Estimado leitor lusófono do Portal North News, a cidade brasileira de João Pessoa, capital da Paraíba, reconhecida nacional e internacionalmente por seu potencial turístico e por suas belas paisagens naturais, enfrenta nos dias atuais uma contradição cada vez mais evidente entre a imagem que projeta e a realidade vivenciada por moradores e turistas.
Este artigo aborda a crescente insatisfação da maioria da população com os serviços de limpeza urbana no município de João Pessoa, com uma população estimada em 897.633 habitantes (IBGE, 2025), demonstrando que essa questão deixou de ser apenas uma demanda operacional para se tornar um desafio estratégico da gestão pública municipal.
João Pessoa convive com problemas recorrentes na limpeza urbana, decorrentes de falhas operacionais da Autarquia Especial Municipal de Limpeza Urbana (EMLUR), com sede localizada no Bairro dos Estados, e de duas empresas terceirizadas, elas são responsáveis pela coleta de resíduos sólidos.
Apesar do discurso institucional que apresenta à capital como uma cidade limpa, organizada, sustentável e acolhedora, a realidade revela um problema estrutural que exige soluções permanentes da Prefeitura Municipal de João Pessoa (PMJP).
Um dos principais entraves está na logística da coleta domiciliar. Em diversos bairros, moradores reclamam de atrasos frequentes, ocasionando o acúmulo de sacos de lixo nas calçadas e de resíduos provenientes da poda de árvores por vários dias. Esse cenário indica deficiências relacionadas à quantidade de caminhões de lixo disponíveis, à manutenção da frota e ao planejamento das rotas executadas pela PMJP, por meio da EMLUR.
Chama atenção a insuficiência de agentes de limpeza encarregados da varrição, da capinagem e da manutenção dos espaços públicos. Em bairros como Róger e Padre Zé, a redução desses serviços favorece o acúmulo de papéis, caixas de papelão, plásticos e resíduos orgânicos, comprometendo a paisagem urbana, a qualidade ambiental e o bem-estar da população. A manutenção permanente de ruas, avenidas, calçadas e praças, aliada à pintura periódica dos meios-fios, é indispensável para preservar uma cidade limpa, organizada e acolhedora.
Outro aspecto preocupante é a desigualdade na prestação dos serviços entre os bairros da orla marítima e as áreas periféricas mais populosas. Nessas comunidades com menor renda per capita, a menor frequência da varrição e da coleta reforça a percepção de abandono urbano, evidenciando que os serviços não são executados de forma homogênea em todo o município.
Além das deficiências operacionais, persistem fragilidades na fiscalização municipal. O descarte irregular de resíduos em terrenos baldios, vias públicas e áreas urbanas continuam ocorrendo com frequência devido à insuficiência de monitoramento e de medidas efetivas de controle.
Paralelamente, também são recorrentes os questionamentos quanto à fiscalização dos contratos firmados com as duas empresas terceirizadas responsáveis pela coleta nos bairros de João Pessoa. Em muitos casos, a execução dos serviços não corresponde ao planejamento estabelecido, revelando limitações no controle operacional e na avaliação do desempenho das empresas contratadas.
Quando ocorrem atrasos ou interrupções na coleta de lixo, a população pessoense espera respostas rápidas do poder público. Entretanto, a solução frequentemente depende de procedimentos administrativos demorados, prolongando os transtornos enfrentados pelos moradores.
Os reflexos dessa situação são facilmente observados em bairros como Mangabeira, Paratibe, Muçumagro e Valentina Figueiredo, onde o acúmulo de resíduos favorece o mau cheiro, a proliferação de moscas, mosquitos, baratas e ratos, transformando um problema urbano em uma questão de saúde pública.
A situação é agravada pela fragilidade das ações permanentes de educação ambiental. A ausência de campanhas contínuas reduz o engajamento da população na destinação correta dos resíduos sólidos e favorece práticas inadequadas de descarte de resíduos.
Ainda assim, é importante reconhecer que a responsabilidade individual, embora relevante, não é suficiente para explicar nem resolver um problema cuja origem está, sobretudo, em deficiências estruturais e administrativas, como limitações na frota de caminhões de lixo e falta de limpeza do descarte irregular de lixo em vias públicas.
Diante desse conjunto de problemas, observa-se que a crise da limpeza urbana em João Pessoa possui natureza sistêmica, envolvendo aspectos operacionais, administrativos, fiscais e educacionais interdependentes. Trata-se de um modelo que enfrenta dificuldades para acompanhar o enorme crescimento populacional, a expansão do número de imóveis, carros e motocicletas e o aumento contínuo da geração de resíduos sólidos.
Em média, cada brasileiro gera 1,24 quilograma de resíduos sólidos urbanos por dia, o equivalente a aproximadamente 382 quilos por ano, segundo a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA). Aplicando esse indicador à população estimada de João Pessoa, estima-se que cada morador da capital paraibana produza cerca de 368 quilos, em média, de resíduos sólidos urbanos por ano.
O impacto mais sensível desse cenário recai sobre a imagem turística do município. João Pessoa é amplamente divulgada como um dos principais destinos do Nordeste, reconhecida por suas lindas praias e qualidade de vida. No entanto, a presença recorrente de resíduos em vias públicas e áreas de grande circulação compromete essa percepção, afetando a reputação da cidade e sua competitividade turística em relação a outros destinos turísticos da região.
Em um ambiente altamente conectado, avaliações negativas em plataformas digitais podem influenciar diretamente o fluxo e a permanência em dias de turistas nacionais e internacionais nos hotéis e pousadas da cidade.
Turistas nacionais e, sobretudo, internacionais tendem a ser mais exigentes em relação aos padrões de limpeza urbana e sustentabilidade ambiental. Em um cenário global altamente competitivo, no qual cidades turísticas disputam visibilidade e reputação em rankings de turismo, a percepção e a constatação de problemas na limpeza urbana pode gerar efeitos negativos imediatos, como a diminuição da taxa de retorno. Atualmente, cerca de 98% dos turistas afirmam ter intenção de retornar à cidade.
Outro efeito relevante está relacionado à infraestrutura urbana. O acúmulo de lixo e de vegetação não removida, aliado à obstrução de bueiros por resíduos sólidos, dificulta o escoamento das águas pluviais e contribui para alagamentos durante períodos de chuvas intensas. Esse problema evidencia que as falhas na limpeza urbana extrapolam a dimensão estética, alcançando impactos diretos sobre a mobilidade urbana.
Nesse contexto desafiador, a situação exige mais do que intervenções pontuais. Entre as medidas prioritárias estão a ampliação e modernização da frota de coleta, o reforço das equipes de varrição e capinagem, a intensificação da fiscalização dos serviços prestados, a valorização dos agentes da limpeza urbana e o aprimoramento da gestão dos contratos terceirizados. Tais ações, quando articuladas de forma integrada, são fundamentais para a construção de um sistema mais eficiente e sustentável.
Também é indispensável fortalecer as políticas de educação ambiental, de forma contínua e estruturada, ampliando o engajamento da população na correta destinação dos resíduos. Ainda assim, tais iniciativas devem ser compreendidas como complementares, uma vez que a eficiência do sistema depende, sobretudo, da capacidade institucional de planejamento e execução.
A experiência de outras cidades demonstra que soluções estruturais são possíveis. Modelos bem-sucedidos indicam que a combinação entre planejamento de longo prazo, investimento público consistente, gestão eficiente e transparente e uso de tecnologia pode produzir resultados significativos na gestão dos resíduos urbanos.
Nesse sentido, a cidade de Curitiba, capital do Paraná, é frequentemente citada como referência nacional em gestão de resíduos sólidos. Seu modelo de coleta seletiva consolidou-se ao longo das décadas como uma política pública estruturada, baseada na continuidade administrativa e na participação da população. A separação dos resíduos por categorias (azul para papel, vermelho para plásticos, amarelo para metais, verde para vidro e marrom para resíduos orgânicos), aliada a campanhas permanentes de conscientização ambiental, contribui para a redução do volume destinado ao aterro sanitário e para o fortalecimento da reciclagem.
No cenário internacional, destaca-se Montreal, no Canadá, reconhecida por seus elevados padrões de limpeza urbana e inovação tecnológica na gestão de serviços públicos. A maior cidade da província canadense de Quebec utiliza soluções baseadas em sensores, inteligência artificial (IA) e sistemas inteligentes de roteamento para otimizar a coleta de resíduos. Essas tecnologias aumentam a eficiência operacional, reduzem custos e minimizam impactos ambientais, inserindo a gestão urbana em um contexto de cidades inteligentes.
Embora cada cidade possua características geográficas, demográficas e socioeconômicas próprias, as experiências de Curitiba e Montreal demonstram que resultados positivos e consistentes na área de limpeza urbana dependem de planejamento de longo prazo, investimento contínuo, modernização tecnológica e participação social.
Diante disso, a crise da limpeza urbana em João Pessoa não pode ser atribuída a um único fator isolado, mas à combinação de deficiências estruturais, fragilidades de gestão e limitações na execução dos serviços diários. Superar esse cenário exige uma abordagem integrada, que envolva planejamento estratégico, fortalecimento institucional, melhoria da fiscalização, valorização dos profissionais da área, uso racional de tecnologias de limpeza urbana e uma eficiente coleta seletiva de resíduos nos mais de 60 bairros da cidade.
Os agentes de limpeza urbana da cidade de João Pessoa, homens e mulheres, trabalham diariamente sob sol intenso ou chuva forte, mas desempenham uma função indispensável para o funcionamento da cidade e de uma ambiente mais saudável, mais verde e mais digno para a toda a população pessoense.
Registro neste artigo, meus sinceros agradecimentos, bem como minha admiração e respeito por cada dos mais de mil agentes de limpeza da cidade de João Pessoa, que atuam na retirada de resíduos de poda de árvores e de lixo acumulado nas calçadas, nas ruas, nas avenidas e nas praças. Após solicitação realizada pela minha esposa há mais de um mês por meio do aplicativo da PMJP, “João Pessoa na Palma da Mão”, a minha calçada foi finalmente limpa recentemente pelos agentes de limpeza. Esses profissionais são verdadeiros guardiões verdes da cidade, contribuindo diariamente para construção de uma cidade limpa e linda.
A crise na coleta de lixo e na manutenção da limpeza urbana já atinge diversos bairros de João Pessoa, entre eles, destacam-se, Róger, Padre Zé, Mandacaru, Cruz das Armas, Timbó, Tambauzinho, Tambaú, Manaíra, Cabo Branco, Bessa, Jardim Oceania, Grotão, Funcionários II, Distrito Industrial, Ernani Sátiro, Mangabeira, Paratibe, Muçumagro, Valentina Figueiredo, Expedicionários, Torre e Jaguaribe.
Ontem, durante uma caminhada da minha casa no bairro dos Expedicionários até a sede da Guia Mundo Turismo, em Jaguaribe, onde é gravado o Podcast Momentos de Turismo, foi possível constatar, in loco, diversos problemas relacionados à limpeza urbana.
Na Avenida Capitão Freire, nos Expedicionários, uma casa localizada ao lado da Panificadora Pandelly encontrava-se com sua calçada tomada por galhos e resíduos de poda de árvores, dificultando a circulação de pedestres. Na esquina, nas proximidades da Igreja São Gonçalo, no bairro da Torre, outro ponto chamava a atenção pelo acúmulo de folhas secas, evidenciando a deficiência na limpeza urbana.
A situação também é preocupante na Praça Tiradentes ou “Praça São Gonçalo”, no bairro da Torre, onde há grande quantidade de folhas espalhadas e muitos copos e garrafas de plástico ao redor da praça e até mesmo na quadra de futsal utilizada diariamente por adolescentes e jovens para a prática esportiva.
Outro problema foi observado na Avenida General Bento da Gama, nas proximidades da unidade Unimed Dia a Dia, no famoso bairro da Torre. Em um trecho da via, uma calçada está completamente tomada pelo mato alto, sem qualquer serviço de capinagem há meses, obrigando os pedestres a caminhar pela avenida e colocando em risco sua segurança no trânsito.
Em direção à Avenida Dom Pedro II, na esquina do semáforo, já em sentido à Praça dos Motoristas, em Jaguaribe, um bueiro permanece sem a grade de proteção, repleto de copos de plástico. Na própria Praça dos Motoristas também é visível o acúmulo de lixo, evidenciando o descaso com a limpeza urbana.
Esses registros revelam que o problema vai além da coleta de resíduos sólidos. A deficiência na capinação, na remoção de podas, na limpeza de praças e na manutenção da infraestrutura compromete a mobilidade urbana, a saúde pública e a qualidade de vida da população pessoense, exigindo providências urgentes por parte da administração municipal.
Infelizmente, a “queridinha do Brasil”, tem lixo descartado de forma irregular, ele acumula, entope bueiros sem grades de contenção, provoca alagamentos nas ruas, além da proliferação de doenças como dengue e leptospirose. Na atualidade, pontos turísticos como Farol do Cabo Branco e Praça João Pessoa são visíveis o descaso da coleta de lixo aos turistas brasileiros e estrangeiros.
Concluindo, somente com uma atuação coordenada entre poder público e sociedade civil será possível garantir a eficiência dos serviços de limpeza urbana, preservar a qualidade de vida da população pessoense e fortalecer a imagem de João Pessoa como cidade turística e ambientalmente responsável. Portanto, temos que resolver urgente os sérios problemas de limpeza urbana da cidade mais antiga, mais populosa, mais rica e mais bonita da Paraíba.
(*) Paulo Galvão Júnior é economista brasileiro, conselheiro efetivo do CORECON-PB, secretário do Fórum Celso Furtado de Desenvolvimento da Paraíba em João Pessoa, membro do Instituto de Inteligência Econômica (IIE) em São Paulo, apresentador do programa Economia em Alta na rádio web Alta Potência em João Pessoa, escritor, palestrante e colunista do Portal North News em Toronto, no Canadá. WhatsApp para entrevistas e palestras: +55 (83) 92000-4420.
Link da Gravação do YouTube do Podcast “Momentos de Turismo” na Guia Mundo Turismo em 30 de junho de 2026: https://www.youtube.com/live/eQ5RRPTx8Yc?is=jjF7V8gn4_dIL_zA