Quando Toy Story foi lançado em 1995 o principal questionamento que o filme trazia girava em torno da infância diante da inovação ou a obsolescência de um produto, os brinquedos.
O vaqueiro Woody representava o passado e a tradição, enquanto a chegada de Buzz Lightyear representava brinquedos do futuro, cheios de botões, luzes e barulho. Nos anos 90 a grande discussão era sobre o que ficava para trás e o que seguia em frente, mas ainda assim era brinquedo contra brinquedo.
Na era digital a conversa é outra: são telas substituindo a brincadeira. A trama central gira em torno do sofrimento dos brinquedos de Bonnie ao serem trocados por Lilypad (Lily), um tablet em formato de sapo que se torna o novo passatempo favorito da garota. O roteiro debate o tempo de tela excessivo e o que a tecnologia significa para o desenvolvimento infantil.
A maior parte dos vilões de Toy Story, com arco de redenção ou não, temem o tempo e o descarte. No segundo, terceiro e quarto filme, os brinquedos antigos eram antagonistas por carregarem o grande ressentimento que o abandono gerou neles.
Mas nessa quinta versão a motivação da antagonista, a tablet Lilypad, é completamente diferente. Ela não ficou para trás, ao contrário. Ela é o momento. Sem supervisão e controle parental, é ela quem domina o tempo para a brincadeira e tudo mais.
O medo aqui não é mais o fim da infância no sentido mais óbvio que o crescimento e o passar dos anos vai inevitavelmente trazer. O medo aqui é que a infância seja apagada como um todo, como em uma cena apresentada por outros brinquedos largados em uma vizinhança onde todas as crianças estão hipnotizadas por seus dispositivos eletrônicos.
Toy Story 5 traz um salto tecnológico expressivo e uma mudança temática profunda para a franquia da Pixar, abordando o embate entre os brinquedos tradicionais e os dispositivos eletrônicos.
O roteiro foi concebido e escrito pelo veterano Andrew Stanton, que co-escreveu os quatro filmes anteriores da franquia e dirigiu Procurando Nemo e WALL-E, em parceria com a co-diretora Kenna Harris. A experiência do longa metragem, assim como em WALL-E, ao falar sobre tecnologia e inovação é menos um sermão e mais sobre um questionamento: essa é maneira correta que podemos usar este recurso?
Toy Story 5 não vilaniza dispositivos eletrônicos e santifica os brinquedos, mas mostra que o exagero e o descontrole são na verdade o legítimos vilões para a infância. Enquanto Lily é arrogante, controladora e dominadora da atenção de uma criança tímida como Bonnie, o filme apresenta outros dispositivos que foram considerados datados e caídos no esquecimento.
O protagonismo e foco emocional muda para a boneca vaqueira Jessie, que está na franquia desde o segundo filme. Ela enfrenta a angústia existencial do esquecimento e tenta traçar um plano para fazer Bonnie socializar com uma nova amiga (Blaze, uma garotinha que se mudou para a antiga casa da primeira dona de Jessie, Emily). Os traumas de abandono e ansiedade de separação por tudo que Jessie passou são também compartilhados por dispositivos eletrônicos em desuso como o “robôzinho” de desfralde Smarty Pants, a câmera digital Snappy e o mapa eletrônico Atlas.
Falando em tecnologia, este foi o recurso mais importante para a aceleração na produção do longa metragem. Em geral, filmes típicos de animação 3D da Pixar levam em torno de 6 anos para serem produzidos e lançados. Toy Story 5 precisou de apenas 3 anos e 6 meses para ficar pronto.
A Pixar expandiu o uso da ferramenta Luna, o novo sistema de iluminação de última geração da produtora de animação 3D. Ele permite que os artistas de iluminação trabalhem de forma dinâmica e simultânea em múltiplas cenas de uma única vez (em vez de ajustar plano por plano), acelerando drasticamente o fluxo de trabalho. A produção conseguiu acelerar o processo graças ao desenvolvimento de novas tecnologias, softwares e computadores mais potentes.
Para um filme produzido com recursos digitais de uma produtora tão vanguardista como a Pixar, o braço mais tecnológico da Disney, o foco não seria condenar o uso de telas por crianças e suas famílias, mas abrir uma conversa sobre os riscos do uso exagerado entre pais e filhos.Sem q
ue os pais imponham um limite, Bonnie usa Lilypad do momento de acordar até a hora de dormir a ponto de parar de brincar. Os jogos digitais e o acesso ao chat online no filme expõe um risco que vai além da falta do uso da imaginação na infância que é o cyberbullying, o bullying nos espaços digitais.
Duas a cada três das crianças e adolescentes ao redor do mundo sofrem com cyberbullying, segundo um relatório recente da Organização das Nações Unidas. No filme, a melhoria só acontece quando os pais de Bonnie atuam no controle e supervisão sobre o uso de Lilypad, desabilitando recursos que invadem a sua privacidade e finalmente entendendo os limites e possibilidades para a saúde mental da criança.
Não é sobre impedir o uso de telas na era digital e sim sobre quando e como usá-las sem substituir a criatividade humana. E é por isso que estando em sua quinta edição, Toy Story justifica sua relevância trazendo uma discussão relevante para o tempo que vivemos. O diálogo da franquia que sempre foi pioneira para a Disney se expande para além do público infantil e chama os tutores dessas crianças para a conversa.