entanto, os dados econômicos demonstram que a indústria continua sendo um dos principais pilares da geração de riqueza, da inovação tecnológica e do aumento da produtividade.
Com base em informações das Estatísticas Econômicas do Século XX e do Sistema de Contas Nacionais, do IBGE, a CNI destaca que o setor secundário, formado pela indústria de transformação, indústria extrativa, construção civil e serviços industriais de utilidade pública, exerce papel fundamental na agregação de valor à produção nacional, na difusão de tecnologia e na elevação da competitividade da economia brasileira.
A experiência internacional reforça essa constatação. As economias que alcançaram elevados níveis de renda e desenvolvimento sustentaram seu crescimento em uma estrutura industrial sólida, inovadora e competitiva. Nesse contexto, a indústria representa um setor econômico, um importante vetor de modernização produtiva e progresso tecnológico.
No Brasil, sua relevância também pode ser observada pelos efeitos multiplicadores sobre a atividade econômica. A indústria de transformação responde por 47,5% das exportações brasileiras de bens e serviços e contribui diretamente para a geração de empregos qualificados e para a expansão da renda. Segundo a CNI, cada R$ 1 investido na indústria gera aproximadamente R$ 2,69 em valor para a economia brasileira, evidenciando sua capacidade de estimular diversos segmentos produtivos e impulsionar o crescimento econômico do País.
4. Baixa Inserção da Indústria Brasileira no Comércio Internacional
A participação do Brasil nas exportações mundiais da indústria de transformação alcançou apenas 0,92% em 2024, segundo dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Vale destacar que caiu em relação ao ano de 1990 quando era 1,05%.
O indicador da OCDE revela a limitada inserção internacional da indústria brasileira e reforça a necessidade de políticas voltadas à competitividade global, à inovação tecnológica, à modernização produtiva e à ampliação da presença do País nas cadeias globais de valor.
A CNI é totalmente favorável finalizar a negociação do Acordo de Livre Comércio entre o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e o Canadá. Além de defensor de iniciar tratativas com Japão e Reino Unido, por exemplos.
5. Déficit Histórico de Infraestrutura Logística
Apesar dos investimentos realizados nas últimas décadas, a malha ferroviária brasileira ainda se restringe a cerca de 30 mil quilômetros (km) de extensão de trilhos. Considerando que o Brasil possui aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados (km²) e ocupa a quinta posição entre os seis maiores países do mundo em área territorial, a densidade ferroviária nacional permanece baixa quando comparada à de outros países continentais, como Rússia, Canadá, EUA, China e Austrália.
Tal cenário evidencia um déficit histórico de infraestrutura logística, com impactos diretos sobre os custos de transporte, a integração regional e a competitividade do setor produtivo.
6. Elevado Número de Obras Públicas Paralisadas
Chama atenção a elevada quantidade de obras financiadas com recursos públicos federais que permanecem paralisadas. De acordo com o Tribunal de Contas da União (TCU), o Brasil registrou 11.469 obras paralisadas em abril de 2025.
Esse cenário evidencia problemas relacionados ao planejamento estatal, à gestão pública, ao financiamento e à execução dos investimentos públicos, resultando em desperdício de recursos governamentais e atraso na entrega de infraestrutura essencial à população brasileira.
7. Insuficiência dos Investimentos em Saneamento Básico
Segundo dados da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), os investimentos em saneamento básico totalizaram R$ 32,8 bilhões em 2024. Embora expressivo em termos absolutos, esse montante ainda é insuficiente para universalizar os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário dentro dos prazos estabelecidos pelo Marco Legal do Saneamento Básico de 2020.
Dados recentes do Instituto Trata Brasil indicam que 84,1% da população brasileira possui acesso à água potável, enquanto apenas 56,7% conta com serviços de coleta e tratamento de esgoto. Esses indicadores revelam que milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso adequado ao saneamento básico, situação que gera impactos negativos sobre a saúde pública, reduz a produtividade do trabalho e compromete a preservação ambiental.
Nesse contexto, torna-se fundamental ampliar os investimentos públicos e privados no segmento de saneamento básico. Além de contribuir para a redução do déficit de infraestrutura, tais investimentos promovem benefícios econômicos, sociais e ambientais duradouros, elevando a qualidade de vida da população e favorecendo o desenvolvimento sustentável do País.
8. Baixa Produtividade da Economia Brasileira
O estudo da CNI destaca que o crescimento sustentado do Brasil depende diretamente do aumento da produtividade. Entre 1981 e 2024, a produtividade por hora trabalhada cresceu em média apenas 0,5% ao ano, segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE).
Nas últimas quatro décadas, a produtividade do trabalho no País apresentou evolução muito modesta quando comparada às economias desenvolvidas e continentais, como os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália, e a países emergentes e continentais, como a China e a Rússia.
O fortalecimento da indústria, a melhoria da infraestrutura logística, a simplificação tributária e a modernização regulatória são fatores essenciais para elevar a eficiência econômica e acelerar o crescimento do PIB per capita, que cresceu em média apenas 1,0% entre 1981 e 2024, conforme o FGV IBRE.
9. Necessidade de Ampliação dos Investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação
O documento da CNI evidencia que a inovação tecnológica constitui um dos principais motores da competitividade industrial contemporânea. O Brasil ainda investe relativamente pouco em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) quando comparado às economias avançadas, como a Coreia do Sul, com 5,13% do PIB em 2024, conforme a OCDE.
De acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o investimento nacional em PD&I permanece estagnado em um patamar de 1,19% do PIB em 2024. Atualmente, o Brasil é a décima maior economia do mundo em termos de PIB nominal, com PIB de US$ 2,64 trilhões, segundo as estimativas de 2026 do Fundo Monetário Internacional (FMI).
O fortalecimento da interação entre empresas, universidades e centros de pesquisa é fundamental para ampliar a capacidade inovadora nacional e aumentar a sofisticação tecnológica da produção industrial.
10. Carências na Qualificação do Capital Humano
A formação de capital humano é apresentada como condição indispensável para a transformação produtiva do País. A indústria do futuro exigirá profissionais cada vez mais qualificados em áreas como engenharia, tecnologia da informação (TI), automação, inteligência artificial (IA) e economia verde.
Em economias emergentes como a República Federativa do Brasil, grandes investimentos em educação básica de qualidade, ensino técnico-profissionalizante e capacitação continuada serão decisivos para elevar a produtividade e a competitividade da economia brasileira até 2050.
Atualmente, o Brasil ocupa a 13ª posição mundial em produção científica, segundo a base Scopus, mas apenas a 52ª colocação no Índice Global de Inovação 2025, calculado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI).
11. Enfretamento as Mudanças Climáticas
A CNI está apta e disposta a colaborar no enfrentamento simultâneo dos desafios de mitigação e adaptação às mudanças climáticas em todas as cinco regiões do Brasil. A entidade patronal destaca a importância do adensamento das cadeias produtivas estratégicas para a descarbonização e a transição energética do país, como as cadeias de extração, beneficiamento e processamento de minerais críticos, além da cadeia produtiva do etanol e do hidrogênio de baixo carbono.
O país concentra cerca de 20% da biodiversidade do planeta e abriga a maior floresta tropical do mundo, além do rio mais volumoso da Terra, configurando uma vantagem comparativa no cenário internacional. Porém, o Brasil sofrerá os impactos em um contexto marcado pela ocorrência do Super El Niño.
Considerações Finais
Os indicadores apresentados pela CNI no "Construindo o Brasil 2050: A Indústria na Agenda dos Presidenciáveis", revelam desafios estruturais que limitam o potencial de crescimento da economia brasileira, que cresceu em média apenas 2,3% ao ano entre 2000 e 2024. A indústria brasileira é muito prejudicada com os elevados tributos e com os altos juros.
A combinação de elevado endividamento público, perda de participação da indústria de transformação no PIB brasileiro, desconhecimento sobre o papel da indústria na economia brasileira, baixa inserção internacional, déficit histórico de infraestrutura logística, elevado número de obras públicas paralisadas, déficits de saneamento básico, baixa produtividade por hora trabalhada, baixos investimentos em PD&I, carências na qualificação profissional e mudanças do clima reforçam a necessidade de uma agenda nacional voltada ao aumento da competitividade, ao fortalecimento da indústria, à modernização do Estado brasileiro, à mitigação e adaptação às mudanças climáticas, e à promoção de um crescimento econômico robusto, socialmente justo e ambientalmente sustentável até 2050.
Mais do que um diagnóstico, o relevante estudo da CNI constitui uma proposta estratégica de longo prazo para aumentar a produção e o consumo de bens industrializados em plena Indústria 4.0, para impulsionar a economia brasileira e para reposicionar o Brasil entre as dez economias mais dinâmicas e industrializadas do mundo nas próximas duas décadas.
Parabéns a CNI! Viva a Indústria Brasileira!
Referência
CNI. Construindo o Brasil 2050: A Indústria na Agenda dos Presidenciáveis. Disponível em: file:///C:/Users/Eduardo/Desktop/Construindo-o-Brasil-2050-completo-1.pdf. Acesso em: 22 jun. 2026.